quarta-feira, julho 30, 2008

#61 - Sweeney Todd: o barbeiro demoníaco da Rua Fleet (Sweeney Todd: the demon barber of Fleet Street), de Tim Burton


Tim Burton é um diretor que tem uma rubrica. Suas obras seguem um padrão dark, melancólico, obscuro, que favorece uma direção de arte sempre impecável. Tanto é que já foi premiado por isso algumas vezes. Porém, como escrevi na postagem anterior, não basta ter técnica, tem que ter conteúdo! E isso Burton tem de sobra...

Resultado: um filmaço! Por mais que os espectadores estejam carecas de saber que vão ver Johnny Depp de cara pálida interpretando um esquisitão e que o cenário será cinza chumbo, sem espaço para tons pastéis, Sweeney Todd: o barbeiro demoníaco da Rua Fleet é um deleite não só para olhos, mas para a alma. Belo no visual, contundente no argumento.

A história é baseada em um musical bem sucedido, que por sua vez é baseado na lenda de Sweeney Todd, nascido Benjamin Barker. Um barbeiro que, após voltar da clausura, separado da mulher e do filho por um juiz inescrupuloso, resolve se vingar usando seus instrumentos de trabalho: reluzentes e afiadas navalhas de prata. Para isso, conta com a ajuda de uma confeiteira falida, Mrs. Lovett. E dá-lhe sangue!

Johnny Depp e Helena Bonham Carter, devidamente maquiados no estilo neo-dark-realista, demonstram entrosamento perfeito. É o Casal 20 de Tim Burton. Desacostumados com a cantoria, ambos esticaram as cordas vocais em aulas intensivas e fizeram um excelente trabalho, concedendo ao diretor um primeiro musical brilhante para sua carreira. Um êxito que tem seus méritos não só pela estética, que preenche toda a tela, mas pelo roteiro ágil e bem enxugado.

Ao final da projeção, um dos meus desenhos preferidos não me saía da cabeça. Igualmente sádico, menos sanguinolento, porém genial. Aqui.

segunda-feira, julho 28, 2008

#60 - Na natureza selvagem (Into the wild), de Sean Penn


Será que de vez em quando o homem, esse animal bípede e supostamente civilizado, sente uma espécie de chamado para retornar a um estágio primitivo, onde é preciso sobreviver com os recursos naturais ao seu redor? Bucolismo e byronismo à parte, a natureza selvagem do ser humano é a questão central do filme de Sean Penn, baseado em impressionantes fatos reais: um jovem que abandona a vida comum e cheia de hipocrisia que leva em uma típica família estadunidense (e podia ser diferente?) e resolve migrar para o Alasca.

Emile Hirsch interpreta, e muito bem, diga-se de passagem, Chris McCandless - que se torna Alex Supertramp, o superandarilho rumo ao norte. Em sua fuga, até chegar ao Alasca prometido, conhece pessoas e experimenta situações diversas. Embaladas pela trilha sonora composta por Eddie Vedder, estão paisagens estonteantes e muitas, mas muitas lições de vida. E aí está o problema.

Essa mania incorrigível do cinema contemporâneo de querer dar lições de vida como se fossem palestras motivacionais ou encontros dos narcóticos anônimos. Até a meia-hora inicial de Na natureza selvagem, tive a impressão que seria um belo filme, não somente na estética, que é realmente impecável, mas no conteúdo. Se direção, fotografia, edição, trilha e atuações impressionam, o mesmo não acontece com a forma de contar a história verídica de Alex Supertramp. Lá estão os clichês, as cenas manjadas, a câmera lenta, maldita câmera lenta, cheia de excessos e aquele desfile interminável de paisagens, ao estilo "Pantanal".

No final das contas, minha simpatia com o filme não era a mesma que tinha no começo. Mesmo com o apuro na técnica, sem conteúdo a coisa não vinga. E tratando-se de uma história verídica, aquele sentimento de surpresa que se tem com essa notícia, lembrada no final com a foto do verdadeiro Chris McCandless, não faz as coisas melhorarem.

