terça-feira, setembro 30, 2008

#76 - Repo Man, de Alex Cox


Será possível que todas as vezes que Repo Man foi ao ar na Sessão da Tarde eu estava longe da TV? Porque, conforme fiquei sabendo, era atração rotineira na grade de programação vespertina na época em que não havia essa enxurrada de animais inteligentes na tela.

Cogitei a hipótese de ser um daqueles filmes que você só se toca de estar revendo lá pela metade. Mas eu me lembraria da trilha sonora espetacular, que vai de Iggy Pop a Suicidal Tendencies. E não é só isso: o roteiro é insano! Mistura jovens punks, roubo de carros e conspirações alienígenas.

Repo man é um sujeito que pratica repossession, ou seja, toma na mão grande o carro de quem está com as contas pendentes. Otto, interpretado pelo então frangote Emilio Estevez, acaba se tornando um deles depois de roubar um carro, enganado por Bud (o sempre irretocável Harry Dean Stanton), um repo man experiente. E aí você pergunta "e cadê a conspiração alienígena?". É que um dos automóveis mais visados pelos repo men, e também pelo serviço secreto dos Estados Unidos, é um Malibu em cujo porta-malas estão quatro cadáveres de seres extraterrestres.

Repo Man é mais iconoclástico do que de fato interessante. Porém, parafraseando outra atração vespertina, vale a pena ver de novo.

sábado, setembro 27, 2008

#75 - Surf nazis must die!, de Peter George


O título acima aguçou a curiosidade de muita gente em 1987, ano de lançamento, pasmem, no festival de Cannes. Obviamente, Surf nazis must die foi esculachado e espinafrado por quase toda a crítica da época. Acabou virando mais um cult movie da famosa produtora Troma - criada para produzir e lançar filmes de baixo orçamento.

Em mais um de seus exploitations, o roteiro... Ah, o filme nem tem um roteiro de verdade! Conta a história de um grupo de surfistas nazistas que aterroriza as praias de uma Califórnia arrasada por um terremoto de proporções catastróficas. Liderados por um sujeito de bigode ralo e alcunha Adolf, eles planejam dominar a área eliminando outras gangues existentes.

Generalizando, Surf nazis must die é um Warriors trash. Com direito a indumentária da pior qualidade! Os tais surfistas nazistas estão o tempo inteiro de long john (a roupa de borracha para surfar em águas frias) e têm soásticas pintadas nas bochechas. Há o bando de skatistas com roupas rasgadas, os japoneses ninjas com bandanas na cabeça e os playboys atléticos de roupas coloridas. Todos empanturrados de maquiagem e cheios de acessórios da década de 80. Uma trilha sonora repleta de sintetizadores futuristas completa o trabalho.

Apesar das falhas de roteiro e montagem, quem gosta de um bom exploitation, sem pretensões e descompromissado com argumentos, pode achar divertido. O problema é que a cópia disponível é um lixo!

Será que é de propósito?

quarta-feira, setembro 24, 2008

Meme - 10 musas da tela grande

O também companheiro de resenhas Sérgio, que mantém o recomendado Blog dos Cinéfilos, me passou a tarefa de escolher dez "pitéis" que preencheram com exuberância e talento as grandes telas dos cinemas. Como eu adoro fazer listas, já que recordar é viver, tratei logo de fazer a minha, com mulheres que ajudaram a me tornar um amante inveterado da sétima arte. Confesso que achei que seria mais fácil... Depois de muitas elucubrações, eis as escolhidas, em ordem aleatória.

Salma Hayek
Me lembro como se fosse ontem. Eu, jovem, em uma sala de cinema vazia, embasbacado e de queixo caído em uma das melhores cenas de Um drink no inferno. Salma Hayek, em trajes de banho, dançava com uma cobra envolta no corpo.




Tainá Müller
Cão sem dono, um dos melhores nacionais do ano passado, tem seus méritos pelo roteiro e pela atuação do casal protagonista. Mas é Tainá Müller quem rouba todas as cenas em que aparece, provando que não basta ser bela, tem que saber interpretar! E melhor: é coisa nossa!




Catherine Deneuve
Eterna bela da tarde, do dia, da noite, da madrugada, da alvorada, do chá das cinco. Foi na pele da mulher casada que resolve se prostituir, sob direção do mestre Buñuel, que Deneuve conquistou minha admiração.





Ángela Molina
Buñuel tinha realmente um olho clínico para trabalhar a volúpia feminina. Escolheu Ángela Molina como uma das duas intérpretes da mulher que é um obscuro objeto do desejo.






