terça-feira, julho 15, 2008

#58 - Amor nos tempos do cólera (Love in the time of cholera), de Mike Newell


Eu fico imaginando se Gabriel García Marquez também é cinéfilo. Porque se for, coitado, deve estar muito decepcionado. O que Mike Newell fez com a história de amor entre Florentino e Fermina foi uma atrocidade. E não precisa ter lido o livro para constatar tal fato. Não curto García Marquez. Não li "Amor nos tempos do cólera", mas conheço o enredo. Inclusive, os livros do autor colombiano entram naquela categoria dos que nem sempre precisam ser lidos - basta saber do que se trata.

A saber, então: Florentino Ariza trabalha em um telégrafo e se apaixona pela filha de um burguês, Fermina Daza. Por causa de sua condição pouco abastada, o romance entre os dois fica proibido pelo pai da moçoila, que não mede esforços para casar a filha com o médico Juvenal Urbino. O tempo passa, Florentino passa o rodo em todas as mulheres que encontra, mas não consegue tirar Fermina da cabeça. Anos depois, mas muitos anos mesmo depois, após a morte de Juvenal, os dois se reencontram.

O livro, me contaram, é cheio de detalhes e reviravoltas. O filme de Newell, que tem pouco mais de duas horas, para caber toda a obra de García Marquez, abusa de cortes repentinos que fatiam a linha temporal. A montagem é mal desenvolvida, descabida e cansativa demais. Há cenas em que música incidental de gosto duvidoso se mescla com trechos da obra, tornando tudo ainda mais melodramático e enfadonho.

E a maquiagem? É preciso comentar aqui sobre a caracterização de Javier Barden, o Florentino, e Giovanna Mezzogiorno ("Giovanna Meio-dia", sensacional!), a Fermina. Quando aparecem no filme com idade avançada, usam uma máscara facial horrível, digna de produções medíocres. E pior: com nucas, mãos e colo macios como um pêssego.

Amor nos tempos do cólera tem até bons atores no elenco, como a dupla Fernanda Montenegro - lugar comum, mas a melhor atriz brasileira de todos os tempos - e Javier Barden, que interpretam mãe e filho. São responsáveis pelos únicos pouquíssimos bons momentos.

Atentem para um detalhe lastimável desta produção estadunidense: o filme é passado na Colômbia. Há atores colombianos, espanhóis, italianos e até brasileiros. Porém, os diálogos são todos em inglês. Só isso já bastaria para desqualificar uma produção que realmente se levasse a sério. Se a estratégia era manter o filme somente nos Estados Unidos (pelo custo da produção, eu duvido), quantos estadunidenses realmente se interessam por um escritor colombiano? Ora, se fosse na década de 20, ou de 30, quando a produção cinematográfica era extremamente local e regionalizada, ok. Para piorar muito as coisas, o inglês falado no filme tem o sotaque carregado!

Ou seja, o que sobra são belas paisagens de Cartagena, de fato um lugar lindo, e fotografia caprichada, graças às cores e à luz da Colômbia. Só isso.

Um lixo!

18 comentários:

Kamila disse...

Dudu, também não li a obra do Gabriel García Marquez, mas o que me incomodou profundamente em "O Amor nos Tempos de Cólera" não foi nem a maquiagem, e sim a frieza com que Mike Newell dirigiu aquilo que deveria ser uma belíssima história de amor. Juro que não consegui compreender o por quê da importância do Florentino esperar tanto tempo para viver o amor com Fermina.

Pedro Henrique disse...

Ah, uma das maiores decepções que eu já tive. Fico com pena do García Márquez...

Filme fraquíssimo. Abraço!!!

Rafael Carvalho disse...

Gabriel García Márquez é o escritor responsável pelo melhor livro que eu já na minha vida até então: Cem Anos de Solidão. O realismo fantástico que ele aju-dou a desenvolver é uma estética incrível e vale muito a pena ler algo dele, e não somente saber a história de seus livros, o cara é um gênio.

E para adaptar uma de suas histórias para o cinema é preciso ter paixão, tesão mesmo. A direção do Mike Newell é extremamente convencional e fria, ele não tem personalidade e isso acaba contagiando todo o resto. o elenco tem nomes ótimos, sim, mas não fazem muita coisa. Nem a Montenegro está tão bem assim. O Bardem faz o que pode para criar um personagem crível e a Mezzorgiono é linda, e só. Enfim, uma grande decepção! Mas se puder leia o livro, é ótimo!

E outra coisa Dudu, pelo que me consta o García Márquez não é somente cinéfilo como também considerado o primeiro crítico de cinema colombiano, escrevendo para o jornal El Spectador e escrevia também artigos de cinema. Ele começou por volta do fim da década de 40, eu acho.

Vulgo Dudu disse...

Kamila, é exatamente isso, essa frieza quase que industrializada dos tempos de hoje. O filme caiu em mãos erradas.

Pedro Herique, concordamos que trata-se de um fiasco. Eu sói não fiquei decepcionado porque não esperava nada mesmo, já que aluguei o filme a pedido da minha mulher - que adorou o livro e detestou o filme!