Um filme bem acabado. Porém, mais parnasiano do que bucólico.

quinta-feira, julho 17, 2008

#59 - A vida dos outros (Das Leben der Anderen), de Florian Henckel von Donnersmarck


Quando eu tinha 12 anos, acompanhei pela televisão a queda do Muro de Berlim, sem a noção de que tal fato entraria para a história recente da humanidade. Pedro Bial, que antes de ser seduzido pelo Grande Irmão era correspondente internacional, narrou a derrubada dos tijolos que separavam a Alemanha Ocidental da República Democrática Alemã - resquícios da Guerra Fria e da polarização dos eixos capitalista e socialista. Agora, já no século XXI, o cinema tem tratado de contextualizar os acontecimentos ao redor daquele dia, 9 de novembro de 1989, quando os alemães puseram abaixo o Muro da Vergonha.

A vida dos outros é um filme que fala sobre o trabalho de espionagem da Stasi, a polícia da RDA, responsável por rastrear inimigos do regime e produzir dossiês detalhados sobre a vida alheia. É isso que acontece com o famoso dramaturgo Georg Dreyman (Sebastian Koch), suspeito de conspirar contra o governo, acusado de ser próximo demais do Ocidente. O frio, solitário e metódico investigador Hauptmann Gerd Wiesler (Ulrich Mühe, brilhante) é o responsável por monitorar a vida de Dreyman e de todos que convivem com ele, como a bela e misteriosa atriz Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck). Com o tempo, ele vai se envolvendo, à distância, com seus investigados.

A produção de A vida dos outros é caprichada. A direção de Florian Henckel von Donnersmarck é certeira, sem espaço para falhas, fruto da experiência do realizador em edição, roteiro e produção. A história mantém o ritmo e os atores fazem um belíssimo trabalho de interpretação. Apesar de não ser necessário resolver mistério nenhum, o clima de suspense, vezes tragicômico, vezes melancólico, se faz presente até o último minuto, sem grandes reviravoltas, mas sempre com precisão.

Um belo exemplar do cinema contemporâneo alemão.

terça-feira, julho 15, 2008

#58 - Amor nos tempos do cólera (Love in the time of cholera), de Mike Newell


Eu fico imaginando se Gabriel García Marquez também é cinéfilo. Porque se for, coitado, deve estar muito decepcionado. O que Mike Newell fez com a história de amor entre Florentino e Fermina foi uma atrocidade. E não precisa ter lido o livro para constatar tal fato. Não curto García Marquez. Não li "Amor nos tempos do cólera", mas conheço o enredo. Inclusive, os livros do autor colombiano entram naquela categoria dos que nem sempre precisam ser lidos - basta saber do que se trata.

A saber, então: Florentino Ariza trabalha em um telégrafo e se apaixona pela filha de um burguês, Fermina Daza. Por causa de sua condição pouco abastada, o romance entre os dois fica proibido pelo pai da moçoila, que não mede esforços para casar a filha com o médico Juvenal Urbino. O tempo passa, Florentino passa o rodo em todas as mulheres que encontra, mas não consegue tirar Fermina da cabeça. Anos depois, mas muitos anos mesmo depois, após a morte de Juvenal, os dois se reencontram.

O livro, me contaram, é cheio de detalhes e reviravoltas. O filme de Newell, que tem pouco mais de duas horas, para caber toda a obra de García Marquez, abusa de cortes repentinos que fatiam a linha temporal. A montagem é mal desenvolvida, descabida e cansativa demais. Há cenas em que música incidental de gosto duvidoso se mescla com trechos da obra, tornando tudo ainda mais melodramático e enfadonho.

E a maquiagem? É preciso comentar aqui sobre a caracterização de Javier Barden, o Florentino, e Giovanna Mezzogiorno ("Giovanna Meio-dia", sensacional!), a Fermina. Quando aparecem no filme com idade avançada, usam uma máscara facial horrível, digna de produções medíocres. E pior: com nucas, mãos e colo macios como um pêssego.

Amor nos tempos do cólera tem até bons atores no elenco, como a dupla Fernanda Montenegro - lugar comum, mas a melhor atriz brasileira de todos os tempos - e Javier Barden, que interpretam mãe e filho. São responsáveis pelos únicos pouquíssimos bons momentos.

Atentem para um detalhe lastimável desta produção estadunidense: o filme é passado na Colômbia. Há atores colombianos, espanhóis, italianos e até brasileiros. Porém, os diálogos são todos em inglês. Só isso já bastaria para desqualificar uma produção que realmente se levasse a sério. Se a estratégia era manter o filme somente nos Estados Unidos (pelo custo da produção, eu duvido), quantos estadunidenses realmente se interessam por um escritor colombiano? Ora, se fosse na década de 20, ou de 30, quando a produção cinematográfica era extremamente local e regionalizada, ok. Para piorar muito as coisas, o inglês falado no filme tem o sotaque carregado!