Claudia Cardinale
Modelo e atriz são predicados que quase nunca combinam, feito lasanha e feijão. Não no caso de Claudia Cardinale, que entrou na indústria cinematográfica após chamar a atenção em concursos de beleza. Basta assistir a Era uma vez no Oeste para concluir que, no caso dela, modelo e atriz formam par.



Kelly Preston
Se você, que nem eu, era adolescente na década de 80, provavelmente vibrou com os peitinhos de Kelly Preston em A primeira transa de Jonathan. Na época, em quase todos os filmes que fez, ela era a loira cobiçada que acabava sozinha por culpa da própria vaidade. Tadinha...



Tia Carrere
Wayne Campbell, de Quanto mais idiota melhor, não tinha nada de bobo. Tinha mesmo é bom gosto: queria uma Fender Stratocaster branca e a Tia Carrere!







Kristy Swanson
Eu confesso: chorei quando Samantha, a personagem de Kristy Swanson em A maldição de Samantha, morreu, logo no início do filme. O vizinho a ressuscita e ela acaba voltando meio esquisita, mas ainda assim encantadora. Seria isso necrofilia? Eu hein...




Gretchen Mol
Foi com extrema competência e formosura que a loira Gretchen Mol tingiu os cabelos de preto para viver nas telas a famosa e espevitada pin up Bettie Page. De chicote e cinta-liga.






Scarlett Johansson Acho que é meio lugar comum e ela é a bola da vez. Vai até lançar disco. Porém, quem viu Encontros e desencontros ou Match Point não pode fazer uma lista sem Scarlett Johansson.







A maioria já foi desafiada. Porém, tenho dois amigos que, tenho certeza, vão mandar bem em suas respectivas listas. Dougra, ou melhor, Surfista Platinado, mãos à obra! Mendes, você também. Caprichem!

segunda-feira, setembro 22, 2008

#74 - Ladrões de bicicleta (Ladri di biciclette), de Vittorio de Sica


Rever Ladrões de bicicleta é sempre um prazer. Melhor ainda ao lado de alguém que desconhece a obra. É interessante observar o efeito que o filme, produzido em 1948, é capaz de provocar, até hoje, em quem realmente gosta de cinema.

O roteiro conta a história de um homem, desesperado por um emprego em uma Itália arrasada pelo pós-II Guerra Mundial, que arruma um trabalho de colar cartazes. Como requisito, precisa de uma bicicleta. Penhora sua roupa de cama para isso, mas tem o veículo subtraído logo no primeiro dia de labuta. Passa, ao lado do filho, a buscar desesperadamente os ladrões por uma cidade miserável e desesperançosa.

Como um bom representante do neo-realismo italiano, estão lá as características que ditaram as regras do movimento: locações externas, atores amadores e forte temática social.

Sem querer soar pedante, mas é uma obra imprescindível para quem quer ter repertório cinematográfico!

sábado, setembro 20, 2008

Luzes, câmera... canção! - Yo La Tengo

Tem muito videoclipe por aí que vale por um bom curta! Diversos diretores consagrados começaram a carreira nesta modalidade que mistura som e imagem. Dois bons exemplos são Michel Gondry e Spike Jonze.

Por isso, resolvi criar uma nova seção por aqui. Chama-se "Luzes, câmera... canção!". Vou publicar periodicamente videoclipes que são verdadeiras pérolas. Têm roteiro, edição, montagem, fotografia e atuações dignas de pertecerem à sétima arte.

E para a estréia, a banda de indie rock Yo La Tengo, com a música "Sugarcubes". Para assinar com uma grande gravadora, o trio é forçado a se inscrever em uma escola que ensina como ser um verdadeiro astro do rock. No corpo docente, um sujeito de cara pintada como um dos integrantes do Kiss e um assistente de cabelo rosa. O roteiro conta com uma enxurrada de sátiras a grandes clássicos do rock. Destaque para a Foghat Rule: o seu quarto álbum deve ser duplo e ao vivo! Participação especial de David Coverdale (será que é ele mesmo?).



Na tela grande, o Yo La Tengo fez uma ponta no excelente O livro da vida, de Hal Hartley. No filme, Jesus Cristo volta à Terra na pele de um executivo de Wall Street para, ao lado de Maria Madela (PJ Harvey!), abrir o sétimo selo e acabar com o mundo. Detalhe: o tal Livro da Vida é um laptop da Mac... Imperdível!

quinta-feira, setembro 18, 2008

#73 - Surfwise, de Doug Pray


Há tempos que documentários de surf deixaram de ser apenas longas sessions com uma trilha sonora qualquer de fundo. Tem muito diretor bom esmiuçando os conceitos e a plástica que só um esporte praticado em extremo contato com a natureza pode proporcionar. Doug Pray (do ótimo Hype!) é um deles, e consegue com honras extrair do surf um belíssimo documentário.

