sexta-feira, março 28, 2008

#25 - Ventos da liberdade (The wind that shakes the barley), de Ken Loach


Não, eu não achei tempo entre fraldas e mamadas para assistir a um filme. O título acima foi conferido pouco antes da pequena nascer. Estou fazendo um certo esforço mental para lembrar de alguns detalhes. Vamos lá...

Ken Loach é um dos grandes diretores de cunho político do nosso cinema. Em Ventos da liberdade, o realizador inglês retoma acontecimentos históricos, e fala da independência irlandesa. Os motivos e as raízes do IRA são expostos através da visão de dois irmãos: um guerrilheiro convicto e um médico recém-formado que abdica do trabalho em Londres para lutar pela independência de seu país. Ao longo da projeção, é possível perceber como os militantes irlandeses passaram a ser considerados terroristas, ao invés de revolucionários. Uma mera questão convencional, maniqueísta, que fica clara na direção-denúncia de Loach.

O filme remonta os episódios de 1919, quando a República da Irlanda foi reconhecida independente por seu próprio parlamento, se desligando do Reino Unido à força. Membros do IRA lutavam contra um exército inglês que vigiava a pequena ilha e sufocava qualquer tentativa de resistência, os temidos black and tuns.

Trata-se de um filme de guerra. Uma guerra civil, sem mísseis ou bombas, mas ainda assim uma guerra. Pelas mãos talentosas de Loach, as cenas de conflito são extremamente impactantes e fortes, sem abandonar aquele velho e bom senso cinematográfico de quem entende da sétima arte. O elenco, captaneado pelo excelente Cillian Murphy, rende muito bem.

O filme é tão bom que, minutos após o seu fim, em plena madrugada, lá estava eu buscando mais informações sobre a história da República da Irlanda.

Recomendo!

terça-feira, março 18, 2008

# A experiência mais cinematográfica que eu já tive, por Eduardo Frota, Vulgo Dudu


Compartilho com vocês, meus caros, raros, porém queridos, leitores, um pouco do que senti nestes nove meses corridos. O texto é grande, mas ainda assim muita coisa ficou de fora.



Durante muito tempo, sem a menor propriedade ou conhecimento de causa, eu usei e abusei da expressão “foi um parto” para me referir à dificuldade de certas tarefas na minha vida. Pequenices, como desbloquear cartão de banco, cancelar conta de telefone celular, atravessar o trânsito carioca congestionado ou finalizar um trabalho complicado. Pois ontem, dia 13 de março de 2008, foi o dia em que entendi o que está além do léxico popular.

Eu antecipei meu nervosismo desde o dia em que a atendente do laboratório, por telefone, deu parabéns a minha mulher. Não era seu aniversário. Esperávamos que fosse o oposto, mas o resultado do exame de gravidez deu positivo. Meu mundo virou de cabeça para baixo. Fitava o nada durante horas, sozinho, ignorando minha hiperatividade nata. Tanta coisa passava pela minha cabeça que mal conseguia entender o que realmente estava acontecendo.

A ficha só foi cair, de fato, 15 dias depois – o tempo exato para se acostumar com a idéia. Recebia os parabéns de parentes e amigos, mas retribuía o carinho com um sorriso amarelo, um pouco forçado, apenas para manter as formalidades. Minha irritabilidade foi se acentuando, a ponto de me indispor com a ginecologista da minha mulher, que proferiu as seguintes palavras:

“Você está preocupado, não é, Eduardo? Pois saiba que eu estou muito feliz!”

Na hora, pensei em várias respostas. Grosseiras. Mas me limitei a ficar calado e a arrumar uma nova médica, que me disse, na hora certa, a melhor coisa que eu poderia ter escutado naquele momento:

“Um filho é sempre um passo para frente.”

E assim, 39 semanas se passaram rapidamente. A barriga da minha mulher crescia monstruosamente. Além dela, eu também tive todos os sintomas clássicos da gravidez: desejos, insônia, enjôos, falta de ar e mudanças de humor. Sem contar a barriga que também cresceu, mas por conta do desleixo com o qual tratei minha alimentação. Ao invés de carregar uma pessoa no ventre, carregava duas nas costas.

Quando chegou a quadragésima semana, a final, a decisiva, a derradeira, o tempo passou vagarosamente, cruel, como se as 39 semanas anteriores passassem novamente, com toda a sua carga emocional. Uma ansiedade absoluta se instalou em mim e alguns medos voltaram com força total. Por exemplo: entrar ou não na sala de parto?

