segunda-feira, novembro 03, 2008

#82 - Linha de passe, de Walter Salles e Daniela Thomas


Em novembro, a rede multiplex Cinemark - aquela das dezenas de salas e poucos filmes - promove um evento de projeção de filmes nacionais. Todo o espaço é ocupado pelas mais recentes produções brasileiras a preços bem camaradas: a bagatela de R$ 2,00. Altruísmo? Formação de público? Fomento da cultura brasileira? Nada disso. Apenas estratégia fiscal. Ainda assim, boa oportunidade para ver bons filmes, já que a safra anda valorizada.

Eu precisei escolher um dos que perdi quando ainda estavam em cartaz. O eleito, sem titubear, foi Linha de passe, de Walter Salles e Daniela Thomas. Expectativa enorme, por se tratar de um dos cineastas brasileiros que, acredito, mais tem grife. O filme conta a história de quatro irmãos que vivem com a mãe, gestante, na periferia de São Paulo. A dura realidade da capital a toda hora entra em choque com suas próprias verdades. Vamos testemunhando os caminhos e escolhas enquanto eles buscam saídas.

O que se segue na tela grande é uma verdadeira aula de cinema!

Lição 1 - Roteiro
Convencionou-se considerar que um roteiro precisa ter início, meio e fim. E que um pouco antes do fim, é preciso ter um clímax. Porém, na minha opinião, os melhores são aqueles que fogem dessa tríade. Em Linha de passe, o clímax flagrante que desencadearia reações esperadas da platéia nunca acontece. Em seu lugar, há um constante conflito que flerta com a simplicidade, mas que é denso. Humano e muito denso. Não há apelo. As arestas são bem aparadas.

Lição 2 - Direção
Extrair do ator a palavra dita na hora certa, no tempo correto e com a entonação apropriada chega a ser até fácil. Difícil mesmo é conseguir que o gestual, por menor que seja, alcance reverberação tão potente, capaz de deixar tudo claro. É isso que a direção de Linha de passe faz. No cinema, menos só é mais quando a proposta é clara e coesa. E quando se consegue isso, é coisa linda de deus!

Lição 3 - Fotografia
Falar que a fotografia é bonita é quase um chavão. Porém, quando ela acerta o tom e se alinha aos dois itens acima, é digna de destaque. São Paulo no asfalto: é isso que a fotografia de Linha de passe propõe. Cinza, esburacada, gasta. Uma personagem.

Lição 4 - Edição
Contar cinco histórias, uma separada da outra, mas ainda assim unidas pelo mesmo núcleo, e não soar cansativo ou confuso é tarefa hercúlea. Palmas (podiam ser até as de ouro) para a edição do filme, que faz exatamente isso!

Atores fantásticos, trilha sonora maravilhosa, montagem impecável... Podia ficar listando aqui as qualidades do filme. Saí daquela sala multiplex, com som digital, pipocas amanteigadas e poltronas reclináveis, preenchido.

Um dos melhores filmes nacionais que eu já vi!

14 comentários:

Kamila disse...

Dudu, também assisti a este filme ontem no projeto do Cinemark. Nem titubeei em escolher ver "Linha de Passe". E, para usar uma metáfora do futebol, o filme é um verdadeiro gol de placa. Assino embaixo de tudo o que você escreveu e digo mais: esta obra é o melhor filme que vi em 2008, até agora.

Pedro Henrique disse...

Não passou no Cinemark daqui... Fui ver Encarnação do Demônio.

Abraço!

Kau disse...

Dudu, me permita discordar piamente de você. O começo do filme é perfeito: desenvolve cada um dos 5 personagens principais de forma irretocável. O seu desenvolvimento é correto, mas já podemos ver que tudo pode se perder no final. E é este o meu principal problema com o filme, o seu desfecho, que é muito forçado; à ponto de eu nem ficar para ver os créditos do filme. Acho que temos uma certa carga de sensibilidade aqui; mas por horas é tudo muito gelado, frio. Acho que eles quiseram incorporar metáforas no filme e não entendi. Praticamente desde o início, tem uma pia na casa que está entupida e ninguém consegue desentupi-la, até que um dos filhos consegue a proeza. Mas a partir do “escoamento da água” coisas começam a acontecer, as quais serão decisivas para aquele desfecho.

Em termos de execução de roteiro, o casal de diretores erra um pouco. Mas em termos de ousadia, eles dão uma aula de cinema. As cenas no estádio de futebol, no trânsito de São Paulo e na casa da família são muito interessantes...

