domingo, agosto 31, 2008

#68 - Son of Rambow, de Garth Jennings


Criança tem cada idéia... Imagine poder usar poderes restritos aos heróis que salvam a Terra para resolver picuinhas no colégio, problemas na vizinhança ou simplesmente para virar o centro das atenções? No filme de Garth Jennings, o bacana é ser o filho do Rambo.

Baseado nas memórias do próprio diretor, o roteiro conta a história de dois amigos que se envolvem na filmagem de um curta caseiro, justamente o tal Son of Rambow - com esse w mesmo, sobrando, por causa de direitos autorais. Lee Carter, praticamente um minimeliante com problemas familiares, tem a câmera na mão; Will Proudfoot, praticamente um miniclérigo vindo de família conservadora, tem a coragem para fazer as cenas de ação mais perigosas. Juntos, eles dão asas à imaginação para inscrever o filme em um concurso de jovens talentos.

Tem muita gente apostando que Son of Rambow pode ser o novo Pequena Miss Sunshine. O motivo: a recepção calorosa que o filme teve no último festival de Sundance. Porém, as devidas proporções precisam ser guardadas. Sim, ambos falam sobre o olhar inocente das crianças. Porém, este aqui é britânico, com um humor completamente diferente do estadunidense, muito mais contido.

Jennings foi o responsável pela fraca adaptação da maravilhosa série de livros do Mochileiro das Galáxias. Aqui, apesar de alguns bons momentos, mais uma vez sua história não decola. A sátira possível ao Rambo original se perde um pouco em meio às histórias de vida dos personagens, criando um tom dramático que não funcionaria se a proposta fosse, realmente, fazer humor com a figura quase arquetípica de Rambo. O desfecho, presumível, comprova que faltou um pouco mais de ousadia.

sexta-feira, agosto 29, 2008

#67 - O médico e o monstro (Dr. Jekyll and Mr. Hyde), de Rouben Mamoulian


O bem e o mal sempre convivem em conflito. Tema para novelas, filmes, livros, dogmas, filosofias e até para desenhos animados. O mito do médico e do monstro, do homem que se transforma em uma criatura odiosa, livre das amarras e do decoro impostos pela sociedade, foi o argumento explorado pelo escritor escocês Robert Louis Stevenson na obra "The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde", publicada em 1886 - faz tempo! A história ganhou diversas adaptações. Uma delas, para as telonas, foi justamente esta: O médico e o monstro de Rouben Mamoulian, filme de 1931.

O roteiro é quase fiel ao original. O altruísta e renomado cientista Dr. Jekyll é desacreditado pela comunidade científica quando propõe que o ser humano pode ser dividido em dois: o bom e o mau. Separando um lado do outro, seria possível alcançar a plenitude e a felicidade. Sofrendo por não ter o consentimento de se casar com a filha de um general, acaba acelerando o processo para descobrir a fórmula que vai provar sua tese. E, claro, serve de cobaia. Acaba se transformando em Hyde, uma espécie de monstro que não segue a etiqueta. O que fica explícito no filme inteiro é a angústia do homem em reprimir os seus sentimentos, pressionado por idéias pré-concebidas. Jekyll é o apolíneo, belo e correto. Hyde é o dionisíaco, perverso e hedonista. Um sente remorso e o outro, rancor.

Para uma produção de 1931, até que O médico e o monstro cumpre sua finalidade de ser assustador. É possível perceber na película certa influência do expressionismo alemão - corrente cinematográfica que filmou clássicos da ficção e do horror -, como a ação fechada nos rostos, abusando da expressão facial. A trilha sonora erudita também é recurso amplamente utilizado. Naquela época também havia efeitos especiais! A maquiagem no protagonista, o excelente Fredric March, era tão pesada, que quase danificou o seu rosto. Filtros são utilizados para caracterizar a transformação de Jekyll em Hyde.

No DVD, duplo, ainda há a versão de 1942, com Spencer Tracy e Ingrid Bergman. E, de quebra, o episódio do Pernalonga em que o coelho é adotado por um médico. Ninguém menos que o Dr. Jekyll!

segunda-feira, agosto 25, 2008

#66 - O tesouro de Sierra Madre (The treasure of the Sierra Madre), de John Huston


Não fosse a minha curiosidade sobre o trabalho de John Huston após ter lido o livro "Filme" - que conta os bastidores da filmagem de A glória de um covarde -, provavelmente não teria tanto interesse em conferir O tesouro de Sierra Madre. Porém, o DVD chegou a minha mão com recomendações que davam conta de que esta era uma das 10 obras mais apreciadas por ninguém menos que Martin Scorsese.