Eu, como cinéfilo que sou, imaginei a cena quinhentas vezes. Com riqueza de detalhes, em todos os seus pormenores, com direito a plano-seqüência, slow motion e trilha sonora. O protagonista, eu, passava mal, desmaiava, perdia o controle. Corri atrás de informações sobre o assunto, procurei ouvir quem já passara pela experiência, mas nada demovia a idéia de que eu ia borrar os fundilhos e passar vexame quando minha filha aparecesse diante de mim. Pior seria se fosse cesariana, pensei. Praticamente um remake de Alien, o oitavo passageiro, com a cena onde o bichano rasga a barriga de seu hospedeiro.

Segundo uma das milhares de pesquisas que havia lido, o percentual de pais que desmaiavam na sala de parto era muito pequeno, e na maioria das vezes todos eles estavam na faixa de cardíacos, hipertensos etc. Em outra, a conclusão era mais pessimista: alertava para a importância dos pais na sala de parto, mas também deixava claro que a maioria deles atrapalha ao invés de ajudar, chegando, inclusive, a desmaiar.

Mesmo nunca tendo nenhum episódio de vertigem registrado em minha ficha médica, lá estava eu, apavorado. Para não ser pego de surpresa, assisti a todos os programas sobre partos e bebês do Discovery Home&Health. Não adiantou muita coisa. Inclusive, em um episódio, concluí que cesariana é mesmo uma espécie de remake de Alien, o oitavo passageiro.

Com o tempo, comecei a me acostumar com a idéia de assistir a um parto natural. A médica dizia para não me preocupar, que era tudo civilizado. Sem gritarias, histerismo, sanguinolência e atrizes de novela se debatendo, pálidas e lânguidas. Me convenceu de que os partos feitos por atores são sempre uma distorção exagerada do que realmente acontece no centro cirúrgico da maioria das maternidades, salvo em casos de emergência. Conclusão: no dia eu decidiria. Se estivesse me sentindo bem e o parto fosse normal, entraria. Caso fosse cesariana, ficaria difícil. Ainda assim, um pensamento não saía da minha cabeça: caso enfrentasse toda a situação, entrasse na sala de parto, filmasse, fotografasse e tudo o mais, seria uma grande vitória pessoal. Uma prova de que sou mais forte do que supunha.

Minha mulher começou a sentir as contrações na primeira semana de março, e a data prevista para o nascimento era o dia 9 do mesmo mês. Porém, as mesmas não eram fortes o suficiente para dilatar a parede do útero. Portanto, o mais indicado para que o parto fosse natural era uma indução. Funciona assim: um hormônio é injetado na veia, aumentando consideravelmente a intensidade das contrações. A tentativa é um caminho sem volta: caso a medicação não funcione, não há como voltar para casa, e uma cesariana precisa ser feita.

A notícia nos deixou um pouco assustados. A minha mulher, porque era a barriga dela que iria ser aberta e cerzida. E a mim, ora bolas, porque eu tremia quando pensava na possibilidade de entrar na sala de cirurgia e testemunhar tal carnificina.

No dia 13 de março, data marcada para a indução do parto, às seis horas da manhã lá estávamos, assustados, na recepção da Clínica Perinatal, em Laranjeiras. No saguão, uma TV de plasma mostrava cenas de alguns nascimentos. Uma certa comoção me fez soluçar quieto, discreto. Enquanto olhava a maquete da clínica que será construída na Barra da Tijuca, tentava distrair a mente com algumas conclusões. Por exemplo: a maternidade, este local de onde saem os bebês, é uma espécie de aeroporto onde a origem é móvel e os destinos, sempre indefiníveis.

Voltei à tona quando fomos chamados a assinar o termo de internação. Seguimos para o quarto e minha mulher trocou de roupa. A luz sobre ela era pálida e fria feito a de um hospital, mesmo que a maternidade seja diferente no que diz respeito ao produto final. Na maternidade, você faz uma cirurgia e no final recebe um prêmio. No hospital, o prêmio é sair de mãos abanando. O soro, a maca, os remédios: tudo contribuía para aumentar o clima de ansiedade.