Fiquei feliz em Linha de Passe não ter sido nem inscrito. É por que dois dos filmes que concorriam à vaga são melhores (Estômago e A Casa de Alice) e, mesmo assim, foram preteridos. Pra finalizar, digo que o impossível aconteceu: não me agradei 100% com um filme de Walter Salles que considero o melhor diretor brasileiro hoje.

Abraços!!

Roberto Queiroz disse...

Em meio a todo esse debate, a desorganização das salas de cinemas cariocas que não pulverizam a programaçãe e ao projeto cinemark ter caído no único dia em que não podia ir ao cinema, ainda não vi Linha de Passe (que pelo jeito terei de ver em DVD). uma lástima!

outros blogs:
http://pequenos-takes.blogspot.com
http://robertoqueiroz.wordpress.com

Violinista do Cinema disse...

dudu eu adorei a base de sua critica!
muito boa!
bjokas,
vivi

Vulgo Dudu disse...

Kamila, bom saber que compartilhamos da mesma opinião!

Pedro Henrique, uma pena não ter passado por aí... É realmente um filmaço! Gostou do Mojica?

Kau, pois é, eu já discordo de você... Eu acho que o gelado e frio são partes integrantes do filme. Sem eles por ali, não faria muito sentido filmar o argumento. E eu achei o desfecho muito bom! Muito bom mesmo! Porque eles não precisam mostrar o que vai acontecer - não importa ter conflitos, clímax etc. E é aquela coisa: anda! Anda! Muito bom! Quanto ao roteiro, acho perfeito e preciso. As cinco histórias conseguem se desenvolver claramente, sem confusão. Bom, eu adorei o filme. Acho que deu pra ver, né? hahahaha!

Roberto, o Cinemark é lastimável, ao menos a mim, assim como a Blockbuster e as outras grandes corporações que tratam o cinema apenas como produto mercadológico, independentemente do conteúddo. Tá na cara que eles não estão preocupados com o cinema brasileiro. Mas foda-se, né? Pelo durante um dia as pessoas são obrigadas a esquecer que "ver filmes sem legenda" ou "falados em português" ainda é algo que causa estranheza.

Vivi, muito obrigado! É que, realmente, ao sair da sala, parecia que havia assistido a uma aula de como fazer cinema mesmo! Foi esse meu comentário assim que acendeu a luz, a um amigo que me acompanhava: foi uma aula de cinema!

Bjs e abs, pessoal!

Kau disse...

Dudu, como acabei de dizer à Kamila, acho que, decididamente, o problema está comigo!! Hahahahaha. Depois de ler ambos os textos, faço questão de rever o filme...
Abraços!

Anônimo disse...

Eu achei o filme escuro e chato.
Prefiro High School Musical 3.
Achei metido a besta e cansativo.
Trilha boa.

Patricio

Vulgo Dudu disse...

É Patrício... Pra você ver que tem gosto pra tudo nesse mundo. Tem gente que gosta de Linha de passe e tem gente que gosta de High School Musical 3. E viva a diversidade!

Pelo menos concordamos que a trilha é boa, né? Melhor que a de High School Musical 3, diz aí?

Abs!

Sérgio Déda disse...

Eu gostei muito do filme... não deve figurar entre os melhores que assisti no ano, mas é quase certo entre os melhores filmes nacionais....

jeff disse...

assisti ontem.só acho que a história de cada um tem um clímax, um ponto alto, o que não significa que tenha um desfecho. no mais, concordo com tudo. apaixonei-me e também é um dos melhores filmes brasileiros que assisti.

comentei um pouco sobre ele no meu.

[]s!

Vulgo Dudu disse...

Sérgio, pra mim é dos melhores do ano mesmo... Até porque os melhores que eu vi foram nacionais.

Jeff, eu acho que o desfecho prepara para um clímax que não é mostrado. O que, na minha opinião, é uma estratégia perfeita para evitar a pieguice. Vou lá conferir a sua resenha!

Abs!

Rafael Carvalho disse...

Aqui no interior tá difícil de chegar esse aí, viu. E nem posso ler esse seu texto senão tenho um ataque do coração por não ter visto o filme ainda. Walter Salles é o cineasta brasileiro atual que eu mais admiro.

Vulgo Dudu disse...

Rafael, é uma pena que um cinema genuinamente brasileiro não possa tingir seu próprio território... Walter Salles também é o meu cineasta atual preferido!

Abs!