Rafael, eu li apenas dois livros do García Marquez, que me bastaram para ver o quão distante ele está do meu gosto literário. Foram eles: "Relato de um náufrago" e, justamente, "Cem anos de solidão" - este último, li em espanhol com direito a seminário. Achei muito fraco, a idéia se esgota nas primeiras páginas. Enfim, questão de gosto. E ajuizamento, como ensinou nosso amigo Kant, não tem bases racionais. Mike Newell é mais um diretor que faz do cinema estadunidense um lixo mercantilizado. Concordamos nisso: o filme é um lixo! Eu li que foram três anos de conversa com García Marquez até que ele liberasse a adaptação. Ou seja, se ele é tão ligado ao cinema como você conta, deve estar puto da vida! rs...

Bjs e abs!

fabiana disse...

Jésuis, tenho medo de assistir esse filme e ele acabar com a imagem que cosntruí dos personagens depois que li o livro.

Lisella disse...

Gente! não vou nem ver... Tá louco.. Tb prefiro ficar com as boas lembranças do livro. Dudu, lê memórias de minhas putas tristes. O Garcia marques dá um show.

Vulgo Dudu disse...

Fabiana, tenha medo, tenha muito medo! rs... Bem-vinda por aqui, volte sempre!

Lisella, García Marquez não faz o meu estilo. Nem tenho implicância com ele, de jeito nenhum! Mas é que tem tantos livros que me parecem mais interessantes para ler...

Bjs, meninas!

Ramon disse...

Ah Dudu, não diga isso sobre o Gabriel Garcia Marquez. Se você ouviu opiniões que o desmerecem, não ligue. Te indico ler Cem Anos de Solidão. Uma obra imortal e soberba. Garanto que irás mudar sua opinião sobre livros que "nem precisam ser lidos".
Sobre o filme, valeu pelo aviso. Quando for assistir, vai ser com cautela.

Abs!

Vulgo Dudu disse...

Ramon, eu realmente não gosto dele! Li dois livros, inclusive "Cem anos de solidão". Não curto. Não faz nem um pouco o meu estilo. Mas eu tenho umas opiniões meio divergentes mesmo - o que não quer dizer que ache García Marquez um mau escritor.

Acho que o problema foi quando eu disse que há livros que a gente não precisa ler, basta saber do que tratam. Continuo afirmando tal fato, sustentado em temas clássicos. Por exemplo: você não precisa ler "Madame Bovary" para entender o que Flaubert queria. Porém, isso não quer dizer que desmereço a obra dele (eu li... rs...).

Mas o filme é um lixo! rs...

Abs!

Tatiana disse...

E a voz da Shakira com aqueles falsetes muito falsos?? Que desespero me deu quando ouvi pela primeira vez no filme; deu vontade de sair correndo, rs...
Um abraço, Dudu! Ótima análise!

Vulgo Dudu disse...

Nossa, bem lembrado Tatiana! Quer dizer mal lembrado! hahahahaha! Shakira e seus falsetes só contribuíram para acabar de vez com esse filme!

Bjs.

Anônimo disse...

Olá...vi que aqui vc é conhecido como o Dudu...Então Dudu, vou postar um comentário aqui!
Primeiro: Não gosto dessa coisa de comentários com críticas e tal, acredito que todos devemos ter nossas opniões, mas o que vc fez aqui neste tópico foi um tanto absurdo demais pra deixar quieto! Acredito que só podemos criticar aquilo que conhecemos...Pois ao falar:
"Inclusive, os livros do autor colombiano entram naquela categoria dos que nem sempre precisam ser lidos - basta saber do que se trata"
Vc foi bem equivocado (pra mim)!!! Agora é a parte que entro com a MINHA opnião...as historinhas do autor podem ser ridículas para um leitor menos atento, mas o que está imbutido por trás é a grande sacada do autor!!!
Meu conselho: conheça mais antes de mostrar suas opnião, pq nem todo mundo que vem aqui te visitar é provido de uma, imagina se acoisa se pega? Hi já pegou!!! Merda!!! rsrs
Brincadeiras a parte e uma lingua um tanto afiada (confesso), gosto muito de algumas críticas suas (sobre filmes), e concordo com esta, o filme realmente é uma merda!!!
Ju Valadão

Anônimo disse...

Tenho que inteirar aqui minha opnião...Acredito que a crítica por mais fiel que seja a quem faz, ela tem que ser submetida a uma escrita bem feita, senão fica parencendo desdém ou desmerecimento mesmo...Acho que vc errou mesmo qdo me passou essa idéia, ao resumir uma obra tão fantástica em uma análise muito chula, sobre uma autor genial e não mereceder de nenhuma oscar(isso foi um trocadilho rsrs!)!!!
Ju Valadao

Vulgo Dudu disse...

Ju Valadão, em primeiro lugar, obrigado não só pelas visitas, mas pelo comentário. Deixe-me esclarecer alguns pontos, os quais você levanta em sua crítica (aí sim crítica, pois o que faço aqui não é bem isso).

