sexta-feira, novembro 28, 2008

#95 - Rising son: the legend of skateboarder Christian Hosoi, de Cesario Montaño


Quando tinha 10 anos, ganhei de Natal dos meus pais um skate. Tava na moda. Eram quase encerrados os anos 80 e toda a molecada da rua tinha um. E não bastava uma tábua com rodinhas, era preciso ter um ídolo também. Ou o loiro topetudo e magricela Tony Hawk, que fazia manobras acrobáticas de tirar o fôlego, ou o japonês doido de cabelo comprido Christian Hosoi, que literalmente voava e fazia poses em pleno ar. Era uma competição quase maniqueísta, o bem contra o mal. Os dois disputavam praticamente todas as finais verticais. Porém, com o tempo, Hosoi foi sumindo. O documentário Rising son: the legend of skateboarder Christian Hosoi trata de elucidar o porquê.

Assim como em Dogtown and Z-Boys, documentário que tem narração de Sean Penn, Dennis Hopper é quem narra a carreira meteórica do skatista que mais parecia um rock star, tamanho o carisma e a presença. Hosoi não apenas desenvolveu uma linha mais plástica e vigorosa de andar de skate, mas também criou um estilo de vida. O problema foi justamente não saber equilibrar a fama com a alta performance que um esportista precisa manter. Ao contrário de Tony Hawk, que teve uma carreira bem mais sensata, Hosoi deu uma pirada e acabou viciado em crystal method, uma anfetamina que o levou, inclusive, para a cadeia.

O filme tem belíssimas imagens, já que o skate proporciona movimentos de extrema complexidade. O material de pesquisa e os personagens que prestam depoimentos foram escolhidos a dedo - e não têm medo de falar a verdade. Por isso, nada fica debaixo do tapete. Na sequência mais pesada, o pai de Hosoi admite que se drogava com o próprio filho.

O problema é o desfecho politicamente correto demais. Aliás, religiosamente correto demais. Hosoi ficou preso por alguns anos e foi solto recentemente, em 2004. Atrás das grandes, começou a ler a bíblia e se converteu. Atualmente, é pastor e viaja o mundo contando sua experiência - um roteiro um tanto previsível, mas perfeitamente compreensível para quem foi do topo do half ao fundo do poço. O problema é que o diretor Cesario Montaño, em sua estréia, dá muita ênfase ao papel da religião na vida de Hosoi. Os minutos finais funcionam quase como uma pregação, espécie de discurso sentimentalóide. É chato de ver.

Ainda assim, é uma vida que vale a biografia! Até hoje, Hosoi é referência de ousadia e irreverência para muitos skatistas.

quinta-feira, novembro 27, 2008

#94 - Berlin Alexanderplatz (Parte 4 - Um punhado de gente nas profundezas do silêncio), de Rainer Werner Fassbinder


No quarto episódio da série filmada mais longa da história, Franz Biberkopf, ainda sem barba e nem um pouco parecido com De Niro ou Val Kilmer, se entrega à bebida. O protagonista passa a morar em uma espécie de cortiço, onde funciona um depósito de bebidas no andar térreo.

De tanto beber cerveja, Franz acaba adoecendo. Ele conhece um misterioso homem que foi enfermeiro na guerra e que promete o curar. De tão bêbado, ele chega até a recusar uma mulher, logo ele, e é humilhado aos berros de "broxa".

O texto começa a ficar pesado nesta quarta parte da história. Por consegüinte, começa a ficar melhor! A vida de todos os moradores do local é esmiuçada. Os efeitos da miséria que assolava grande parte da Alemanha no período entreguerras fica cada vez mais evidente. É também cada vez mais flagrante a idéia de que Franz não vai aguentar por muito tempo a idéia de levar uma vida honesta.

E olha que não estou nem na metade...

quarta-feira, novembro 26, 2008

#93 - Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen


Woody Allen é esperto. Trocou a bruma acinzentada de Londres pelas cores vivas e berrantes de Barcelona. Ô cidadezinha especial essa capital da resistência catalã! É preciso muito autocontrole e um aparato racional altamente desenvolvido para não morrer de amor em Barcelona. Eu digo por experiência própria.

