sábado, maio 24, 2008

#44 - Bacalhau, de Adriano Stuart


Quem diria que, das profundezas das águas fleumáticas do litoral paulista, uma fera dos mares poderia surgir e matar dezenas de incautos banhistas. Pois se você acha que o peixe grande em questão é um tubarão, enganou-se. Esqueça o documentário que passou no Animal Planet. O mais temido animal dos sete mares é o bacalhau da Guiné!

Em uma divertida sátira ao tubarão estadunidense de Spielberg, o bacalhau de Adriano Stuart, feito em Ribeirão Preto, barbariza uma pacata cidade (Ilha Bela foi a escolhida como locação). Bacalhau, produção brasileira de 1976, traz um delicioso roteiro nonsense e piadas absurdas que ridicularizam não só as grandes produções de Hollywood, mas também os clichês cinematográficos.

O enredo gira em torno da briga entre o delegado local, que quer interditar as praias, e o prefeito, que acha tudo um exagero. Para solucionar o impasse, um oceanógrafo português, especializado em bacalhau, e um pescador brutamontes são escalados para tentar capturar a fera. E para quem acha que se trata de mais uma produção que explora a nudez, nem ao menos um palavrão é dito.

No elenco, nomes de peso da época, como Dionísio Azevedo, Canarinho, Matilde Matrangi, Maurício do Valle e Marlene França. A trilha sonora também é caprichada, com direito à vinheta toda vez que Bac's, o peixe-assassino-malandrão, resolve atacar alguém.

Um clássico do nosso cinema, que deveria ser cultuado por gerações.

quarta-feira, maio 21, 2008

#43 - Últimos dias (Last Days), de Gus Van Sant


Não estava na minha lista de compras, mas bastou uma passada pela seção de filmes do supermercado que dei de cara com Últimos dias numa daquelas liquidações de R$ 9,90. Em meio a detergentes, carne moída, iogurte e papel higiênico, coloquei o filme no carrinho e parti em direção ao caixa.

É preciso dizer que não se trata do melhor filme de Van Sant. De jeito nenhum. Até agora, na minha opinião, está entre os mais fracos. Não fosse pela aura superstar de Kurt Cobain e tudo o que o Nirvana representou para mim, provavelmente teria detestado acompanhar os tais últimos dias de um astro do rock proposto pelo diretor.

Em uma produção onde não há roteiro, o capricho inegavelmente fica com a estética bem trabalhada. Fotografia caprichada e enquadramentos que funcionam quase como pinturas estão por todo o filme. Há um apuro na imagem, um cuidado no trato cinematográfico, um capricho nos detalhes.

A preocupação com a estética é tamanha que, prova disso, é a ausência de diálogos e marcações previamente desenvolvidos. A maioria das cenas e todos os diálogos são completamente improvisados. Inclusive, anteriormente, Van Sant planejava usar um ator nórdico, que não falava nada de inglês, para o papel de Blake - o suposto Cobain. Porém, acabou optando por Michael Pitt, que faz um belo trabalho de expressão corporal, se entregando ao personagem.

Não é que seja ruim pra caramba. Eu apenas não o veria novamente.

sábado, maio 17, 2008

#42 - Viagem a Darjeeling (The Darjeeling Limited), de Wes Anderson


Wes Anderson é um diretor preocupado com os detalhes, com o todo. Esse comprometimento com um cinema belo estava presente em alguns de seus filmes anteriores ao supracitado, como os excelentes Os excêntricos Tenembaums e A vida aquática de Steve Zissou. Portanto, são três exemplares de um gênero que cai mais para o drama do que para a comédia - sem perder o carisma, a ingenuidade e a simplicidade que um bom divertimento deve ter.

Por isso, Viagem a Darjeeling enche os olhos. Ambientado na Índia, o roteiro conta a história de três irmãos que se reencontram após a morte do pai e partem em uma viagem de trem, em busca sabe-se lá do quê (pelo menos até metade do filme é assim). A fotografia e a edição são fantásticas. O colorido das peças indianas se encaixa perfeitamente com a câmera livre de Anderson e com uma trilha sonora escolhida a dedo. O filme tem cenas belíssimas, de deixar qualquer dramalhão romanesco no chinelo!

