segunda-feira, junho 30, 2008

#53 - Um corpo que cai (Vertigo), de Alfred Hitchcock


Assistir a um filme de Hitchcock é sempre garantia de entretenimento com aquele algo mais que o cinema pode proporcionar. O cara era mestre. Recentemente, Vertigo foi escolhido pela American Film Institute como o melhor filme de suspense de todos os tempos.

O roteiro conta a história de um policial que, após testemunhar a morte de um colega, desenvolve acrofobia. Na linguagem corriqueira: medo de altura. Afastado das atividades investigativas, ele é contratado por um amigo para perseguir sua esposa, que anda tendo surtos psicóticos. Porém, acaba se aproximando demais da moça... E aí... Bom, e aí... Se eu contar mais acaba a diversão de vocês. Sim, porque uma das graças dos filmes de Hitchcock é justamente ir montando o quebra-cabeças aos poucos.

O uso da cor, que lá nos idos de 1958 ainda era uma novidade, aqui é completamente bem empregado. Diferentes tons são usados para compor o clima da trama. A fotografia não fica para trás: o diretor consegue enquadramentos inesquecíveis da bela São Francisco, com sua imponente e soturna ponte Golden Gate. A trilha sonora, sempre precisa nos suspenses de Hitchcock, cumpre o seu papel com brilhantismo.

Porém, o grande trunfo é mesmo a maneira como a vertigem do protagonista é retratada. Usando simples técnicas de filmagem, sem efeitos mirabolantes, tem-se a exata noção de atordoamento e angústia do pobre protagonista - pontos cruciais para o entendimento da obra.

Vertigo (prefiro chamar assim, ao invés de Um corpo que cai...) é uma obra densa, com certo tom de morbidez. Porém, ainda assim, é entretenimento garantido! Um tipo de cinema que deixa saudades.

sábado, junho 28, 2008

#52 - Dead man, de Jim Jarmusch


Agora eu posso dizer:

"Era só o que me faltava!"

Pronto. Filmografia completa de Jim Jarmusch, fechada com chave de ouro após a conferência de um de seus melhores trabalhos, o western underground e existencialista Dead man - recém lançado em DVD aqui no Brasil, junto com outros dois clássicos essenciais, Permanent vacation e Estranhos no paraíso.

Johnny Depp, sempre em bons papéis, interpreta William Blake, um contador de Cleveland que viaja milhas até o Oeste para assumir um emprego prometido por carta. Porém, ao chegar em seu destino, percebe que se meteu em uma enrascada. Após uma fatalidade envolvendo a morte de uma bela mulher e seu noivo, ele passa a ser procurado por caçadores de recompensa. Está aí um argumento perfeito para um bom filme do gênero.

Como não poderia deixar de ser, tratando-se de Jarmusch, o filme ganha aquela aura digna da sétima arte. A começar pelo texto. Percebeu o nome do personagem de Depp ali em cima? William Blake, mesma alcunha do poeta. Há várias citações de poemas do mesmo por toda a película. Os personagens que circundam o jovem pistoleiro também são interessantíssimo, como os três matadores profissionais que o perseguem.

A fotografia em preto e branco, caprichadíssima, e os planos diferenciados são de tirar o chapéu. Sem contar a trilha sonora, especialmente escrita e tocada por ninguém menos que Neil Young, com sua guitarra levemente distorcida, solitária como um fora da lei. Ainda há referências (reverências) a Doors e Tom Waits e uma inusitada e divertida participação especial de Iggy Pop.

É por esses motivos que Jim Jarmusch está no topo da lista dos meus diretores favoritos.

quinta-feira, junho 26, 2008

#51 - Week-End, de Jean-Luc Godard


Os dias que antecederam os movimentos revolucionários de 1968, na França, foram frutíferos em críticas e teorias sociais. A cultura em muito ajudou a consolidar um pensamento contra um sistema excludente e opressor. Na literatura, Julio Cortázar era uma espécie de norte. Tanto que, nos cinemas, foi amplamente adaptado. Seu conto "A autopista do sul" deu origem à Week End, densa obra de Godard.

A história é aparentemente simples: um casal ambicioso e inescrupuloso planeja uma viagem ao interior da França, na tentativa de conseguir uma herança. No meio do caminho, encontra estradas completamente engarrafadas, acidentes automobilísticos graves, personagens de histórias infantis e guerrilheiros. O que se segue é uma constante e complexa reflexão sobre o modo de vida burguês e os contrastes sociais sublinhados pela sociedade de classes.

Além do texto afiado, a montagem é incrível e funciona como mola propulsora para toda a ira de Godard. Para se aproximar mais ainda da escrita fluente de Cortázar, há quadros com jogos ortográficos. O filme é recheado de citações a pensadores, cineastas, escritores e artistas que se mobilizaram pela causa. Pouco tempo depois, a resistência francesa ganharia as manchetes.