Os ensejos valeram a pena. Filmado antes de A glória de um covarde e sob tutela de um estúdio diferente, no caso a Warner Bross., a produção foi um enorme sucesso. O roteiro, assinado por John Huston e baseado na obra de B. Traven, é considerado até hoje um dos mais criativos. Conta a história de dois americanos que vivem de bicos em Tampico, no México. Ao conhecer um velho garimpeiro, se juntam a ele na tentativa de enriquecer procurando ouro nas montanhas mexicanas.

O elenco tem Humphrey Bogart, monstruoso, e Walter Huston, filho de John, igualmente monstruoso, em papéis inesquecíveis. Os enquadramentos, os planos, a montagem, tudo em seu devido lugar. Tanto que Huston Pai e Huston filho foram bajulados com estatuetas da academia. A trilha sonora é daquelas que invadem os ouvidos e fica na cabeça - de repente você se pega assoviando o tema.

Ou seja, a má impressão que havia ficado por causa do filme estripado e vilipendiado sobre o jovem que vai à guerra foi realmente apagada.

sábado, agosto 23, 2008

#65 - Tales of terror, de Roger Corman


Isto sim é fazer filme de terror com qualidade. Veja bem os ingredientes: um dos maiores escritores do gênero de todos os tempos, Edgar Allan Poe; um dos grandes diretores do gênero, Roger Corman; e um dos mais aclamados atores do gênero, Vincent Price. Tales of terror, que recebeu o ridículo título de Muralhas do pavor por aqui, é o belo resultado dessa combinação. Nada de crianças fantasmas, sustos inadvertidos ou carnificina gratuita. Ao invés disso, há cenários fantasmagóricos, criaturas peçonhentas e bastante conteúdo.

Na produção de Corman, quatro contos de Poe são adaptados em três curtas. O primeiro, Morella, fala sobre o misterioso reencontro do pai com a filha, vinte e seis anos após a morte da mãe. No segundo, os contos O Gato Negro e O barril de Amontillado se reúnem em um só, na divertida e tumultuada história de um homem que conhece vinhos, mas parece desconhecer a própria esposa. O último, O estranho caso do Sr. Valdemar, fala sobre uma experiência envolvendo hipnose e morte. Os três são sensacionais!

Vincent Price está em todos os episódios. Ótimo em todos os três. Se você nunca o viu atuar, pelo menos já deve te-lo ouvido. É dele a sinistra voz que encerra a música "Thriller", de Michael Jackson, com aquela risada macabra... Porém, o melhor momento é quando ele encontra outro grande nome do cinema, Peter Lorre. Lembra dele? Aquele que assobiava em "O vampiro de Dusseldorf". Sujeito com physique du role perfeito para papéis mórbidos.

Quase não vejo filmes de terror, porque a maioria deles se leva a sério demais - abre mão da versatilidade narrativa que o cinema pode proporcionar, preferindo caminhar por trilhas manjadas e comercialmente seguras. Tales of terror é a prova que um filme de terror da década de 60 pode ser muito mais interessante do que uma produção atual, com aquelas toneladas de efeitos especiais ultra-realistas.

Prepare a pipoca, pois não é preciso ter estômago forte para encarar bons filmes de terror!

terça-feira, agosto 12, 2008

#64 - The king of Kong, de Seth Gordon


Eu achava que levava a sério videogames quando era adolescente. Fazia campeonatos e disputava com obstinação jogos como Ninja Gaiden, Double Dragon, Pinbot e Mario Bross. Isso porque eu não conhecia os adultos que realmente levaram esse tipo de entretenimento às últimas conseqüências. No documentário The king of Kong, especificamente, somos testemunhas da disputa pelo título de melhor jogador de Donkey Kong do mundo.

Em 1982, Billy Mitchell, típico jovem estadunidense fanfarrão, ganhou as capas de revistas ao conseguir marcar mais de 600 mil pontos no jogo em que Mário precisa resgatar a princesa das mãos de um gorila enfurecido. Ao lado dos maiores pontuadores de outros arcades clássicos, como Missile Comander e Pac Man, ganhou certa notoriedade. Seu recorde permaneceu intacto até 2007, quando Steve Wiebe, um profesor de ciências de Washington comprou uma máquina de Donkey Kong, a instalou em sua garagem e ultrapassou a marca de 900 mil pontos. Era o que faltava para uma bela disputa, que conta até mesmo com um juiz de camisa listrada.