Ou seja, o que sobra são belas paisagens de Cartagena, de fato um lugar lindo, e fotografia caprichada, graças às cores e à luz da Colômbia. Só isso.

Um lixo!

segunda-feira, julho 14, 2008

#57 - Cão sem dono, de Beto Brant e Renato Ciasca


No final do romance O Processo, de Kafka, o Sr. K. morre, nas palavras do protagonista, "como um cão". Um cão sem dono, sem casa, sem estrada para seguir adiante. Em mais uma produção caprichada, Beto Brant presenteia o espectador brasileiro com uma história em que o homo sapiens ganha contornos de canis lupus familiaris.

Baseado no livro de Daniel Galera, aclamado como um dos novos talentos da literatura nacional, o roteiro gira em torno do relacionamento entre Ciro, um tradutor culto e cético que não vislumbra um futuro na profissão, e Marcela, uma bela modelo que planeja vôos mais altos. Os dois atores, Júlio Andrade e Tainá Müller - belíssima, diga-se de passagem -, estão em perfeita sintonia, abusando de uma interpretação naturalista bem dirigida e convincente.

Esteticamente, é tudo muito simples. A edição é rápida, precisa, com cortes sucessivos que mais parecem pequenas peças de um enorme quebra-cabeças, completo após os pouco mais de 80 minutos de filme. Ponto para Marçal Aquino, um dos nossos melhores roteiristas em atividade (vide O cheiro do ralo).

O pobre cachorro sem raça definida também está na história, mas apenas como observador. Espécie de ponto de referência para a crueza ociosa e o aparato instintivo de nós, todos nós, animais.

sábado, julho 12, 2008

#56 - A bela da tarde (Belle de jour), de Luis Buñuel


É curioso que o filme mais popular de Buñuel, A bela da tarde, seja também o mais perverso - que trata de fantasias e fetiches obscuros. Quando o assunto é subversão e lirismo, o realizador espanhol dá um banho. Com um roteiro que ainda soa atual, mesclando o surrealismo com pitadas de naturalismo, o resultado é um excelente drama sexual sem qualquer tipo de apelação.

Catherine Deneuve, verdadeiramente bela e lacônica, interpreta Séverine, a esposa frígida de um aristocrata. Sofrendo de devaneios eróticos, ela resolve dar expediente em uma casa de burlesco, apenas durante as tardes, para dar vazão as suas fantasias sexuais. Como a flor francesa que desabrocha apenas durante o dia, fica conhecida pela alcunha de Bela da Tarde.

Durante o desenvolvimento da história, momentos de lucidez se confundem com fantasia - artifício que Buñuel domina como ninguém, mas para o qual nem sempre o público está preparado. Por isso mesmo, em algumas versões legendadas, era recorrente o uso de itálico para ilustrar os momentos oníricos. Uma prova de que o diretor estava muito à frente dos seus contemporâneos.

Belo como a Bela da Tarde.

quinta-feira, julho 10, 2008

#55 - A vida é dura (Walk hard), de Jake Kasdan


A vida da maioria dos astros da música não escapa muito da tríade sexo-drogas-rock'n'roll, lamentavelmente. Portanto, as caricaturas e estereótipos surgem com facilidade. Tanto que Dewey Cox, o astro de A vida é dura, é um amálgama de um punhado de gente. E sobra pra todo mundo!

Judd Apatow mais uma vez acerta ao escrever e produzir uma comédia extremamente divertida, politicamente incorreta, cheia de perversões e com várias situações constrangedoramente hilárias. O filme mostra a trajetória de vida do tal Dewey Cox - da infância humilde até o estrelato internacional. Para o papel principal, foi escalado o bom John C. Reilly, cuja parceria com Apatow já havia dado certo.

O roteiro satiriza o tempo inteiro, sem dó nem piedade, os clichês do rock. Astros como Jim Morrison (tá na cara, quer dizer, na capa...), Johnny Cash, Bob Dylan, Ray Charles, Elvis Presley e Brian Wilson. Tem até piada cretina com The Temptations. Nem os Beatles (Jack Black como Paul McCartney, sensacional) escapam, em uma seqüência memorável sobre o LSD! Aliás, as drogas são um capítulo à parte. As seqüências que mostram a escalada de Cox, da maconha até o ácido, são muito bem boladas.