Quando o enfermeiro apareceu para nos levar à sala de pré-parto, no centro cirúrgico, gelei. Aguardando o elevador, evitei olhar para trás, para onde meus pais estavam. Me inclinei para um beijo na testa da minha esposa, na tentativa de mostrar a ela que estava ali, firme e forte, apesar da angústia misturada com alegria que me consumia por dentro. Ela sentiu, e chorou lágrimas de desabafo, em silêncio. E assim ficamos até chegar no andar da sala onde a medicação começaria a ser aplicada. Nos separamos rapidamente para que eu fosse ao vestiário masculino trocar de roupa e me fantasiar de médico. Foram longos dois minutos, contemplativos, solitários.

Já na sala de pré-parto, um aparelho de eletrocardiograma foi posicionado por sobre a barriga da minha mulher para monitorar os batimentos do bebê. O barulho era irregular, chiado, o que já provocava algum desconforto. Ligamos a televisão para nos distrair, pois a manhã prometia ser longa. Normalmente, uma indução leva mais ou menos seis horas, dependendo da fisiologia da mulher. Ana Maria Braga, que tem um filho, apresentava mais uma daquelas suas mensagens matinais patéticas sobre esperança, que me pareceram mais patéticas ainda quando senti contrações na minha barriga e esvaziei o café da manhã no banheiro do centro cirúrgico.

Quando o anestesista introduziu um catéter nas costas da minha mulher, senti que enfrentar uma cesariana seria complicado. Para tornar as coisas um pouco mais tensas, o eletrocardiograma apontava para uma queda no ritmo cardíaco da minha filha toda vez que havia uma contração. A presença da bolsa d'água é que regularizava a situação sem maiores perdas. Porém, um exame de toque confirmou que os tais picos se davam porque o cordão umbilical estava na frente da cabeça da minha filha. Ou seja, caso não saísse da frente na hora do nascimento, o cordão poderia se comprimir ainda mais, justamente na hora em que o bebê precisaria de mais oxigenação. Prognóstico: esperar um pouco mais para ver se, de repente, o cordão saía da frente.

A notícia visivelmente abalou-nos. Respirei fundo, me recompus e fui procurar um café enquanto minha mulher tentava descansar. Encontrei a obstetra na sala dos médicos e conversamos um pouco sobre a situação. Ela me disse que um parto normal, naquela altura, era improvável, mas que faria de tudo para realizar a vontade da minha mulher, até o ponto em que as duas, mãe e filha, não sofressem risco qualquer.

Poucas horas depois, foi decidido que seria feita uma cesariana. Gelei, mas na mesma hora confirmei que entraria de qualquer maneira. Não iria deixar minha mulher, com quem compartilhei os nove meses mais intensos de toda a minha vida, sozinha em um momento delicado como aquele. Tomei coragem não sei de onde e entrei na sala grande, clara, branca, limpa, cheia de instrumentos prateados, máscaras de oxigênio, aparelhos eletrônicos, bandejas com bisturis e tesouras e uma belíssima janela esfumeada que dava para a Rua das Laranjeiras, engarrafada.

Me arrumaram um banquinho com rodinhas. Pensei: se eu cair de um banquinho com rodinhas o tombo pode ser pior. Arrumei um outro, no canto da sala, com borrachas fixas. Me posicionei do lado direito da minha mulher, que começava a ficar levemente grogue por causa da anestesia. Estavam presentes, além de mim, o anestesista, a obstetra, uma segunda médica de sua equipe, a pediatra, uma instrumentadora e Adriana, a simpática enfermeira que durante toda a nossa estada no centro cirúrgico tratou de apaziguar a ansiedade implacável.

Eu me transformei em um pêndulo humano, que ia da calma ao descontrole em segundos. Graças à máscara que faz parte do uniforme de pai-na-sala-de-parto, dava para esconder um pouco a minha ansiedade de minha mulher. Tinha medo de desestabilizá-la. Porém, minhas pernas me entregavam: balançavam freneticamente, as duas, descompassadas, desengonçadas. Minha mão suava, fria.

Um pano azul foi aberto e separou a cabeça da minha mulher do resto de seu corpo. Era um campo de visão seguro para nós dois, desacostumados com o ofício médico. Enquanto abriam mais uma barriga, as médicas tricotavam sobre suas rotinas: academia, filhos, contas etc. O anestesista, o único homem da equipe médica, brincava do outro lado, fazendo piada da situação.