O trio fraternal está em perfeita sintonia. É formado pelos competentes Owen Wilson, Adrien Brody e Jason Schwartzman, que também assinou o roteiro. As participações muito especiais de outros costumeiros parceiros de Wes Anderson, Angelica Huston e Bill Murray, abrilhantam a produção. De quebra, no curta que antecede o filme, Natalie Portman posa como veio ao mundo.

Wes Anderson inventou um outro gênero: drama cômico.

sexta-feira, maio 16, 2008

#41 - Ten minutes older: The trumpet, vários diretores


O cinema tem uma forma toda especial de tratar o tempo. Não poderia ser diferente: se o tempo já foi considerado uma quarta dimensão, nada mais curioso do que ser retratado em apenas duas. Um coletivo de mestres do cinema se reuniu para pensar e filmar, justamente, o tempo. Eles tinham, cada um, dez minutos.

O resultado é esta bela produção, Ten minutes older: The trumpet - que de tão bacana ganhou também uma continuação, Ten minutes older: The cello. Ambos são uma homenagem ao filme do diretor soviético Herz Frank, Ten minutes older. O escrete de diretores é fantástico. Espia.

Aki Kaurismäki dirige Dogs have no hell, sobre um sujeito que recomeça a vida após o cárcere. Victor Erice é o responsável por Lifeline, uma densa história sobre uma mancha de sangue que surge no berço de um bebê. Werner Herzog documenta Ten thousand years older, sobre uma tribo na Amazônia brasileira. Jim Jarmusch e seu minimalismo são os responsáveis por Int.Trailer.Night, sobre uma jovem atriz que não tem descanso. Wim Wenders arrebenta, com uma espécie de road movie, ao som de Eels, chamado Twelve miles to Trona, na qual um homem precisa achar urgentemente um hospital. Spike Lee destoa um pouco da proposta em We Wuz Robbed, sobre as eleições nada democrática nos EUA que levaram George W. Bush ao poder. Para fechar com chave de ouro, Chen Kaige, com o bonito e divertido 100 flowers hidden deep, no qual um homem faz uma mudança pouco convencional.

E eu levei exatamente 10 minutos para escrever esta resenha.

domingo, maio 11, 2008

#40 - Crise (Crisis), de Robert Drew


Em junho de 1963, o então presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, tinha um grande abacaxi nas mãos. No Alabama, estado reconhecidamente conservador, retrógrado, provinciano, racista e preconceituoso (cabem até mais predicados, mas vou parar por aqui), o governador George Wallace ameaçava obstruir, pessoalmente, a entrada de dois jovens estudantes negros na universidade local - colocando-se contra uma ordem judicial impetrada pelo irmão do presidente, então secretário de Estado de Justiça, Robert Kennedy.

Crise é uma extraordinária obra documentacional que mostra as 30 horas que antecedem este acontecimento. John Kennedy precisa encontrar junto a sua equipe uma forma de não criar mais celeuma em torno da situação e, ao mesmo tempo, garantir que os dois alunos façam as suas matrículas. Pela primeira vez, uma equipe cinematográfica entrou na Casa Branca e registrou esse extenuante jogo de estratégia política.

Robert Drew, diretor que fez documentários de todo o tipo, até mesmo para a NASA, assina o feito e imortaliza um momento histórico que até hoje ecoa como símbolo maior da luta contra a segregação racial.

Mais um título da indispensável coleção da VideoFilmes.

sábado, maio 10, 2008

#39 - Fritz the cat, de Ralph Bakshi


Quando eu era minúsculo, já freqüentava o que era conhecido como videoclube, que nada mais era do que a primeira versão das videolocadoras. A diferença é que funcionava como um clube mesmo. Ao invés de um título, pagava-se por um VHS. Me lembro também da prateleira de comédia. Havia um desenho animado que, não sabia o porquê, minha mãe não me deixava levar para casa. E era esse aí de cima, Fritz the cat.

Hoje em dia eu entendo minha mãe. Eu não percebia, mas tratava-se de um desenho erótico, picante e politicamente incorreto. Ainda mais para mim, um moleque de pernas lisas, sem pelos pubianos, de voz fina e desengonçado. Foi semana passada, ao ler uma matéria sobre os anos 60 e a contracultura que me deparei novamente com o gato Fritz. Eu não precisava mais de autorização materna.