O que poderia ser apenas uma observação do bizarro acaba se tansformando em um fascinante argumento para um dos documentários mais simpáticos e originais dos últimos tempos. Não se trata apenas de bater um recorde, mas das artimanhas para manter o nome escrito no corredor da fama dos videogames. Ao longo do filme, vamos nos familiarizando com os jogadores. O vaidoso Billy, com seu próspero negócio de molhos especiais e uma esposa com enormes próteses de silicone contra Steve, um sujeito tipicamente interiorano e introspectivo, habilidoso também ao piano e na bateria.

Táticas, macetes, intrigas e manobras também fazem parte do mundo dos videogames!

domingo, agosto 10, 2008

#63 - Esse obscuro objeto do desejo (Cet obscur objet du désir), de Luis Buñuel


Logo nos primeiros minutos de Esse obscuro objeto do desejo, o surrealismo se faz presente em uma cena pontual: na porta de embarque de um trem, um homem vira um balde d'água na cabeça de uma mulher. Já dentro do vagão, ele conta aos companheiros de cabine o porquê de tal ato.

Este é o ponto de partida para um dos grandes filmes de Buñuel, que consolida toda uma linha de pensamento cinematográfico. Em suas películas, o diretor aborda a incapacidade de realizar o desejo, tema tratado e desenvolvido por diversos pensadores, como Schopenhauer e Foucault. Em O discreto charme da burguesia, burgueses não conseguem uma boa refeição; em O anjo exterminador, aristocratas não conseguem deixar uma casa quando os serviçais os abandonam; em A bela da tarde, uma mulher bonita e sensual não consegue se satisfazer sexualmente com o homem que ama. Esse obscuro objeto do desejo é o filme em que o tema da incapacidade de realização do desejo é mais flagrante.

O roteiro conta a história de Mathieu, um burguês que se apaixona por uma de suas serviçais, a jovem e bela espanhola Conchita. Tomado pela obsessão, passa a persegui-la e a tentar, a qualquer custo, possuí-la - o que não será uma tarefa fácil. Para sublinhar ainda mais a inconstância de sentimentos, Buñuel opta por representar Conchita com duas atrizes diferentes, com feições completamente distintas: Carole Bouquete, que dá ares franceses à moça; e Angela Molina, com uma sensualidade mais latina.

O jogo erótico que se segue é conduzido com maestria, provando que Buñuel era um dos diretores mais provocadores do nosso tempo. Sua crítica às bases capitalistas, ao sistema excludente e à interferência das doutrinas religiosas estão lá, sob a linguagem que tanto domina.

Surreal, na melhor acepção da palavra!

segunda-feira, agosto 04, 2008

#62 - Sonata de outono (Höstsonaten), de Ingmar Bergman


Eu fujo de dramalhões que têm intrigas familiares, doentes terminais, revelações bombásticas, gritarias e escândalos. A não ser que o diretor seja Ingmar Bergman, um de meus favoritos, mestre em filmar a psiquê humana em todos os seus detalhes, com tons de crueldade ou simplicidade.

É preciso transitar com facilidade pelo cinema dito erudito para encarar um Sonata de outono. Apesar de ser um dos filmes menos simbolistas do mestre sueco, ainda assim traz uma carga emocional bastante pesada, que não poupa o espectador de testemunhar o estrago que uma relação mal resolvida entre mãe e filha pode proporcionar.

Após a morte de seu companheiro, uma famosa pianista viaja até a casa de sua filha, no interior. Lá, uma complexa teia de acontecimentos vai gerando pequenos conflitos, que culminam em uma delicada e explosiva reflexão sobre os valores familiares. Nos papéis de mãe e filha estão, respectivamente, Ingrid Bergman (em seu primeiro trabalho com o diretor de mesmo sobrenome) e Liv Ullmann - duas atrizes espetaculares em atuações realmente impressionantes.

O capricho de Bergman com roteiro, fotografia, direção de arte, montagem e tudo o mais está lá. Porém, o que impressiona mesmo em Sonata de outono é a simplicidade com a qual o diretor transforma um drama de contornos exagerados em um verdadeiro estudo reflexivo. Um roteiro sem exageros, sem furos, sem clichês. Perfeito.

Filme de verdade!