Surfwise acompanha a trajetória nada comum da família de Dorian Paskowitz, um médico surfista que resolveu largar tudo e ir viver em um trailer, feito um nômade, parando de praia em praia. Ao longo do tempo, fez nove filhos e os manteve sempre debaixo de sua asa. Era contra educação escolar, detestava dinheiro, obrigava os rebentos a surfar e tinha opiniões muito curiosas sobre sexo - praticava a felação dentro do veículo, na frente dos pimpolhos. O filme mostra como uma filosofia de vida que antagonizava com o american way of life também podia sofrer a interferência de uma sociedade na qual o materialismo fica sempre em evidência.

Pray caprichou para contar essa bela e tocante história sobre um patriarca e a sua tentativa, com métodos incomuns, de manter a unidade familiar. A edição é sensacional e não se apóia apenas em belas imagens de praias paradisíacas. A trilha sonora é outro destaque, composta especialmente para o filme. O material de arquivo é vasto e curioso. As entrevistas vão ao ponto certo, sem receio de deixar vir à tona assuntos delicados como brigas, separações e mágoas.

O surfe está lá, e muito bem praticado, já que os Paskowitz cuidavam de uma das melhores escolinhas de surfe do mundo - ninguém menos que Kelly Slater foi um dos instrutores. Porém, é apenas um contraponto para as idéias e concepções do patriarca.

Sensacional!

segunda-feira, setembro 15, 2008

#72 - Meu nome é Taylor, Drillbit Taylor (Drillbit Taylor), de Steven Brill


Eu sabia que estava forçando um pouco a barra quando resolvi alugar Meu nome é Taylor, Drillbit Taylor - título patético em português -, a nova comédia da patota de Judd Apatow, escrita pelo também ator Seth Rogen. Porém, como a maioria dos filmes desta nova safra de comediantes tem conseguido me agradar, resolvi arriscar.

Foi assim: durante a primeira metade do filme, eu ri de verdade, sozinho; já durante a segunda parte, os risos foram ficando cada vez mais escassos, em progressão geométrica, até o desfecho chato, politicamente correto e previsível.

O roteiro conta uma história que estadunidenses adoram, mas que aqui não tem tanto cartaz: o bullying, que é quando os valentões torturam os coleguinhas mais fracos, em demonstração de covardia e comportamento anti-social. Três adolescentes do primeiro ano contratam um veterano de guerra para os proteger de dois trogloditas (um deles é o protagonista de Elefante, ou seja, cara de perturbado ele tem). Como catarses, nesses casos, são sempre bem aceitas pelo público, táticas de guerrilha são colocadas em prática na tentativa de acabar com a humilhação.

O filme tem lá seus bons momentos, principalmente com o trio de fracos e oprimidos: um magricela desconjuntado, um gordinho lazarento e um nerd convicto. Perfeitos, os três roubam a cena, ofuscando o fraco Owen Wilson, que não rende o que pode. O problema é que o roteiro não tem muito por onde fluir, já que o tema é batido.

A terceira parte, a dos extras, que costumam ser ótimos nos filmes produzidos por Apatow, também não rendeu risos.

quinta-feira, setembro 11, 2008

#71 - American hardcore, de Paul Rachman


Música pode ser uma sopa de letrinhas. São tantos os estilos e vertentes, que de vez em quando fica difícil acompanhar os rótulos midiáticos. Porém, o bom e velho hardcore ganhou um documentário só dele - esse aí do lado, American hardcore -, que explica melhor o que foi o movimento que, em meados dos anos 80, influenciou tantos outros.

Se o punk foi o do it yourself que se aplicava à cena cultural inglesa, o hardcore funcionou como a versão estadunidense desse esquema. Com variações, é claro. Trazendo à tona a dura realidade da classe média e dos subúrbios, a recessão e o governo de Ronald Reagan, as músicas eram mais velozes, furiosas e contestadoras. As letras, mais politizadas e provocativas. As apresentações, mais vigorosas e violentas. Stage diving (o famoso "mergulho" do palco para a platéia) e rodas de briga eram comuns e faziam parte do show. E congregavam moleques de 15 anos.

Moleques esses, de 15 anos, que formavam bandas em qualquer pocilga em que coubesse, ou não, um baixo, uma guitarra e uma bateria. O documentário do diretor Paul Rachamn tem material de pesquisa rico para quem curte o som. Apresentações e depoimentos de bandas como Bad Brains, Black Flag, TSOL, Minor Threat, D.O.A. e Flipper ajudam a dar forma a uma espécie de aula de música, com direito a dados estatísticos e geográficos, onde o assunto é o hardcore.

