quinta-feira, dezembro 04, 2008

#96 - Terra vermelha (La terra degli uomini rossi - Birdwatchers), de Marco Bechis


Foi preciso um diretor chileno para fazer um registro cinematográfico contundente da questão indígena no Brasil. Mais precisamente no Mato Grosso do Sul, terra onde índios guaranis-caiowás tentam manter-se em pé diante do massacre constante às suas crenças, seus costumes e sua cultura. Em tom naturalista, Marco Bechis faz um excelente cinema político, como há muito tempo não tinha o prazer de assistir.

O filme parte de uma premissa verídica e assustadora: em pouco mais de 20 anos, 500 índios cometeram suicídio na região. A história de Terra vermelha tem como ponto de partida a morte de duas jovens. O evento perturba a ordem da tribo, que se vê obrigada a deixar uma pequena e isolada reserva demarcada e arranjada pelo governo em busca de suas raízes, em busca de uma cura para o que acreditam ser uma influência maligna. Ao levantar acampamento e reivindicar as terras que pertencem a um fazendeiro, uma série de conflitos tem início.

A primeira cena de Terra vermelha incomoda bastante. Turistas em um barco observam de binóculos os índios trajando vestimentas típicas e empunhando armas. Minutos depois, longe dos olhares curiosos, eles vestem calças jeans, tênis e camisetas. Sobem na caçamba de um caminhão e recebem o pagamento por terem feito uma espécie de figuração. Essa é apenas uma das seqüências que denunciam a situação do índio no Mato Grosso do Sul. Todas elas tratadas com a dose certa, sem exageros ou maneirismos.

O trabalho de direção de Bechis é clamoroso. Ao preparar seus protagonistas indígenas, demonstrou a eles a importância do silêncio e da expressão corporal no cinema. Para isso, foram feitas sessões de filmes como Era uma vez no oeste, de Sergio Leone, e Os pássaros, de Alfred Hitchcock. O resultado é, de fato, impecável! Os 15 minutos finais são de beleza, simplicidade e tensão - tudo em harmonia - raramente vistas no cinema contemporâneo.

Parece que Marco Bechis é bom mesmo! Ano que vem estréia por aqui o elogiadíssimo Garage Olimpo, produção do diretor chileno que tem como tema os porões da ditadura na Argentina.

8 comentários:

Kamila disse...

Não conhecia o filme, nem o diretor. Mas, acho que é interessante ver que um olhar estrangeiro sobre um problena do Brasil consegue ser mais certeiro que o nosso próprio. Este é um filme a se conferir, pelo jeito!

Kau disse...

É a segunda pessoa que fala super bem deste filme. É capaz que daqui uns 17 anos faça uma estréia aqui... e quando isso ocorrer, assistirei na primeira fila!

Abraços, Dudu!

jeff disse...

Esta semana fiquei em dúvida em assistir esse e Orquestra dos Meninos. Infelizmente, escolhi errado. Semana que vem é a vez de Terra Vermelha. Estou com boas expectativas, ainda mais depois do seu texto.

[]!

Vulgo Dudu disse...

Kamila, eu conversava com um amigo, agora há pouco, sobre o país quase não ter cinema ficcional sobre questões políticas. Poucos, como Cabra-cega ou Quase dois irmãos, que são engajados mesmo.

Kau, fica de olho que este é o tipo de filme que quando entra em cartaz, mesmo por aqui, faz passagem meteórica... Infelizmente...

Jeff, corra antes que saia de cartaz! Filmaço!

Bjs e abs!

Sérgio Déda disse...

Estreiou aqui na sexta-feira, mas não tava com muito interesse... após seu texto acho que vou assistir...

vlws

Kamila disse...

Dudu, realmente, você e seu amigo estão certos. Assisti "Quase Dois Irmãos" recentemente e notei este sentido engajado do filme.

Rafael Carvalho disse...

Muita vontade de ver esse filme, mas sei que não vai passar em minha cidade. Vou ter que esperar pelo DVD mesmo.

Vulgo Dudu disse...

Sérgio, se eu fosse você dava uma chance! Vale o confere...

Kamila, há decadas que as produções engajadas no Brasil perderam a força. Talvez seja pela inércia intelectual da juventude, mais preocupada com o materialismo, talvez pela falta de idealismo... Conjecturas...

Rafael, incomoda saber que o filme não terá o alcance que merece e que cinéfilos como você serão privados de assisti-lo.

Bjs e abs!