Doze minutos depois de iniciada a cirurgia, ela surgia, minha filha, Maria Eduarda. Quando a médica a ergueu no ar, ignorei solenemente todos os meus medos, cada um deles, e levantei também. Ouvi seu choro e, em seguida, o choro da minha mulher. Não consegui chorar. Ria feito um bobo alegre. Meu rosto ficou deformado de tanta alegria por detrás daquela máscara. E o medo de desmaiar? Sei lá para onde ele foi. Estava mais ocupado em registrar, através de fotos e vídeos, o exato momento em que percebi que nunca mais seria uma pessoa egoísta.

Momentos depois a pediatra pôs minha filha nos meus braços, ainda embalada naquele monte de toalhas e suja de grumo e de restos do parto, para que a levasse até o berçário. No meu colo, ela abriu seus enormes e expressivos olhos e ficou me olhando. Eu conseguia ver o meu reflexo na iris dela. Me reconhecia nela. Caminhei passos de gente grande, cheio de adrenalina no corpo, extasiado, em estado de graça. Pelo vidro que separava minha família de mim, expus meu rebento. Eles pareciam comemorar em silêncio um gol em final de campeonato.

Saí, daquela sala de parto, pai. E teria me arrependido amargamente se tivesse optado por esperar do lado de fora, na cafeteria. Como pai recente, aprendi a entender a natureza e sua sapiência. Os nove meses, a maturação, a gênese – todos os conceitos livres de dogmas religiosos ou científicos. A experiência é avassaladora, vem como um turbilhão, lhe põe de cabeça pra baixo para logo depois lhe acertar o rumo e deixar claro que plantar uma árvore ou escrever um livro são meras atividades lúdicas.

Desde o baque, passando pela aceitação, até o acolhimento de uma nova família – passei por todas as fases. A todos que me disseram que tudo se acertaria com o tempo, quando mais parecia uma criança assustada com um conto de terror, obrigado. A todos que participaram de alguma maneira, me apoiando quando eu mais precisava, obrigado. Aos médicos, Dra. Lenise, Dra. Nair, Dr. Eduardo e Dra. Monica, pela medicina humanista, segura, firme e competente, obrigado. A minha maravilhosa família, até a que está distante, mas que sempre esteve perto do meu coração, obrigado. Aos meus pais e irmãos, por quem tenho esse amor incondicional que agora também dedico a minha família, obrigado.

E à mulher a quem aprendo a amar a cada dia mais, mesmo com a cara amassada pela falta de sono e o cabelo desgrenhado pela falta de tempo, mas ainda assim irradiante e bela, com quem transpus todas as enormes barreiras desde o dia em que estabelecemos nossa união, obrigado.

Estou completo.

terça-feira, março 11, 2008

#24 - Paranoid Park, de Gus Van Sant


Parece que Gus Van Sant encontrou uma forma de fazer cinema que o diferencia de qualquer outro realizador do nosso tempo. Desde Elefante, quando o diretor se distanciou da forma romanesca de contar histórias, por mais horrendas e catastróficas que elas sejam, seus filmes são verdadeiras obras de arte. Com Paranoid Park não é diferente.

Partindo de uma premissa assustadora, Van Sant explora o mundo dos skatistas. A ação se passa em uma fatídica noite na qual o jovem Alex resolve ir com seu amigo, Jared, dar umas voltas na pista de skate que batiza o filme. Porém, um acidente seguido de morte acaba cruzando sua vida. Ele passa a repensar seus atos e comportamento e reavalia seus valores morais. Mais do que isso, faz uma jornada interior da maneira mais desconfortável possível.

O toque de classe em Paranoid Park está na maneira como o diretor conduz as filmagens. O skate é mostrado de um ângulo bem diferente, ganhando contornos visuais incríveis e deixando transbordar na tela toda a plasticidade do esporte. Uma câmera 8 mm, com seus tons mais granulados, percorre toda a pista do parque, livre, desimpedida, cheia do espírito hedonista juvenil. A trilha sonora é outro ponto forte. Perfeita. Digna de quem entende do assunto.

