quarta-feira, dezembro 31, 2008

Balanço!

Poxa, que ano! Quanta novidade, quantos filmes, quanta gente bonita!

Amanhã, este blog, que agora tem domínio registrado, em demonstração de extrema finesse, completa dois anos de existência. E, com afinco, tratei de registrar tudo que eu vi no ano. Era para responder a pergunta: cinéfilo, eu? A conclusão: só se for pela qualidade, porque em quantidade... Foram 103 filmes, a maioria bons. Algumas obras-primas, outras pérolas, e ainda cerca de uma dúzia de produções que entraram no meu top 20.

De verdade, 2008 foi um ano melhor que 2007. Minha filhota nasceu em uma sequência verdadeiramente cinematográfica. Firmei uma parceria bem bacana para colaborar com o site da Revista M... Comecei com o pé direito o Silêncio, um podcast sobre música, ao lado de um dos meus melhores amigos, o Ric. É, o Flamengo perdeu para o América do México aquele jogo inexplicável na Libertadores. Mas é como dizem: you win some, you lose some.

Que venha 2009! A meta é ver mais filmes incríveis, terminar a série Berlin Alexanderplatz, escrever resenhas cada vez melhores e, obviamente, ultrapassar o #103.

Um muito obrigado aos meus bonitos e donairosos leitores, que acompanham e movimentam este espaço. A todos vocês, um 2009 fodão, melhor que 2008 e pior que 2010!

segunda-feira, dezembro 29, 2008

#103 - Eu, meu irmão e nossa namorada (Dan in real life), de Peter Hedges


Minha queridíssima amiga Jovem, vulga Giovana, que completa algumas primaveras exatamente hoje, me disse assim:

"Dudu, você e Elaine precisam ver esse filme, 'Eu, meu irmão e nossa namorada'. No final tem uma cena que é para vocês."

Dito e feito, lá fomos nós assistir ao filme, que tem no elenco dois bons atores, Steve Carell e Juliete Binoche. Mais uma comédia romântica com argumento não muito fresquinho e título em português patético - que inclusive entrega a história nos primeiros 10 minutos de projeção. Seria muito mais interessante descobrirmos que um sujeito conhece a namorada de seu irmão em um encontro fugaz por nós mesmos. Pois então, é esse o argumento.

De largada, bom presságio: trilha sonora do geniozinho norueguês Sondre Lerche, um cara que realmente sabe fazer música pop sem soar piegas, coisa rara. O filme vai bem, com situações engraçadas e divertidas, sem exageros. A dupla de protagonistas está ótima, em plena sintonia. O roteiro flui. E eu pensando 'o que será que a Juventude viu nesse final que está por vir?'. Minha mulher pensando a mesma coisa.

Aí vem o desfecho, um pouco preguiçoso e inevitavelmente previsível, ainda que não derrube a boa impressão. Porém, nada a ver comigo, nada a ver com a minha mulher. Nos entreolhamos pensando "eu hein". Até que, durante os créditos finais, na cena mais previsível e menos criativa possível, um casamento, uma banda começa a tocar alguns acordes... Entendemos: Sondre Lerche, acompanhado de sua espetacular banda, The Faces Down, canta "Modern Nature"!

Agora entendemos!

Jovem, que você seja tão feliz, mas tão feliz, que doa a sua barriga de tanto rir de alegria! Você é uma pessoa especial em nossas vidas. Um beijo enorme. E valeu pela dica!

domingo, dezembro 28, 2008

#102 - Berlin Alexanderplatz (Parte 6 - O amor tem seu preço), de Rainer Werner Fassbinder


Pronto, agora sim a trama começou a ficar tensa! O sexto episódio da saga de Biberkopf é o melhor até agora, com um roteiro recheado de reviravoltas. Não tem jeito: para falar um pouco sobre a série, são necessárias pequenas observações que podem funcionar como spoilers.

Ao se aproximar de Pums e seus capangas, que trabalham com frutas e outras coisas mais, Franz se envolve em uma cilada. Transtornado, acaba se dando muito, mas muito mal mesmo.

Comparando mal e porcamente, o fim do episódio 6 de Berlin Alexandreplatz é como o desfecho do episódio 5 da série Guerra nas Estrelas, todo mundo se ferra: Han Solo é congelado vivo, Luke Skywalker descobre que Darth Vader é seu pai e anda tem a mão decepada. Franz segue pelo mesmo caminho (só não termina congelado...). Ou seja, é pessimismo puro.