Antes mesmo da estréia, muito já se falava da mais nova produção de Allen. Dois pitéis, Penélope Cruz (que não faz parte do título, mas ainda assim rouba os holofotes) e Scarlett Johansson, trocando carícias - diziam os tablóides sensacionalistas. Pois Vicky Cristina Barcelona oferece muto mais que isso. Ok, longe de ser das melhores produções do diretor estadunidense, mas é uma encantadora demonstração de como um choque de cultura pode afetar para sempre a vida de todos que pisam o solo catalão e não têm, como disse no parágrafo ali de cima, autocontrole e aparato racional altamente desenvolvido.

O roteiro conta a história de duas amigas que viajam para passar o verão em Barcelona. Vicky (Rebecca Hall, competente, interpretando uma espécie de Allen de saias) é uma estudante de mestrado prestes a se casar, correta e avessa ao inesperado. Cristina (Scarlett Johansson), é mais liberal, do tipo que não planeja o futuro. As duas conhecem um pintor catalão (Javier Barden), que causa reviravoltas em ambas as vidas.

Vicky Cristina Barcelona é despretensioso no tema, mas não deixa de lado o requinte típico dos filmes de Allen. Belas paisagens, obras de arte, restaurantes chiques, casas suntuosas e música tipicamente espanhola lembram a toda hora como é pasteurizada a cultura estadunidense, de onde vêm as protagonistas. Assim fica fácil para Javier Barden consquistar qualquer turista incauta... Ao mesmo tempo, estereótipos são postos à prova o tempo inteiro pela narração em off - recurso que caiu muito bem ao filme.

Ao final da projeção, Vicky Cristina Barcelona despertou em mim uma série de lembranças bacanas. A principal delas foi: como é difícil não se apaixonar em Barcelona!

segunda-feira, novembro 24, 2008

#92 - Waiting for Godot, de Michael Lindsay-Hogg


Algumas manifestações artísticas são capazes de transformar vidas. Já dizia Heidegger que uma obra de arte instaura um mundo. Foi o que a peça "Esperando Godot", de Samuel Beckett, fez em mim há alguns anos. Leitura arrebatadora, inesperada, difusa e instigante. A mesma experiência tive durante encenações e leituras dramatizadas. E, agora, tudo de novo ao ver um dos meus textos favoritos capturado em película.

"Esperando Godot", para muitos, é a expressão máxima de uma corrente que ficou conhecida como Teatro do Absurdo. Partindo de situações aparentemente surreais, os personagens são forçados a fazer uma reflexão quase existencialista daquilo que os cerca. Como nos textos platônicos, os diálogos parecem acabar sempre em aporia, revelando uma inércia do homem perante espaço e tempo. Na peça de Beckett, dois sujeitos, Vladimir e Estragon, esperam Godot, que nunca chega.

A adaptação é religiosamente irlandesa, proveniente da terra do dramaturgo, o que dá autenticidade ao texto. Atores com bagagem beckettiana no teatro se mostram muito à vontade. Porém, ao contrário do que muita gente pode esperar, é quase um teatro filmado. Há, sim, movimentos de câmera que enquadram e direcionam o olhar do espectador, recurso não disponível num palco italiano. O único problema é a língua. Não há legendas disponíveis, nem em inglês. Entender o que os personagens estão falando, vez em quando, é muito difícil. Porém, para quem conhece o texto, isso não vira uma barreira.

O filme, dirigido por Michael Lindsay-Hogg, faz parte de uma coletânea lançada em 2001, chamada Beckett on film. As peças do dramaturgo foram filmadas por diretores e atores consagrados e reunidas em uma bela caixa - que já virou objeto de desejo. Para citar os mais conhecidos, David Mamet dirige a esquete "Catastrophe", aqui.

Até hoje, algumas montagens são feitas em palcos brasileiros. Poucas, infelizmente. Cacilda Becker fez história na pele de Estragon, ao lado do marido Walmor Chagas. Morreu durante uma apresentação, em 1969.

