segunda-feira, julho 07, 2008

#54 A glória de um covarde (The red badge of courage), de John Huston


Depois de passar algumas semanas debruçado no livro Filme, da Lillian Ross, resenhado na postagem anterior, é preciso confessar que criei uma intimidade com os nomes, personagens e lugares que participaram da realização de John Huston. Mérito total de Ross, que em momento algum emite opinião.

O corte final de A glória de um covarde na verdade é uma mutilação. Huston e o produtor, Gottfried Heinrardt, após fracassadas pré-estréias, meio que abandonaram o barco - infelizes com a reação do público e fatigados pela insistência de L.B.Mayer e outros executivos da MGM em acreditar num fiasco irreversível. A recusa ao produto final era tamanha, a ponto de Huston nem ao menos comparecer ao lançamento oficial do filme e passar anos sem conferi-lo.

Eu vi, e provavelmente você vai ver também, o corte final, com a montagem a cargo de um dos únicos executivos da MGM que acreditou na força da adaptação do romance Stephen Crane, Dore Schary. Em todas as pré-estréias, ao final da projeção era dado a cada espectador um cartão que deveria ser comentado com apreciações sobre A glória de um covarde. Por causa de sucessivas classificações de "razoável", os executivos da MGM achavam que o público não entendia que se tratava de um romance clássico, uma história imortalizada. Portanto, resolveram aderir à moda hollywoodiana da época: a narração.

Talvez esse, junto à edição que mais pareceu uma carnificina de cenas, tenha sido o erro fatal. Subestimar o público, com receio de que ele não compreendesse estar diante de um filme que propunha um pouco mais do que simples entretenimento, foi uma baita mancada. Hollywood acostumou as telas com lições de vida, comédias românticas e musicais alegres - e essa era a fórmula para ganhar dinheiro. E era nisso que somente pensava L.B. Mayer e seus asseclas: o borderô, o faturamento, a grana.

Eu não gostei do filme. Acho até que o romance de Crane deve ser um porre. Conta a história de um jovem recruta que, ao se ver no combate real durante a guerra civil estadunidense, experimenta o medo irracional da morte. Porém, em 15 minutos, tudo muda e ele consegue um feito heróico, saindo da batalha transformado em um homem de com h maiúsculo. A narração, recurso utilizado para promover a interação do público com o romance, é cansativa demais. A edição limou cenas importantes, de fundo artístico, que enriqueceriam o lirismo.

Porém, eu adorei ver A glória de um covarde. O livro de Ross me deu a exata noção do que eram as filmagens, de quem eram os personagens envolvidos e do que aconteceu por trás das câmeras. No final das contas, foi uma experiência cinematográfica bastante enriquecedora. Altamente recomendável!

4 comentários:

Kamila disse...

Não conheço quase nada da filmografia do Huston, e achei interessante mesmo você não tendo gostado do filme ter recomendado que nós o assistíssemos.

Museu do Cinema disse...

Huston foi um importante cineasta de Hollywood, mas acho que hj ele não teria espaço.

Sérgio Déda disse...

Não conheço muito do Huston, embora esteja ciente do renome q ele tem no cenário mundial..

vlws

Vulgo Dudu disse...

Kamila, é o que eu disse, o filme não é bom, mas a experiência é fantástica!

Cassiano, dá para perceber que ele saca do assunto. Mas ele era parte do star system que Hollywood criou. Dirigia dezenas e desenas de filmes, um atrás do outro. Mal acabava um, já estava no meio do sguinte...

Sérgio, o livro da Lillian Ross dá uma boa idéia do perfil de Huston - que era pai da Angelica Huston! ahahahaha!

Bjs e abs!