No DVD, de quebra, um documentário sobre o verdadeiro Dewey Cox...? Porque o rock é feito de lendas!

segunda-feira, julho 07, 2008

#54 A glória de um covarde (The red badge of courage), de John Huston


Depois de passar algumas semanas debruçado no livro Filme, da Lillian Ross, resenhado na postagem anterior, é preciso confessar que criei uma intimidade com os nomes, personagens e lugares que participaram da realização de John Huston. Mérito total de Ross, que em momento algum emite opinião.

O corte final de A glória de um covarde na verdade é uma mutilação. Huston e o produtor, Gottfried Heinrardt, após fracassadas pré-estréias, meio que abandonaram o barco - infelizes com a reação do público e fatigados pela insistência de L.B.Mayer e outros executivos da MGM em acreditar num fiasco irreversível. A recusa ao produto final era tamanha, a ponto de Huston nem ao menos comparecer ao lançamento oficial do filme e passar anos sem conferi-lo.

Eu vi, e provavelmente você vai ver também, o corte final, com a montagem a cargo de um dos únicos executivos da MGM que acreditou na força da adaptação do romance Stephen Crane, Dore Schary. Em todas as pré-estréias, ao final da projeção era dado a cada espectador um cartão que deveria ser comentado com apreciações sobre A glória de um covarde. Por causa de sucessivas classificações de "razoável", os executivos da MGM achavam que o público não entendia que se tratava de um romance clássico, uma história imortalizada. Portanto, resolveram aderir à moda hollywoodiana da época: a narração.

Talvez esse, junto à edição que mais pareceu uma carnificina de cenas, tenha sido o erro fatal. Subestimar o público, com receio de que ele não compreendesse estar diante de um filme que propunha um pouco mais do que simples entretenimento, foi uma baita mancada. Hollywood acostumou as telas com lições de vida, comédias românticas e musicais alegres - e essa era a fórmula para ganhar dinheiro. E era nisso que somente pensava L.B. Mayer e seus asseclas: o borderô, o faturamento, a grana.

Eu não gostei do filme. Acho até que o romance de Crane deve ser um porre. Conta a história de um jovem recruta que, ao se ver no combate real durante a guerra civil estadunidense, experimenta o medo irracional da morte. Porém, em 15 minutos, tudo muda e ele consegue um feito heróico, saindo da batalha transformado em um homem de com h maiúsculo. A narração, recurso utilizado para promover a interação do público com o romance, é cansativa demais. A edição limou cenas importantes, de fundo artístico, que enriqueceriam o lirismo.

Porém, eu adorei ver A glória de um covarde. O livro de Ross me deu a exata noção do que eram as filmagens, de quem eram os personagens envolvidos e do que aconteceu por trás das câmeras. No final das contas, foi uma experiência cinematográfica bastante enriquecedora. Altamente recomendável!

quinta-feira, julho 03, 2008

Leitura recomendada: "Filme", de Lillan Ross


Agora que a minha pequena está mais crescidinha, deu tempo para voltar a cultivar o hábito da leitura. E está aí um livro recomendado para jornalistas e indispensável para cinéfilos.

Durante dois anos (1950 a 1952), a jornalista Lillian Ross acompanhou de perto todos os detalhes da produção do filme A glória de um covarde (The red badge of courage), do diretor John Huston, baseado no clássico romance de Stephen Crane. Do roteiro até o lançamento, Ross consegue um relato minucioso e delicioso de ser lido. Convidada pelo próprio Huston, ela circula feito um fantasma, sem emitir opiniões ou fazer ajuizamentos, pelas salas de produtores, roteiristas e poderosos chefões - testemunhando de perto, inclusive, a antipatia de L.B. Mayer (o segundo M da MGM e criador do star system, no qual o ator era assessorado para se tornar um ídolo) com A glória de um covarde.

O que ela fez, de fato, foi um raio-x urgente de como a mente dos chefes de grandes estúdios hollywoodianos funcionava. E lá estava, já naquela época, o entretenimento cinematográfico reduzido ao mercantilismo vazio, insoso. As mesmas idéias, as fórmulas prontas, o estrabismo cultural, a prepotência estadunidense - está tudo registrado nas 307 páginas.

Filme elucida aos leitores atuais os caminhos que o cinema percorreu para chegar ao que é hoje em dia. Uma preciosidade. Imperdível!

Após um mês de ansiedade e expectativa extremas, alimentadas enquanto ia devorando a história, finalmente vou conferir A glória de um covarde! Aguardem a resenha...