domingo, agosto 10, 2008

#63 - Esse obscuro objeto do desejo (Cet obscur objet du désir), de Luis Buñuel


Logo nos primeiros minutos de Esse obscuro objeto do desejo, o surrealismo se faz presente em uma cena pontual: na porta de embarque de um trem, um homem vira um balde d'água na cabeça de uma mulher. Já dentro do vagão, ele conta aos companheiros de cabine o porquê de tal ato.

Este é o ponto de partida para um dos grandes filmes de Buñuel, que consolida toda uma linha de pensamento cinematográfico. Em suas películas, o diretor aborda a incapacidade de realizar o desejo, tema tratado e desenvolvido por diversos pensadores, como Schopenhauer e Foucault. Em O discreto charme da burguesia, burgueses não conseguem uma boa refeição; em O anjo exterminador, aristocratas não conseguem deixar uma casa quando os serviçais os abandonam; em A bela da tarde, uma mulher bonita e sensual não consegue se satisfazer sexualmente com o homem que ama. Esse obscuro objeto do desejo é o filme em que o tema da incapacidade de realização do desejo é mais flagrante.

O roteiro conta a história de Mathieu, um burguês que se apaixona por uma de suas serviçais, a jovem e bela espanhola Conchita. Tomado pela obsessão, passa a persegui-la e a tentar, a qualquer custo, possuí-la - o que não será uma tarefa fácil. Para sublinhar ainda mais a inconstância de sentimentos, Buñuel opta por representar Conchita com duas atrizes diferentes, com feições completamente distintas: Carole Bouquete, que dá ares franceses à moça; e Angela Molina, com uma sensualidade mais latina.

O jogo erótico que se segue é conduzido com maestria, provando que Buñuel era um dos diretores mais provocadores do nosso tempo. Sua crítica às bases capitalistas, ao sistema excludente e à interferência das doutrinas religiosas estão lá, sob a linguagem que tanto domina.

Surreal, na melhor acepção da palavra!

7 comentários:

Rafael Carvalho disse...

Acho que já disse isso aqui: nunca vi nada do Buñel com exceção do curta Um Cão Adaluz. Deu pra sacar o projeto de cinema do cara, o curta é bem louco, mas preciso ver seus longas. Tenho aqui em casa O Discreto Charme da Burguesia, devo começar por esse, e farei isso logo. Valeu!!!

Kamila disse...

Outro filme sobre o qual ouvi falar muito, mas só vi cenas isoladas desta obra do Luís Buñuel.

Hélio disse...

Nao conheço muita coisa do Bunuel, mas caso nao tenha visto, recomendo O Anjo Exterminador (outro surreal dele com trama curiosa e fantastica: um grupo de classe alta, depois de uma festa numa mansao, percebe que nao conseguem deixar a sala de estar do local e passam dias lá, definhando).

Outro muito bom, e sem o surrealismo que marca o cineasta é Os Esquecidos, filme que ele fez no Mexico sobre jovens pobres e marginalizados. Foi o filme, inclusive, que inspirou o Babenco na realização de Pixote.

Ambos existem em dvd no Brasil.

Abraços!

Vulgo Dudu disse...

Rafael, O discreto charme da burguesia é um excelente começo!

Kamila, vale a pena ver o filme todo. Buñuel é realmente muito compilado, por ser exemplo de um cinema espetacular.

Hélio, eu tenho O anjo exterminador em casa, e falo dele aí na resenha. É um filmço, de fato. Seja bem-vindo por aqui!

Bjs e abs!

Surfista disse...

Ainda não vi esse filme, mas sempre achei que ele tem um dos melhores títulos da história. "Esse obscuro objeto do desejo" é espetacular.

Vulgo Dudu disse...

Dougra, o filme é ainda melhor do que o título! Tenho certeza que você vai se amarrar. Se quiser, te empresto.

Abs!

sara_angelica disse...

Olá a tod@as,
percebi que falta nos comentários do filme "esse obscuro objeto de desejo" indagações sobre qual é o osbcuro objeto de desejo, ou pelo menos quais sao, pois perpassam pelas sexualidades feminina e masculina. Percebemos isso principalmente quando vemos a cena ao final da mancha de sangue no lençol sendo bordado pela senhora numa vitrine de enxovais! isso para mim é genial, e ainda por cima uma explosão que pretende acabar com os convencionalismos sexuais e do casamento, mas nao que o casamento nao deva existir. O que nao deve existir é a obscuridade do desejo pelo objeto da mulher, obscuridade entenda-se moralismos machistas. A mulher nao quis "se entregar" para o homem mais velho nao porque ele nao queria casar com ela, mas porque a sexualidade toma frente neste relacionamento q ele queria estabelecer com ela. O casamento marca "o fim" do interesse apenas sexual pela mulher. Só que na verdade, o casamento naquele contexto histórico, é sempre opressor para a mulher, e o interessante é que Conchita nao sabia "fazer nada" segundo ela mesma, nada que uma "boa mulher" saberia fazer. Ela sabia apenas dançar! uma dança sensualíssima simbolizada estereotipadamente pela espanhola, e ainda NUA! Conchita era o contrario da boa mulher e que queria casar-se! Nao é genial?