Ler, presenciar ou assistir à "Esperando Godot", não importa o suporte usado, é uma experiência inspiradora. Escrever sobre, também!

sábado, novembro 22, 2008

#91 - A bola da vez (Sixty six), de Paul Weiland


Pela capa, pelos atores, pelo roteiro e pela sinopse, A bola da vez parece ser uma boa pedida para quem procura uma comédia leve, com humor britânico refinado. Porém, muita gente vai se surpreender quando levar o filme para casa. E vai querer amaldiçoar o danado que não catalogou o filme como drama. Dramalhão, para ser mais correto.

Espia: um jovem judeu desajustado, maltratado no colégio e ofuscado pelo irmão mais velho está prestes a virar homem, ou seja, a dias de comemorar seu Bar Mitzvah. Porém, para sua infelicidade, a data coincide com a final da Copa do Mundo de 1966, sediada pela Inglaterra - que viria a ser, inclusive, a campeã. Não bastasse a impopularidade escolar, sua festa ainda corre o risco de ser um fiasco, esvaziada pelo certame. Ele logo passa a estudar sobre futebol e a torcer contra a seleção inglesa.

Há um tempo defendo a idéia de uma nova prateleira em todas as videolocadoras sinalizando os "dramas cômicos". Nesses casos, o foco deixaria de ser o riso fácil. A bola da vez é assim: quase não tem graça, no sentido lúdico do predicado - o que, graças ao bom e interessante argumento, não é ponto negativo. Boas interpretações ajudam a manter o ritmo do filme até os minutos finais, quando uma "mensagem" acaba indispensável para agradar os espectadores perplexos com o tanto de tragédia que o menino sofre. Apesar de um desfecho auto-explicativo, com direito a narração, a história é bem contada. Mas é drama!

Guardadas as devidas proporções, é como se fosse O ano em que meus pais saíram de férias dos britânicos: o olhar forçosamente amadurecido de uma criança sobre a vida, tendo como cenário um fato histórico.

quinta-feira, novembro 20, 2008

#90 - Loucos por nada (Eagle vs. shark), de Taika Cohen


Vem da Nova Zelândia, terra dos Maori, guerreiros tatuados, e de Peter Jackson, um filme que ganhou notoriedade nos cinemas estadunidenses depois que foi exibido no Sundance Festival do ano passado. É independente, é estranho, mas é fofo.

Seguindo a linha das comédias românticas sobre desajustados sociais, até que Loucos por nada não faz feio. Fruto da oficina de roteiros do festival de Redford, o filme narra a relação nada normal de uma balconista de uma lanchonete fast food com um viciado em videogames. O casal se encontra em uma festa na qual é preciso ir fantasiado como seu animal preferido. Ela vai de tubarão e ele, de águia.

Está preparado o cenário para situações insólitas, diálogos surreais e personagens pouco convencionais. Os mesmos ingredientes que fizeram de Napoleon Dynamite, por exemplo, um grande sucesso nos Estados Unidos entre o público jovem. Loucos por nada seguiu a mesma trilha, apesar da procedência neozelandesa.

O ator, diretor e roteirista Taika Cohen (é nome masculino) mostra que aproveitou bem as aulas nas oficinas de roteiro. Criou uma história bacana, com trilha sonora esperta e inserção de animações em pixilation (aquela técnica de fotografias em seqüência). Nada mal para uma comédia romântica!

Pena que a safra atual de filmes da Nova Zelândia seja tão parecida com o cinema estadunidense. Logo eles, que tem uma cultura aborígene tão interessante...

quarta-feira, novembro 19, 2008

#89 - Berlin Alexanderplatz (Parte 3 - Uma martelada na cabeça pode ferir a alma), de Rainer Werner Fassbinder


Continuando com a saga de Franz Biberkopf, o terceiro episódio mostra a luta por um emprego digno. Depois de vender um jornal nazista, o ex-detento passa a comercializar cadarços de sapatos. Porém, acaba se envolvendo com uma de suas clientes. O que acaba em confusão.

Aliás, Franz é um garanhão, apesar de feio, neurastênico, gordo e mal ajambrado. Até agora, em apenas três episódios, já assediou e levou para a cama várias mulheres. E não tem tempo feio: puta, viúva, cunhada. Todas elas interpretadas por belas atrizes alemãs.

O cuidado com a fotografia é notável. Claro, em grande parte a beleza do fotograma se dá pela restauração digital. Porém, a luz é muito bem trabalhada. Os olhos dos personagens chegam a brilhar.