Godard consegue um filme político, artístico e surreal ao mesmo tempo. Coisa de gênio.

quarta-feira, junho 25, 2008

#50 - Todos os homens do presidente (All the president's men), de Alan J. Pakula


Ah se eu fosse apaixonado pelo jornalismo... Digo apaixonado de verdade. Como aquele amor platônico, o do Banquete, que preenche corpo e alma. No meu local de trabalho, foi oferecida uma sessão deste clássico sobre a profissão, Todos os homens do presidente. O motivo: fazer com que os jornalistas se apaixonassem pelo ofício.

Carl Bernstein e Bob Woodward se tornaram dois ícones pop do jornalismo na década de 70 quando, durante o governo de Richard Nixon, chegaram a conclusões bombásticas sobre uma invasão à sede do partido democrata em Washington. Era o famoso caso Watergate, que pôs na cadeia homens importantes e culminou na renúncia do então líder da Casa Branca.

Para romantizar ainda mais a carreira, foram escolhidos para os papéis principais Dustin Hoffman e Robert Redford. Eles fumam cigarros, bebem café compulsivamente, vivem cercados de anotações, têm as mesas bagunçadas e outros clichês que consolidaram o decoro do que deve ser um jornalista de verdade. O filme não é bom. O roteiro não é bom. As atuações são medianas e a história nem é tão bem contada assim.

No dia seguinte à projeção, teve palestra com Geneton Moraes Neto, para ver se os jornalistas se paixonavam mais ainda pela profissão. Geneton não chega a ser um ícone pop, mas ficou amigo de Bernstein após uma série de entrevistas.

Tirei algumas conclusões sobre a profissão. E entendi o porquê da implicância geral para com os jornalistas. Bem feito!

segunda-feira, junho 23, 2008

#49 - Be kind rewind, de Michel Gondry


O saudosismo fez com que os vinis não desaparecessem da face da terra - o que talvez, em breve, aconteça com o CD. Pois já tem gente com saudade das antigas e pesadas fitas de videocassete, as VHS. Michel Gondry aproveita o clima saudosista e faz uma comédia que, além de funcionar como uma homenagem à arte de fazer cinema, é também uma espécie de manifesto contra a pasteurização das grandes redes de locação de DVDs.

O argumento é sensacional. Jerry, encarnado por Jack Black, vive em um trailer debaixo de torres de rede de transmissão eletromagnéticas. Paranóico, acaba sofrendo um acidente e tem seu cérebro magnetizado. Resultado: apaga todas as fitas de vídeo da quase falida locadora em que trabalha seu amigo Mike (Mos Def). Para satisfazer uma cliente assídua com problemas de memória, eles criam suas próprias versões cinematográficas de diversos títulos, na esperança de que ela nem perceba a diferença. Uma câmera na mão e várias boas idéias na cabeça... Pois os melhores filmes são aqueles que nós mesmos invetamos.

O resultado é sensacional. Michel Gondry já havia provado que é um dos diretores mais criativos desta nova safra. Aqui, ele usa e abusa de efeitos de câmera, tomadas diferenciadas e cenários extremamente simples, mas que funcionam de maneira singular. Só assim mesmo para refazer pérolas como Os caça-fantasmas, Conduzindo Miss Daisy, Hora do Rush 2, Robocop e uma penca de outros sucessos. Todos divertidíssimos!

Tratando-se de Gondry, o desfecho deixa um pouco a desejar. Só um pouco. Porém, ao final da projeção, fica aquele gosto bom de Cinema Paradiso nos olhos.

quarta-feira, junho 18, 2008

#48 - Mondo Topless, de Russ Meyer


Enquanto uma moçoila de seios fartos e desnudos dirige seu carro pelas ladeiras de São Francisco, com muito balanço e pouco amortecimento, um narrador explana, entusiasticamente, mas muito entusiasticamente, a arquitetura da bela cidade da Costa Oeste estadunidense. Esse é o ponto de partida de Mondo Topless, documentário lascivo do mestre Russ Meyer que investiga o mundo de dançarinas desinibidas.

De Cisco para o globo, o filme traz à tela seios do mundo inteiro: Rússia, Alemanha, Suécia, França etc. Brasil? Não. Por aqui o negócio é bunda - e em Mondo Topless o negócio é peito. Tanto que, durante mais de uma hora, a estrutura narrativa não sofre quaisquer alterações.

As dançarinas comentam, em bg, sobre seus estilos de vida e a profissão. Falam um pouco de sexo também, é claro. Enquanto isso, mexem o corpo de forma exótica e efusiva, balançando o que têm para balançar, de um lado para o outro, para cima e para baixo, em uma espécie de rebolado peitoral. São seios de todos os tamanhos, cores e formatos. Novamente, o narrador entusiasmado vibra e pede a atenção do público.