Filmar tragédias e mantê-las com aura de obra de arte parece ser tarefa fácil para Gus Van Sant.

segunda-feira, março 10, 2008

#23 - Rocky Balboa, de Sylvester Stallone


Faz mais de 30 anos que Sly conquistou o mundo cinematográfico com a história de um imigrante italiano que conseguia fama e sucesso como boxeador. Lá em 1976, ele escreveu o primeiro roteiro de Rocky, e depois de ser ignorado pelas principais produtoras de Hollywood acabou levando pra casa três estatuetas da academia que outrora o rejeitara. Sim, rejeitar, porque tratava-se praticamente de uma história autobiográfica.

O lutador-garanhão-italiano acabou virando febre. Lutou contra Mr. T, ficou amigo do Apolo Doutrinador e fez até mesmo os russos, em plena Guerra Fria, curvarem-se ao seu way of boxing. Eu, e acredito que a minha geração também, cresci com o tema de Rocky na cabeça, dançando Eyes of the tiger em festinhas americanas e vendo o Mike Tyson eliminar em 30 segundos os seus oponentes. Logo, tudo isso explica a empatia que tenho para com a série de Sly.

Rocky Balboa aproveita a boa forma e fase do protagonista para contar aquela velha história de superação. É um clichê atrás do outro, recheados sempre com lições de moral. Tipo: não importa o quão forte a vida lhe bata, o importante é o quanto você consegue suportar e seguir em frente. E, assim, tio Rocky, inchado pelo excesso de Whey Protein, dá uma lição no rapaz jovem, rico, prepotente e com instinto assassino que o desafia para uma exibição quase que circense: o velho bonzinho contra o jovem malvado. É maniqueísmo, sim. Mas é Rocky!

O que há de novo, e que Sly explora bem, são alguns recursos visuais que os outros filmes da série não tiveram a oportunidade de experimentar. Edição marota, fotografia esperta e tratamento gráfico para deixar os combates ainda mais atraentes. Nos créditos finais, um monte de gente como eu e você sobe aquela famosa escadaria, lembra? Onde Rocko levanta os braços após um árduo dia de treinamento? Um sinal de reverência à série e ao personagem.

Diz aí se você também não imitaria o lutador-garanhão-italiano?

domingo, março 09, 2008

#22 - Amor pra cachorro (Year of the dog), de Mike White


Eu sabia que estava me arriscando. Porra, Amor pra cachorro? Minha cônjuge quis alugar essa pérola que estava na estante da locadora por causa de cachorros. De fato, a capa era cheia deles, das mais diversas raças. E eu juro que vi o filme de coração aberto. Afinal, quem não gosta de cachorrinhos?

Ou estou ficando ranzinza demais, ou insensível demais, ou implicante demais, ou algum outro adjetivo pejorativo desses. Porque não dá. Trata-se de uma comédia romântica que não tem nada de comédia e muito menos de romance. A não ser que os personagens confessassem uma zoofilia, que fica latente o filme inteiro. No final das contas, Mike White, que assinou bons roteiros como Escola do Rock e Nacho Libre, faz um filme que perde o fio da meada e se transforma numa espécie de dramalhão psicológico.

É assim: uma moça boazinha, altruísta, tímida e, obviamente, solitária, tem com seu cachorro a única relação de amizade e companheirismo que conhece. Um dia, logo nos primeiros minutos, o cão morre. Com a impossibilidade e incapacidade de conseguir se relacionar com homens exacerbada, ela passa a sofrer e a se consternar com o mundo animal. Se torna, então, uma ativista ecológica.

Tudo é forçado em Amor pra cahorro, do título à montagem, passando pela edição e pela trilha sonora. Cinema em sua face de mercantilismo prático. É como aquelas comidas que já vêm embaladas para serem cozinhadas no microondas. Até a duração do longa foi cuidadosamente providenciada: 90 minutos; sendo 30 para ambientar a história, 30 para a problemática e mais 30 para a solução. Ponto.

A protagonista deste engodo cinematográfico é Molly Shannon, conhecida e respeitada comediante estadunidense, que participava, inclusive, do elenco fixo do Saturday Night Live. Sua caracterização é boa e segura. Mas o roteiro é tão ruim que eu passei o tempo inteiro contando os minutos para que acabasse logo.

Se era para ver cachorrinhos, melhor ter ligado a TV no Animal Planet.

sexta-feira, março 07, 2008

#21 - Romance e cigarros (Romance and cigarettes), de John Turturro


As referências de Romance e cigarros são as melhores possíveis - apesar de ser um musical. Direção e roteiro do ótimo ator John Turturro, produção executiva dos irmãos Coen e um elenco razoável com James Gandolfini, Susan Sarandon e Kate Winslet.