Partimos para o episódio 4, em breve...

terça-feira, novembro 18, 2008

#88 - O Homem-meteoro (The Meteor Man), de Robert Townsend


Não podia esperar muito de um DVD que me custou apenas R$ 1,50 - exatamente isso, no supermecado Extra. Ou seja, pelo preço de uma garrafa das cervejas belgas do post aí de baixo, daria pra comprar algumas cópias de O Homem-meteoro. Aí podem querer saber: mas por que cargas d'água você comprou esse filme? E a resposta é simples: porque eu achei que ia ser muito ruim mesmo, no estilo trash. Mas não foi. Quer dizer, foi ruim, entende?

Obviamente, trata-se de uma sátira aos filmes de super-heróis. Dada a minha implicância com esses seres arquetípicos, esperava encontrar certo alento no argumento do filme, que segue a fórmula de todas as produções do gênero. A saber: um sujeito normal leva uma vida pacata, mas de repente sofre uma experiência traumática que lhe rende poderes. Precisa, então, de um mentor - alguém que vai guiá-lo e mostrá-lo como usá-los para vencer um trauma, que concentra seu apogeu na figura de um antagonista quase tão sobrenatural quanto ele próprio. O vilão sempre apela para o lado humano do super-herói, colocando a vida de pessoas comuns em risco. E por aí vai, né...

Em O Homem-meteoro a história não é diferente: um professor covardão que vive em um bairro dominado pelo tráfico é atingido por um meteoro. Ganha superpoderes e passa a lutar contra o traficante mais temido da cidade. E aí, o que poderia se tornar um festival de deboche acaba seguindo a linha "lição de vida". Nada de politicamente incorreto acontece. O filme tem falhas grotescas de continuidade e o roteiro tem mais buraco que a Rio-Santos, pois foi reescrito centenas e centenas de vezes.

E no fim, Bill Cosby salva o dia... Não teve graça nenhuma.

Quero meu dinheiro de volta!

domingo, novembro 16, 2008

#87 - Com a bola toda (Dodgeball), de Rawson Marshall Thurber


Cervejas belgas, quitutes gordurosos e uma boa comédia pastiche têm o poder de salvar uma noite daquelas sem opções. Pela enésima vez, o filme escolhido para acompanhar garrafas de Leffe e porções de salaminho e amendoim foi Com a bola toda.

Ben Stiller e Vince Vaughn, dois dos melhores atores desta nova safra do gênero, estão em perfeita sintonia nessa história que beira o absurdo. Ambos são donos de academias de ginástica rivais, que acabam se enfrentando em um campeonato de queimado - aquele esporte (?) que muita gente praticou nas aulas de Educação Física, no primário. O prêmio, US$ 50 mil, poderá salvar o personagem de Vaughn de perder sua modesta academia para o ganancioso empresário interpretado por Stiller.

O mais bacana, que eu nunca havia visto, é o final original, que queriam os atores e o diretor, mas que acabou sendo cortado a mando dos executivos do estúdio. Nele, a equipe do bem perde o jogo. E pronto, sem mais delongas. Sensacional!

Eu ri tudo que tinha rido na primeira vez que assisti ao filme, de novo!

sexta-feira, novembro 14, 2008

#86 - Fearless Freaks, de Bradley Beesley


Os Flaming Lips elevam o conceito de música a impressionantes patamares sensoriais. A primeira vez que eu escutei a banda tocando "She don't use jelly", talvez o grande hit, fiquei completamente hipnotizado com os timbres dissonantes e a voz inconfundível de Wayne Coyne. Já era fã. Pouco tempo depois, pude vê-los na TV, durante um show. E aí a coisa ficou mais séria. Um show dos Flaming Lips não respeita o conceito universal do que deve ser uma apresentação musical. É lindo!


O documentário Fearless Freaks, dirigido por um grande amigo de Wayne, Bradley Beesley, é um dos melhores registros da trajetória de uma banda que eu já vi. Desde o início das atividades do grupo, no começo da década de 80, até os dias atuais, está tudo documentado: os bons e os maus momentos. Inclusive, os péssimos momentos com as drogas, que quase levaram a banda à extinção. Em uma das cenas mais chocantes, Steven Drozd, baterista e multi instrumentista, se deixa filmar consumindo heroína.