Baseado no personagem criado pelo cartunista Robert Crumb, Fritz é um jovem gato que decide viver a vida intensamente. Ou seja: muito sexo, drogas e rock'n'roll. Ao longo do desenho, uma verdadeira fauna de personagens vai sendo apresentada. Há porcos policiais (os pigs, gíria para as autoridades), tamanduás tarados, coelhos nazistas e corvos malandros.

O desenho animado, assim como as histórias de Crumb, nada mais é do que um deboche sobre os ícones sessentistas, que englobam fatores comportamentais e culturais como, por exemplo, os hippies e sua vontade de mudar o mundo. O roteiro, como não podia deixar de ser, é completamente psicodélico, perfeitamente dentro da proposta.

Crumb não gostou nem um pouco do resultado da realização de Bakshi - segundo o diretor, por motivos egocêntricos, o que deve ser verdade, uma vez que o cartunista tinha constantes problemas com isso. Fato é que o desenho se tornou cult e entrou para a história do cinema como a primeira animação a ganhar classificação indicativa pornográfica, a famosa X-rated.

Portanto, divirta-se! E não esqueça de tirar as crianças da sala.

quinta-feira, maio 08, 2008

#38 - Tokyo Ga, de Wim Wenders


Assistir a um filme de Wenders é sempre um convite à reflexão cinematográfica. Sempre. Seja uma obra de ficção ou um documentário, como em Tokyo Ga, o cinema é minuciosamente dissecado pela câmera caprichada de um dos maiores realizadores do nosso tempo.

Aqui, o diretor ruma a Tokyo para tentar encontrar a cidade que o cineasta nipônico Yasujiro Ozu retratava em seus filmes pós-Segunda Guerra Mundial. Sempre crítico e irônico, Ozu mostrava com detalhes a decadência da família japonesa, que cada vez mais cedia aos encantos ocidentais e burgueses. A perda da identidade era sempre o ponto principal dos roteiros, filmados com técnicas dignas da escola japonesa, lentamente, próximo à perfeição, quase como uma resistência cultural e ideológica.

Tokyo Ga funciona mais como uma homenagem de Wenders a um de seus grandes influenciadores. Em uma Tokyo moderna, tomada por arranha-céus e claustrofóbicamente urbanizada, sua câmera continua a buscar, só que de forma documentacional, o que Ozu propunha: a tal substituição dos conceitos e valores por um way of life americanizado. Japoneses jogam golfe sem pôr a bola no buraco, dançam o twist da década de 50 e se vestem como os Beach Boys em plena praça pública.

A grife de Wenders se faz sentir em cada fotograma. Para aumentar a noção de ocidentalização, o diretor filma Tokyo como se fosse Nova York. Em plena madrugada, luzes, painéis eletrônicos, asfalto molhado, trens, linhas de transmissão e táxis formam um denso painel cosmopolita, com uma trilha sonora que lembra muito o som do Morphine* - excelente e lendária banda que tem a cara da Big Apple underground.

Fundamental para quem leva o cinema às últimas conseqüências.


*Ecute "The Night" e você vai entender o que quero dizer.

domingo, maio 04, 2008

#37 - Conduta de risco (Michael Clayton), de Tony Gilroy


Vem estampado na capa do DVD alguns dizeres que, ao menos eles pensam assim, garantem que o filme é bom. Pode confiar: sete indicações ao Oscar; bonequinho do jornal aplaudindo; cinco estrelas. Nada disso me seduz. Tanto é que o filme me foi emprestado pelo meu irmão. Ao perguntá-lo se havia gostado ou não, a resposta foi precisa:

"Eu dormi em algumas partes, mas a minha namorada gostou."

É preciso falar do texto. Eu entendo que muita gente tenha dormido em Conduta de risco, incluindo meu irmão, pois trata-se de um roteiro que basicamente se firma através dos diálogos, e não das imagens - apesar da fotografia caprichada. Se eu não gostei do filme, e admito aqui neste parágrafo, foi porque achei o texto muito fraco, aliado a um argumento monótono e corriqueiro.