"Eu duvido que você consiga se concentrar no que ela tem a dizer!"

Novamente, não se trata de pornografia. Russ Meyer dá um show de direção, com planos incríveis, estética bem cuidada, rock psicodélico e aquele bom humor ferino que é marca registrada do diretor.

segunda-feira, junho 16, 2008

#47 - Rocky, o lutador (Rocky), de John G. Avildsen


Domingão foi um dia dedicado ao esporte. De manhã cedo, a tradicional e necessária pelada de basquete. Depois, do almoço, pré-olímpico de basquete feminino. Em seguida, o Brasil tomando um corretivo do Paraguai, pelas eliminatórias da Copa do Mundo - Cabañas neles! Aí, vieram uns amigos aqui em casa com Rocky debaixo do braço. O primeiro, o bacana, o original. E logo após a sessão, ainda teve mais um jogo dos playoffs finais da NBA.

Rever Sly gritando "Adrian!" com o rosto deformado, só mesmo se for com cerveja, pizza e petiscos variados. E assim foi. Durante as duas horas de filme, aproveitamos para relembrar os outros episódios, comentar as lutas de Mike Tyson - pelas quais aguardávamos ansiosamente, mas que duravam apenas um mísero minuto, em média - e rir das frases prontas do garanhão italiano.

Pouco há para ser falado do roteiro, dos atores e das curiosidades que seja novidade. É aquilo. Sylvester Satallone escreveu o roteiro em três dias, teve a história recusada por vários estúdios, filmou tudo em apenas 28 dias, ganhou três Oscars... Porém, a história do imigrante italiano que ganha a vida como cobrador de agiota e vive na parte pobre da Filadélfia, nos Estados Unidos que está em constante crise, é humana.

No fim das contas, duas conclusões: o melhor e o único sério de toda a série.

domingo, junho 08, 2008

#46 - Butch Cassidy and the Sundance Kid, de George Roy Hill


O Velho Oeste, como bem já havia definido o mestre Sérgio Leone, é feito dos bons, dos malvados e dos feios. Porém, Butch Cassidy e seu fiel escudeiro, Sundance Kid, formam uma dupla que fica no meio: nem bons, nem malvados, muito menos feios: é a dupla de bandidos mais carismática e charmosa dos westerns - que arrancava suspiros da minha mãe, avessa, até então, a qualquer filme do gênero.

Butch realmente existiu e, reza a lenda, era um dos bandidos mais afáveis que aquelas terra já conheceu. Para o papel, foi escolhido Paul Newman, na flor da idade. Já Sundance Kid, Robert Redford, (no papel que rendeu a alcunha de seu instituto e, posteriormente, de seu festival) a pistola mais rápida do Oeste, era um sujeito durão, calado e extremamente fiel ao trabalho. Sim, eles consideravam roubar trens e assaltar bancos um trabalho.

Butch Cassidy and the Sundance Kid é puro entretenimento, recheado de piadas rápidas, situações cômicas e muitas perseguições a cavalo. Algumas cenas são antológicas e ficaram imortalizadas na história do cinema. A trilha sonora classuda de Burt Bacharach e a estrutura narrativa, com uma direção de arte impecável, dão o toque final.

Divertido pacas!

quinta-feira, junho 05, 2008

#45 - O banheiro do Papa (El baño del Papa), de César Charlone e Enrique Fernández


Pelo título, é possível imaginar o Papa arriando a batina, sentando na latrina e, por que não, já que o assunto se mantém na escatologia, dando aquela boa cagada. E é possível, também, imaginar como seria o banheiro: recheado de ouro, pomposo, enorme, imponente. Porém, não é nada disso que acontece em O banheiro do Papa, muito pelo contrário.

O filme é baseado em fatos reais. Cobre o período em que o Papa João Paulo II visitou o Uruguai e é ambientado em um humilde vilarejo, limítrofe com o Brasil. Em razão da passagem do pontífice, muitos moradores gastaram suas economias na esperança de faturar um trocado com o possível movimento turístico na região. Beto, um mercador local, acostumado a negociar muamba brasileira, tem uma idéia: construir um banheiro para que a esperada horda de peregrinos aliviem suas necessidades fisiológicas.

O argumento é muito interessante. A religião e seu mercantilismo são o foco de uma discussão que vai muito além de dogmas. A fé daqueles que vivem na miséria é posta à prova. Porém, o bacana mesmo desta produção latina, mais do que o roteiro, é a montagem. A fotografia é extremamente bem cuidada - talvez pelo know-how do diretor César Charlone, responsável pela festejada direção de fotografia de Cidade de Deus.

O desfecho é criativo e inusitado. Se eu contar mais, perde a graça.