Eu era um desses moleques de 15 anos,tempos depois do ápice do movimento, de pernas lisas e espinha na cara, trancado no quarto ouvindo Dez Cadena, do Black Flag, berrar "I'm not a machine!" no último volume! Por isso, o filme me agradou muito! Porém, é preciso reconhecer: o argumento da película é hermético, focado inteiramente na ascensão e na queda do hardcore, o que pode desagradar quem não curte tanto esse estilo de som.

terça-feira, setembro 09, 2008

Pac-man: the movie

Enquanto Hollywood gasta fortunas na fórmula da vez, que é transpor para as telas os super-heróis dos quadrinhos, tem gente que com muito menos faz bem melhor. É o caso deste curta sensacional que anda circulando pela rede.

Quatro fantasmas estão presos em um labirinto tentando fugir de uma verdadeira ameaça: Pac-man! Depois de assistir a esse curta, você nunca mais vai ver os espectros coloridos do videogame mais famoso do mundo com os mesmos olhos...

Faz a gente lembrar que o cinema é muito mais do que efeitos especiais. Sensacional!

sábado, setembro 06, 2008

#70 - Repulsa ao sexo (Repulsion), de Roman Polanski


Dia desses eu em casa, sem nada para fazer, julguei que seria uma boa idéia ver um filme sozinho, de madrugada e no escuro. Ainda mais um clássico, Repulsa ao sexo, de 1965. Porém, ignorei o fato do diretor ser Roman Polanski...

Fazia tempo que eu não ficava tão apreensivo com suspenses. E olha que não há nada de mirabolante na película a não ser a magistral direção de Polanski. Utilizando-se de recursos comuns como iluminação, enquadramentos, trilha sonora e edição, o diretor cria uma narrativa densa e provocativa para contar a história de uma jovem reprimida sexualmente que, trancada em seu apartamento, começa a ter alucinações que envolvem estupro, surrealismo e mania de perseguição. Sinistro!

Os melhores filmes do gênero thriller psicológico viram histórias da carochinha perto de Repulsa ao sexo, que faz parte de uma trilogia que se completa com os também assustadores O bebê de Rosemary e O inquilino. Os três tratam sobre a opressão e a solidão causadas pela vida nas grandes metrópoles.

Quanto à interpretação, a bela e muito competente Catherine Deneuve dá conta do recado no papel de Carole Ledoux, a pobre vítima. O filme começa e termina em seus olhos, absortos no nada e irritantemente lacônicos.

Filme para ser visto preferencialmente de dia. Se for à noite, que seja de luz acesa.

terça-feira, setembro 02, 2008

#69 - Control, de Anton Corbjin


Tão bom quanto ouvir Joy Division é também poder ver a banda em ação - ainda que seja em um filme, com atores. O bom é que Control remonta com perfeição e lirismo a curta, conturbada e profusa vida do vocalista e front man Ian Curtis que, aos 23 anos, pôs fim à vida precocemente e encerrou os trabalhos de um dos grupos mais criativos e badalados do final dos anos 70.

Vivendo um relacionamento instável, casado com apenas 18 anos de idade, com uma filha pequena para criar e vítima de ataques epilépticos, a vida de Curtis não era nem um pouco colorida. Sendo assim, suas letras e composições seguiam o mesmo esquema. Por isso mesmo, a caprichadíssima fotografia de Control é toda em preto e branco, tornando o fotograma ainda mais fiel ao som do Joy Division: cinza, simples e direto.

O roteiro abrange desde as influências musicais de Curtis, ouvindo muito Bowie, até as últimas turnês pela Europa. Ao longo do filme, diálogos e ações vão contextualizando a gênese de clássicos da banda, como "She's lost control" e "Love will tear us apart". Todas as angústias e conflitos são tratados sem exageros, na medida certa para não extrapolar o limite entre o biográfico e o ficcional.

As interpretações são impressionantes. Em primeiro lugar, a semelhança física dos atores com os integrantes da banda original é espantosa. Para melhorar, todos eles aprenderam a tocar as músicas que fazem parte das cenas de apresentações ao vivo. Destaque para Sam Riley, que faz um Ian Curtis extremamente verossímil. E palmas para o diretor Anton Corbjin.

Aqui está uma das minhas músicas favoritas da banda, "Digital", em uma das melhores performances do filme.

Um belíssimo trabalho, digno do legado sonoro deixado pelo Joy Division.