sábado, fevereiro 09, 2008

#12 - O processo (Le procès), de Orson Welles


Um homem acorda cercado por oficiais de um tribunal misterioso, que lhe dizem que ele está detido e deve se apresentar a um tribunal para prestar depoimento e ser julgado. Os motivos, os crimes e os acusadores são completamente desconhecidos.

Esta é a atmosfera do célebre romance de Franz Kafka, "O processo", um dos livros que mais me marcou. Angustiante, claustrofóbica e absurda, a leitura flui de maneira arrebatadora. A narrativa é fechada, linear, direta - bem no estilo kafkiano. O leitor é compelido a aceitar o absurdo na primeira linha escrita.

Só mesmo um diretor com talento e ousadia teria a idéia de adaptar a obra para os cinemas. Um fracasso, nesse caso, não seria surpresa alguma. Orson Welles, com seu currículo já recheado de grande êxitos, conseguiu uma adaptação com a aura quase fiel aos escritos de Kafka.

Para contar a história de Joseph K., o realizador escalou Anthony Perkins, com sua cara de bom moço perturbado. Perfeito. A fotografia em preto e branco abusa de sombras e tons de cinza, conferindo a obscuridade típica dos romances kafkianos. Perfeita. Os cenários e locações são claustrofóbicos, grandiosos e imponentes, como todo sistema beligerante que ostenta sua materialidade. Perfeitos. A trilha sonora mistura jazz com sons mais graves, denotando paranóia. Perfeita.

Os poréns são as mudanças que Welles fez na história ao transpor o romance para o roteiro. O desfecho, clássico na literatura, foi trocado por um final um pouco incomum. Alguns personagens não são tão fiéis aos originais e há uma abertura e um desfecho desnecessários para que o espectador se familiarize com o universo kafkiano.

Porém, não tem problema. O filme de Welles consegue com maestria amontoar todos os predicados do livro de Kafka.

4 comentários:

Debora Hegedus disse...

Assisti este filme há alguns anos e me lembro de sentir algo parecido com falta de ar misturado à um mal-estar. Filmes que ultrapassam os limites da tela e tocam a gente fisicamente é raro. Esse é um do exemplo de adaptação perfeita. Bacci.

Kamila disse...

Do Orson Welles, só assisti mesmo ao filme "Cidadão Kane", que não acho essas coisas todas - apesar de ser mesmo inovador no que diz respeito à linguagem cinematográfica.

Fica a dica aqui mais como uma curiosidade.

Vulgo Dudu disse...

Debora, eu não acho a adaptação perfeita. Mas o filme não precisa ser adaptado perfeitamente, né? A essência da obra está lá, intacta.

Kamila, eu recomendo que você leia o livro. É uma experiência incrível!

Bjs!

B. disse...

adorei o filme! do livro, só li trechos. acho incrível a atmosfera expressionista. welles é foda.

e nessa época, o anthony perkins ainda não causava medo...

beijos