Porém, o resultado não é satisfatório. É até um bonito filme. Turturro dirige muito bem sua realização, criando belíssimas cenas e acertando a dose nas músicas e suas respectivas coreografias, exageradas propositalmente.

O prolema é o roteiro, que é chato. Bem chato. Conta a história de um sujeito que trai a esposa e depois se arrepende. Aí, tem que comer o pão que o diabo amassou para ser aceito novamente não só pela esposa, mas por toda a família. Previsível...

Não foi desta vez, com seu terceiro longa, que Turturro ganhou notoriedade no ofício da direção. Tanto que o filme, apesar de ter sido exibido em festivais, teve um discretíssimo percurso no circuito estadunidense.

segunda-feira, março 03, 2008

#20 - Superbad, de Greg Mottola


Parece que a nova safra de filmes sobre adolescentes vorazes por sexo está bem representada. Judd Apatow se juntou com um punhado de gente engraçada e competente e encontrou seu nicho. Ao lado de bons atores, bons roteiristas e bons diretores, consegue fazer o que Bob Clark e sua patota faziam na década de 80, com a memorável série Porky's: comédia rasgada, sem rabo preso, incorreta e nem aí para a classificação indicativa.

Como bom saudosista, prefiro Pee Wee e sua turma. Porém, Superbad foi uma grata surpresa. O roteiro é uma parceria entre Seth Rogens (também ator de várias comédias da patota de Apatow) e Evan Goldberg. Autobiográfico, conta as peripécias dos dois atrás de bebidas alcoólicas para uma festa de formandos do ensino médio. Apesar de não ter nenhuma cena de coito, o filme é recheado de insinuações de sexo, piadas escatológicas e metáforas absurdas para vaginas, pênis, ânus e o leque de opções que os mesmos oferecem.

No elenco, ao lado de Rogens, Bill Hader forma uma dupla de policiais camaradas engraçadíssima. Ao lado de Christopher Mintz-Plasse, que interpreta Fogell, ou melhor "McLovin", roubam a cena com as seqüências mais divertidas do filme.

Os extras são uma atração à parte, com uma sensacional série chamada Cop Car Confessions, onde os policiais improvisam textos absurdos com algumas estrelas do cinema - incluindo o próprio Apatow. Hilário!

sábado, março 01, 2008

#19 - Lars and the real girl, de Craig Gillespie


Ao se deparar com a sinopse de Lars and the real girl, é impossível não achar que trata-se de uma comédia de humor negro, bizarra, aos moldes de outras tantas que beiram a escatologia. E não há nada de errado nisso. Um sujeito tímido, pacato e solitário, Lars, encomenda uma boneca para fins sexuais, Bianca, e passa a tratá-la como se fosse uma mulher de verdade. Logo, seguindo orientações médicas, sua família e amigos também precisam entrar na ilusão de que Bianca é de carne e osso. De fato, ela é uma boneca verdadeira, à venda pela internet, feita com materiais sintéticos que imita um ser humano com perfeição. É articulada e tem, inclusive, órgãos genitais.

Apesar de estar rotulado como uma comédia, o filme é extremamente sensível e delicado. O assunto da ilusão patológica é tratado com a dose certa de humor, mas sempre ressaltando o temor do ser humano em amar e não ser correspondido. O roteiro é perfeito, redondo, sem precisar de reviravoltas mirabolantes ou seqüências arrebatadoras - plausíveis e possíveis em uma história do gênero. A direção de Craig Gillespie é segura e impressiona, visto que esta é sua estréia em longas.

O elenco é todo sensacional. Da genialidade e classe de Patricia Clarkson, que interpreta uma médica, até o excelente trabalho de caracterização de Ryan Gosling, no papel de um convincente e nada estereotipado Lars. Para que seu trabalho fosse o mais realista possível, durante as gravações do filme, Bianca, a boneca "metade brasileira, metade dinamarquesa", era tratada como um verdadeira atriz. Tinha seu próprio camarim e só dava as caras para fazer suas cenas.

Uma belíssima realização, que aborda um tema complexo de forma bastante poética. Exatamente como em Dom Quixote, obra máxima de Cervantes citada em um determinado trecho do filme.

Esse sim merecia um prêmio.