segunda-feira, julho 14, 2008

#57 - Cão sem dono, de Beto Brant e Renato Ciasca


No final do romance O Processo, de Kafka, o Sr. K. morre, nas palavras do protagonista, "como um cão". Um cão sem dono, sem casa, sem estrada para seguir adiante. Em mais uma produção caprichada, Beto Brant presenteia o espectador brasileiro com uma história em que o homo sapiens ganha contornos de canis lupus familiaris.

Baseado no livro de Daniel Galera, aclamado como um dos novos talentos da literatura nacional, o roteiro gira em torno do relacionamento entre Ciro, um tradutor culto e cético que não vislumbra um futuro na profissão, e Marcela, uma bela modelo que planeja vôos mais altos. Os dois atores, Júlio Andrade e Tainá Müller - belíssima, diga-se de passagem -, estão em perfeita sintonia, abusando de uma interpretação naturalista bem dirigida e convincente.

Esteticamente, é tudo muito simples. A edição é rápida, precisa, com cortes sucessivos que mais parecem pequenas peças de um enorme quebra-cabeças, completo após os pouco mais de 80 minutos de filme. Ponto para Marçal Aquino, um dos nossos melhores roteiristas em atividade (vide O cheiro do ralo).

O pobre cachorro sem raça definida também está na história, mas apenas como observador. Espécie de ponto de referência para a crueza ociosa e o aparato instintivo de nós, todos nós, animais.

7 comentários:

Ramon disse...

Estou com o filme em casa, mas fico adiando o dia de conferi-lo. Depois de ler sua resenha fique empolgado. Vou dar a prioridade.
Beto Brant é ótimo!

contra-regra disse...

Todo mundo que eu conheço falava mal do filme. Um dia, de raiva, aluguei. É extraordinário! Aliás, ando cada dia que passa mais otimista com as produções latino-americanas.

Discutir a imprensa?
http://robertoqueiroz.wordpress.com

Kamila disse...

Dudu, "Cão Sem Dono" foi um dos filmes que eu mais gostei no ano passado. Concordo com tudo que disse a respeito de Tainá Muller e Júlio Andrade.

Vulgo Dudu disse...

Ramon, veja-o! É muito bom mesmo!

Contra-regra, é isso mesmo: quando todo mundo fala mal, eu vejo também. Porque como já dizia o Rodrigues, toda a unanimidade é burra!

Kamila, é um filmaço mesmo! E que belos atores. Ou seja, é cinema brasileiro bom para os olhos.

Bjs e abs!

Tatiana disse...

Oi, Dudu! Estou lendo "Até o Dia em que o Cão Morreu". Maravilhoso, daqueles que a gente fica querendo voltar pra continuar a ouvir as histórias dos "novos amigos". Quero saber nada desse filme antes de terminar de ler... :D
Mas sua crítica foi sucinta e precisa! Obrigada!

Rafael Carvalho disse...

Cão Sem Dono foi um dos melhores filmes do ano passado e é incrível como o Beto Brant que fez um filme tão urgente como O Invasor, mudou tanto de tom para realizar essa beleza, com uma naturalidade impressionante e apaixonante. Ciro é o verdadeiro cão sem dono da história, com sua crise existencial tomando conta do personagem, mas que chega ao fim e percebe que nem tudo está tão perdido assim.

Vulgo Dudu disse...

Tatiana, confesso que fiquei bem interessado pelo livro! Mas há uma pilha deles aqui em casa para ser devorada... rs...

Rafael, o que eu acho muito bacana no filme é a maneira como a história é contada, os artifícios estéticos. É uma jóia do cinema nacional!

Bjs e abs!