segunda-feira, julho 28, 2008

#60 - Na natureza selvagem (Into the wild), de Sean Penn


Será que de vez em quando o homem, esse animal bípede e supostamente civilizado, sente uma espécie de chamado para retornar a um estágio primitivo, onde é preciso sobreviver com os recursos naturais ao seu redor? Bucolismo e byronismo à parte, a natureza selvagem do ser humano é a questão central do filme de Sean Penn, baseado em impressionantes fatos reais: um jovem que abandona a vida comum e cheia de hipocrisia que leva em uma típica família estadunidense (e podia ser diferente?) e resolve migrar para o Alasca.

Emile Hirsch interpreta, e muito bem, diga-se de passagem, Chris McCandless - que se torna Alex Supertramp, o superandarilho rumo ao norte. Em sua fuga, até chegar ao Alasca prometido, conhece pessoas e experimenta situações diversas. Embaladas pela trilha sonora composta por Eddie Vedder, estão paisagens estonteantes e muitas, mas muitas lições de vida. E aí está o problema.

Essa mania incorrigível do cinema contemporâneo de querer dar lições de vida como se fossem palestras motivacionais ou encontros dos narcóticos anônimos. Até a meia-hora inicial de Na natureza selvagem, tive a impressão que seria um belo filme, não somente na estética, que é realmente impecável, mas no conteúdo. Se direção, fotografia, edição, trilha e atuações impressionam, o mesmo não acontece com a forma de contar a história verídica de Alex Supertramp. Lá estão os clichês, as cenas manjadas, a câmera lenta, maldita câmera lenta, cheia de excessos e aquele desfile interminável de paisagens, ao estilo "Pantanal".

No final das contas, minha simpatia com o filme não era a mesma que tinha no começo. Mesmo com o apuro na técnica, sem conteúdo a coisa não vinga. E tratando-se de uma história verídica, aquele sentimento de surpresa que se tem com essa notícia, lembrada no final com a foto do verdadeiro Chris McCandless, não faz as coisas melhorarem.

Um filme bem acabado. Porém, mais parnasiano do que bucólico.

13 comentários:

Kamila disse...

Estou com este filme em DVD, aqui em casa, mas ainda não consegui assistí-lo. Acho que sua opinião foi a primeira que li que não exalta demais "Na Natureza Selvagem". Como eu me acho a premissa do filme interessante, acredito que irei gostar bastante do longa do Sean Penn.

Rafael Carvalho disse...

Gosto particularmente da forma leve como o Sean Penn conduz o filme, mas de fato não acho tão excepcional assim, não possui nada de novo. O elenco todo é excelente, embora nenhum se sobressaia tanto. Mas é a trilha sonora o grande trunfo desse filme, que embala de forma perfeita a tragetória do protagonista.

Pedro Henrique disse...

Achei "Into the Wild" um filmaço. Muito melhor que o superestimado "Michael Clayton".

Abraço!

Sérgio Déda disse...

Excelente... triste, divertido e exemplar.. um dos melhores filmes da temporada do Oscar 2008...

vlws

Vulgo Dudu disse...

Kamila, eu também achei a premissa do filme muito interessante. A história do andarilho é realmente impressionante. O problema são os excessos de lição de vida. Eu que não tenho muita paciência pra didatismo...

Rafael, a direção do Sean Penn é realmente aguçada. Ele sabe o que faz, tem controle sobre a técnica. Mas, na minha opinião, faltou mojo...

Pedro Henrique, na minha opinião, Michael Clayton é chatíssimo. Na natureza selvagem é bem melhor, mas ainda assim não simpatizei com ele.

Sérgio, não concordo com você. Mas é isso aí, opinião deve ser que nem bunda: cada um com a sua! rs...

Obrigado pelas visitas, pessoal! Bjs e abs!

Museu do Cinema disse...

Esperava mais do Sean Penn, o filme é bom, mas é um tomate podre em sua excelente filmografia.

Lisella disse...

Boas dicas, vou conferir.
Qto ao Michael Clayton, tb achei chatinho...

Sofia Fresca disse...

Sabe, eu prefiro olhar por outro lado do filme. A-MO filmes por isso talvez não seja a pessoa mais indicada pra falar sobre isso. Já que minhas "boas" observações conseguem subestimar as críticas...
Por isso que vi seu blog inúmeras vezes mas só agora tive coragem de fazer um comentário, rsrs.
E me aponte um filme que não tenha esses clichês deliciosos? rs
Gostei do filme, mas não é um dos melhores que já vi....
É um filme bom pra quando você tá no fundo do poço, bom, na minha opinião néh?
E concordo com você quando diz sobre a câmara lenta rsrsrs

Abração

Sofia Fresca

Vulgo Dudu disse...

Cassiano, eu nem conheço tanto da filmografia dele como diretor. Dá para perceber que ele domina a técnica. Mas se técnica, só, bastasse...

Lisella, eu nem sei se recomendo esse... hahahaha! Mas, em todo o caso, tire suas próprias conclusões!

Sofia, seja bem-vinda por aqui! Para discutir cinema basta gostar de cinema! Não somos catedráticos, e sim diletantes. Sempre! Quanto ao filme, lições de vida piegas me incomodam, e achei essa produção repleta deles. A câmera lenta é só um sinal disso. Na minha opinião, um filme se torna atemporal, digno de ser aclamado um clássico, não importa a época, justamente quando não tem clichês - ou quando faz bom uso deles. Diretores como Tarantino, Russ Meyer e John Waters, só para citar três, são mestres em fazer isso! Volte sempre e faça os seus comentários. Vamos discutir cinema!

Bjs e abs!

Ramon disse...

Eu amei a obra. Uma das melhores do ano. As cenas carregadas de sentimentalismo, como você comenta, até que entraram bem para transmitir os motivos do Supertramp procurar um refúgio na natureza.
De qualquer forma, sua texto está excelente, sempre retiramos alguma coisa de valro dele. Concordo com o excesso de câmera lenta.

Vulgo Dudu disse...

Ramon, antes de mais nada, obrigado pelo elogio ao texto! Quanto ao filme, eu o achei tecnicamente perfeito! De verdade. Mas é um filme cansativo demais. Não pelo tempo de duração, mas pela linguagem monocórdica. Não é um filme antipático... Mas falta mojo...

Abs!

A Especialista disse...

Adoro ler seus textos, mas o melhor ficou pros comentários, como "faltou mojo", hehehhehheheee

Muito bom, Dudu!!! Muito bom.

Vulgo Dudu disse...

Dani, mojo é uma palavra ed múltiplos significados - caiu como uma luva nessa resenha... rs...

Bjs!