O título do filme faz referência a um time de futebol americano de quintal que Wayne, seus irmãos e seus vizinhos montaram. Jogavam para valer, sem proteções e sem medo de contusões. O mesmo acontece com o Flaming Lips. Eles nunca tiveram medo de arriscar. A experimentação musical sempre esteve presente na sonoridade. Prova disso é que a banda acostumou-se a remar contra a maré do sucesso fácil, preferindo ousar em projetos interessantíssimos. Por exemplo, o Parking Lot Project, no qual centenas de pessoas ganhavam uma fita K7 e um minisystem cada. Depois, recebiam instruções de quando apertar o play. Dessa forma, como maestros, Wayne e seus colegas praticamente regiam uma espécie de orquestra nada convencional. Outro projeto ousado, mas apoiado pela gravadora, foi o Zaireeka: um álbum gravado em quatro CDs. Porém, para escutá-lo na totalidade, era preciso tocar todos de uma vez, pois cada um continha apenas um instrumento.

Como já disse, os shows são uma atração à parte. É uma espécie de celebração. As inserções teatrais são tantas, que levaria dezenas de parágrafos para listá-las. Durante o péssimo festival Claro Que é Rock, aqui no Rio, alguns espectadores foram sorteados para participar da apresentação do Flaming Lips diretamente do palco. Todos devidamente vestidos em trajes de bichinhos felpudos. Deu para entender?

Prato cheio para os fãs da banda. Dica quente para quem não conhece. É impossível ficar indiferente perante os Flaming Lips...

quinta-feira, novembro 13, 2008

#85 - Berlin Alexanderplatz (Parte 2 - Como viver quando não queremos morrer?), de Rainer Werner Fassbinder


Dois já foram! E uma observação que pode ser feita dessas quase três horas já assistidas é que não se trata de uma narrativa enfadonha. Fassbinder capricha na direção e proporciona algumas maldades, com texto bem afiado.

A série mostra um sujeito chamado Franz Biberkopf (Günter Lamprecht), condenado por assassinato, lutando para reconstruir sua vida após deixar a prisão. Ele tenta andar na linha, mas as tentações são muitas. Tudo se passa na na Berlim dos anos 20/30, em plena República de Weimar, no período entreguerras. A Alemanha estava enfraquecida pela Primeira Guerra Mundial e o nazismo, prestes a eclodir. Havia desemprego e recessão. Cenário desanimador.

O primeiro episódio começa com Franz sendo libertado. Neste segundo, ele já busca um emprego digno. Será que consegue?

quarta-feira, novembro 12, 2008

#84 - Gomorra, de Matteo Garrone


Yes, eles também têm crime organizado! Baseado no polêmico livro de Roberto Saviano, Gomorra trata de uma das organizações mais violentas da Itália, e por que não do mundo: a Camorra. O diretor Matteo Garrone, que já foi tenista profissional, adaptou para a tela grande cinco histórias contidas no relato chocante de como as drogas, as armas e a lavagem de dinheiro tomaram conta da periferia de Scampia, em Napoli - local que tem o maior movimento de venda de drogas do mundo.

A estética é crua e com toques de naturalismo. Atores desconhecidos, feios e sem maquiagem fazem com que as seqüências sejam bastante realistas, o que talvez seja o ponto alto do filme. Indiscutivelmente, o roteiro é parte integrante de um documento que serve como denúncia. Famílias inteiras são afetadas, direta ou indiretamente, pela Camorra. A corruptela do nome da organização com o título do filme é perfeita. Scampia se tornou uma verdadeira Gomorra. É um filme corajoso, coerente e coeso. Porém, confesso, não me atraiu tanto a atenção. Tecnicamente, nada de novo. Tematicamente, nada de tão chocante, cinematograficamente, que já não tenhamos visto. Inclusive, o diretor opta por atenuar os enquadramentos de algumas cenas de extrema brutalidade.