Diferentemente de um monte de outros cinéfilos, o que me proponho a fazer aqui são resenhas - bem diferentes de críticas, no meu entender. Pois acho que o ofício de crítico só pode ser exercido por quem realmente tem mais conhecimento do que a média. É preciso ter estudo, conhecimento e apuro para escrever uma crítica. Algo que, acredito, ainda não tenha. Quem sabe um dia? Por isso eu escrevo resenhas, em linguagem informal, certas vezes chula, outras sarcásticas.

Enfim, esse espaço é o meu canto. Me permito chamar-me de Vulgo Dudu ao invés do meu nome de batismo e falo o que eu penso sem querer agradar ou fazer média com ninguém. Acredito que tenho leitores pura e simplesmente por afinidade. E vou te contar, belos leitores! - com opiniões muitas vezes diferentes das minhas.

Portanto, eu posso dizer o quanto acho Gabriel Garcia Marquez ruim. Posso, sim, porque já li alguns livros dele e estudei alguma coisa sobre sua técnica - já que minha formação acadêmica passa pela literatura. Estou em outra.
O que acho bom de ler faz parte de outra corrente, outro estilo. E nem vem ao caso falar sobre isso, pois o blog não se chama Leitor, eu?.

Não tenho vontade de ler mais Gabriel García Marquez e também não acho que eu precise conhecer mais sobre a obra dele para comentar uma merda de filme (a-há! nisso concordamos!) aqui neste humilde, mas sincero, blog de domínio registrado.

Bom, fique à vontade para comentar e saiba que sempre que vistar o Cinéfilo, eu? vai encontrar textos assim: bem-humorados, mal-humorados, chulos, sarcásticos, fofinhos, escrotos - mas SEMPRE sinceros. E acredito que assim deva ser uma resenha.

Um abraço!

Anônimo disse...

Dudu, obrigada pela retórica carregada de diplomacia! Vc foi muito gentil, mas um pouco elusivo!
Acho que eu não consegui me expressar bem, acredito ter uma escrita bem chula tb! rs
Esse é o problema!!!
Mas ao dizer que algo é ruim, ou mesmo apreciar, censurar, ser maledicente, abrir uma discussão, entre outras coisas que venho observando aqui, meu amigo ISSO É FAZER CRÍTICA, por definição, e não uma opnião subjetiva (minha)!
O que é muito bom Dudu, a gente deve criticar mesmo, afinal não podemos aceitar todo lixo alienante que produzem! Mas isso tudo me fez pensar que a crítica ainda é tabu!!!
E como por definição, a discussão faz parte dela, eu me empolguei, mas achei que podia, que teria espaço!!!
Acho que o problema está na minha pessoa, que reluta a entender esse lance informático demais! Prefiro um diário!
Em relação ao resto do seu comentário, posso dizer, que vc me provou do contrário!!!
Continuarei te visitando, ora concordando ora não, afinal seus leitores tb são providos de opnião, não é mesmo!!!
Um abraço pra vc e admiro sua coragem pelo que faz, aturando pessoas chatas como eu!!!

OBS.:A minha intenção ao participar do seu cantinho (como vc diz), foi de tentar encontrar pessoas que na maioria das vezes pensam como eu! (Nisso a informática é fantástica!)

O nome nem preciso dizer!!!

Vulgo Dudu disse...

É, Ju Valadão... Retóricos e elusivos (por mais redundante que a dupla de predicados possa soar) do jeito que nós somos, vamos ficar chovendo no molhado. Eu continuo afirmando que não faço críticas, e sim resenhas. Não quero o ranço acadêmico, de jeito nenhum. Prefiro ser chulo. São minhas opiniões, obviamente.

E com mais convicção ainda, volto a afirmar que o objeto resenhado, o tal filme, é uma merda.

No mais, volte sempre, de verdade, e fique à vontade para ler, comentar, discordar etc. Um dos grandes baratos de ter um blog sobre cinema é justamente trocar experiências. Caso contrário, desativaria a opção de comentários.

E mais, visite os meus amigos que têm opinião. Todos os que estão linkados, ao meu ver, valem a visita.

Um abraço.

Anônimo disse...

Poxa Dudu, tô aqui me pergunatando se vc discute com seu espelho?
Sinceramente, ficou muito claro agora que simples palavras são verdadeiros tabus!
Vc massacra algumas manifestações artísticas, com sua palavras, as vezes, impiedosas, mas não suporta isso?
Achei que o enredo de nossa conversa fosse o autor em questão!
Uma pena, poderia ter sido produtivo, pelo menos para mim é claro!
Mas adorei sua sugestão sobre os links, vou dar uma passada por lá pra ver se encontro algo mais interessante! Mas tô pensando ainda!!!
E encerramos por aqui né, pro bem da turma do mestre!!!

Anônimo disse...

Sem diplomacia nenhuma, digo sinceramente que qdo postei aqui, vim na paz com sua pessoa!!!
Mas fui mal compreendida!!!