Conta-se a seguinte história: Michael Calyton é o sujeito que "ajeita" os casos de seus clientes para que eles fujam da "verdade" e sejam absolvidos de seus crimes. E a ordem de grandeza de seu trabalho varia da mais risível às mais complicadas situações. Ele se vê em uma encruzilhada quando precisa defender uma empresa que comercializa um herbicida que já fez mais de 400 vítimas e está sendo processada por uma jovem interiorana.

Porém, justiça seja feita: George Clooney é um excelente ator. Já provou várias vezes que está no hall dos grandes. Sua atuação em Conduta de Risco, que lhe rendeu uma indicação ao prêmio, não compromete, mas é insatisfatória. Não há nada ali que a torne grandiosa ou diferenciada. O resto do elenco vai pelo mesmo caminho, já que o texto, insisto nisso, é fraco demais.

O filme é chato, dura quase duas enfadonhas horas, mas o assisti até o fim. E confesso que ele começa a ficar bacana nos 15 minutos que antecedem os 15 minutos finais. Ou seja, tarde demais. Durante o desfecho, me senti completamente enganado, ludibriado pelo apelo das grandes e milionárias produções estadunidenses.

Definitivamente, não faz meu tipo.

sábado, maio 03, 2008

#36 - Em Paris (Dans Paris), de Christophe Honoré


Mais um da série "a banda larga move cinemas", que traz as produções em cartaz a minha residência, na impossibilidade de abandonar o lar para conferi-las. O escolhido foi uma indicação: Em Paris. Que tem exatamente o que se espera de uma produção rodada na Cidade Luz. Não tem jeito, é filme cabeça.

O que não quer dizer que é ruim. Muito pelo contrário. Trata-se de um belo exemplar do bom cinema contemporâneo - coisa rara, na minha opinião, para os franceses em atividade. Christophe Honoré é o responsável não só pela boa direção, mas também pelo excelente e inteligente roteiro. Sua linguagem soa como um bom livro existencialista, do quilate francês de um Camus ou de um Sartre, só que adaptado para os tempos atuais.

A história gira em torno de dois irmãos, Paul e Jonathan, que têm personalidades completamente diferentes. Enquanto o primeiro é depressivo e introvertido, o segundo é mulherengo e safo. A relação dos dois começa a mudar depois que Paul rompe com a mulher e volta para casa, mais precisamente para o quarto de Jonathan, de onde se recusa a sair.

O delicioso de Em Paris nem está nas belas imagens da sempre estonteante paisagem parisiense. O uso da edição, da fotografia, do texto e da trilha sonora é perfeito. Jonathan é uma espécie de narrador, simplesmente pelo prazer em ser onisciente. Ele é quem conduz a história, pontuando o roteiro com tiradas bem humoradas. Sendo assim, a linguagem adotada permite um jogo cênico fantástico. A seqüência em que Paul e sua ex-mulher discutem a relação por telefone cantando é sensacional e ilustra bem essa ousadia. A música vai do jazz classudo ao rock alternativo, incrivelmente sem tropeços.

Um belo filme!

sexta-feira, maio 02, 2008

#35 - Ali G in da USAiii, de Scott Preston


Booyakasha!

Diretamente de Barcelona, oferecido por minha grande amiga Ju Hernkenhoff, me cai nas mãos esse sensacional DVD duplo com a série completa de Ali G, incluindo os outros dois personagens de Sacha Baron Cohen, o modelo austríaco Brüno e o repórter do Cazaquistão, o já famoso Borat. Para quem gosta do humor ferino e ácido do comediante, no melhor estilo britânico, é um prato cheio.

Espia: Borat inferniza a vida de estadunidenses provincianos e demagogos - numa das melhores passagens, quando passeia pelo sul dos Estados Unidos, terra de George Bush, ele apavora um museu que remonta o século XIV; Ali G tira do sério autoridades internacionais em uma visitinha a ONU, na qual faz pouco de países africanos e do Iraque; e Brüno caçoa do mundo das celebridades, extraindo de modelos e estilistas, frases e teorias nonsenses e fazendo com que uma produtora se passe por Carolina Herrera.

O disco de extras tem mais alguams horas de filmagens que ficaram de fora da série televisiva. Imperdível.

Respect!