Muito tem se falado de Gomorra. O filme causou rebuliço em Cannes e acabou se tornando um forte candidato ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Acredito que o livro seja muito bom!

segunda-feira, novembro 10, 2008

#83 - Berlin Alexanderplatz (Parte 1 - O castigo começa), de Rainer Werner Fassbinder


O melhor presente de aniversário que um cinéfilo pode ganhar é DVD. É a mesma concepção de felicidade da criança com o brinquedo. Portanto, meu progenitor acertou em cheio ao me presentear com uma caixa contendo seis DVDs da série filmada em 16 mm mais longa da história, Berlin Alexanderplatz, contendo 13 episódios e somando algo em torno de 16 horas de projeção.

Os fotogramas originais foram restaurados com as técnicas digitais mais avançadas da indústria cinematográfica. Agora, a nossa geração vai poder conferir, sem perda de qualidade, uma das obras mais importantes do que convencionou-se chamar de Novo Cinema Alemão.

O primeiro episódio já foi. Anotei-o como número 83. Porém, agora vou esperar chegar até o último para então tecer comentário sobre a obra como um todo. O que posso adiantar é que Fassbinder não é dos meus favoritos - até por isso conheço pouco a obra dele. E sei também que a fama do cara não é das melhores: é acusado por bibliógrafos de ser anti-semita, anticomunista, arrogante e malvado com seus atores. O que, na verdade, torna Berlin Alexanderplatz mais interessante.

Voltaremos ao filme mais tarde...

segunda-feira, novembro 03, 2008

#82 - Linha de passe, de Walter Salles e Daniela Thomas


Em novembro, a rede multiplex Cinemark - aquela das dezenas de salas e poucos filmes - promove um evento de projeção de filmes nacionais. Todo o espaço é ocupado pelas mais recentes produções brasileiras a preços bem camaradas: a bagatela de R$ 2,00. Altruísmo? Formação de público? Fomento da cultura brasileira? Nada disso. Apenas estratégia fiscal. Ainda assim, boa oportunidade para ver bons filmes, já que a safra anda valorizada.

Eu precisei escolher um dos que perdi quando ainda estavam em cartaz. O eleito, sem titubear, foi Linha de passe, de Walter Salles e Daniela Thomas. Expectativa enorme, por se tratar de um dos cineastas brasileiros que, acredito, mais tem grife. O filme conta a história de quatro irmãos que vivem com a mãe, gestante, na periferia de São Paulo. A dura realidade da capital a toda hora entra em choque com suas próprias verdades. Vamos testemunhando os caminhos e escolhas enquanto eles buscam saídas.

O que se segue na tela grande é uma verdadeira aula de cinema!

Lição 1 - Roteiro
Convencionou-se considerar que um roteiro precisa ter início, meio e fim. E que um pouco antes do fim, é preciso ter um clímax. Porém, na minha opinião, os melhores são aqueles que fogem dessa tríade. Em Linha de passe, o clímax flagrante que desencadearia reações esperadas da platéia nunca acontece. Em seu lugar, há um constante conflito que flerta com a simplicidade, mas que é denso. Humano e muito denso. Não há apelo. As arestas são bem aparadas.

Lição 2 - Direção
Extrair do ator a palavra dita na hora certa, no tempo correto e com a entonação apropriada chega a ser até fácil. Difícil mesmo é conseguir que o gestual, por menor que seja, alcance reverberação tão potente, capaz de deixar tudo claro. É isso que a direção de Linha de passe faz. No cinema, menos só é mais quando a proposta é clara e coesa. E quando se consegue isso, é coisa linda de deus!

Lição 3 - Fotografia
Falar que a fotografia é bonita é quase um chavão. Porém, quando ela acerta o tom e se alinha aos dois itens acima, é digna de destaque. São Paulo no asfalto: é isso que a fotografia de Linha de passe propõe. Cinza, esburacada, gasta. Uma personagem.

Lição 4 - Edição
Contar cinco histórias, uma separada da outra, mas ainda assim unidas pelo mesmo núcleo, e não soar cansativo ou confuso é tarefa hercúlea. Palmas (podiam ser até as de ouro) para a edição do filme, que faz exatamente isso!

Atores fantásticos, trilha sonora maravilhosa, montagem impecável... Podia ficar listando aqui as qualidades do filme. Saí daquela sala multiplex, com som digital, pipocas amanteigadas e poltronas reclináveis, preenchido.

Um dos melhores filmes nacionais que eu já vi!