O chato é que na caixa dos DVDs há um pequeno resumo do que acontece em cada capítulo, mais ou menos o que acontece com as novelas da Globo no caderno de domingo do jornal. E eu, que lia Agatha Christie de trás para frente para saber logo quem era o assassino, já tratei de ficar por dentro de toda história. Ok, como dizia uma ótima professora que eu tive na faculdade, a Cláudia Chaves: a gente deve ir ao cinema para ver como uma história é contada, e não para adivinhar o final.

Os próximos episódios prometem!

sexta-feira, dezembro 26, 2008

#101 - Café dos Maestros (Cafe de los maestros), de Miguel Kohan


Café dos Maestros, cujo título original permite uma leve cacofonia, reúne a velha-guarda do tango de Buenos Aires para uma apresentação, décadas depois, eu um belo e suntuoso teatro da cidade. Por isso mesmo, as comparações com Buena Vista Social Club serão inevitáveis. Pode anotar: vai ter muita gente traçando paralelos. No lugar de música cubana, o tango. Na cadeira de diretor, levanta Wim Wenders e senta o novato Miguel Kohan. No papel de Ry Cooder, o também premiado músico Gustavo Santaolalla, que tem no currículo duas estatuetas da Academia por trabalhos em Babel e O Segredo de Brokeback Mountain.

Porém, diferentemente da película rodada em Cuba, aqui não se vai fundo nas histórias de vida de músicos, cantores e compositores. O foco é a música! Nem mesmo a dança, que no tango tem papel de destaque, é tão explorada. Apesar dos números musicais um pouco cansativos, a essência e o vigor do ritmo platino ficam evidentes, graças aos bons personagens e suas interpretações apaixonadas. Agrada em cheio ao público que gosta de música bem executada.

O filme tem capricho, com co-produção de Walter Salles e sua VideoFilmes. Portanto, era de se esperar um documentário muito bem montado

Quem não tiver tempo de assisti-lo nos cinemas, porque produções assim infelizmente têm passagem meteórica no circuito, pode esperar até que o DVD, a exemplo de Buena Vista Social Club, seja vendido em lojas de departamento naquelas promoções de R$ 9,99.

terça-feira, dezembro 23, 2008

#100 - Marley e eu (Marley and me),de David Frankel


Hoje é dia de resenha também no site da M.

O centésimo filme deste ano é também um dos mais aguardados - não por mim - da temporada de blockbusters de Natal: Marley e eu. Pois bem, muita gente que leu a história do labrador desobediente me confessou ter caído em pranto já nas primeiras páginas.

Na sessão para a imprensa não foi diferente. Uma choradeira só! Choraram as meninas, os marmanjos e até o operador do projetor. O argumento por si só já é de certa forma melancólico. Não bastasse isso, o diretor abusa de elementos que aumentam a dramaticidade. Ou seja, uma série de clichês intermináveis.

Fato é que o labrador é fofinho, a Jenifer Aniston é fofinha e o resto do elenco é uma fofura também. Por isso, a catarse funciona. A família estadunidense precisa de um cachorro para ter seu núcleo completo. E precisa também de lições de vida, buscando as mesmas onde quer que seja, até mesmo em um canil.

Para ler a resenha que eu escrevi na sessão Críticos de M., no site da revista, clique aqui!

segunda-feira, dezembro 22, 2008

#99 - Berlin Alexanderplatz (Parte 5 - Um ceifador com a violência de nosso Senhor), de Rainer Werner Fassbinder


O quinto episódio da saga filmada por Fassbinder é até agora o mais sórdido. Mais uma vez confirmando a fama de "pegador", Franz conhece Reinhold, um misterioso sujeito que lhe oferece uma parceria inusitada envolvendo suas amantes. Nosso protagonista começa a se aproximar de Pums, chefe de uma gangue local.

A narrativa segue em tom crescente, com um texto bastante afiado. Cada vez mais Franz vai se envolvendo com o submundo de Berlim. No próximo episódio, os laços com Pums devem se etreitar. E Franz, que de bonzinho não tem muita coisa, pode voltar a trabalhar como cafetão.

O que realmente impressiona é o cuidado com a luz. Raras vezes vi um fotograma tão bem estudado e com alta qualidade, em grande parte pelo belíssimo trabalho de restauração.

Que venham os próximos capítulos!

domingo, dezembro 21, 2008

Silêncio! #1


Ok, esse espaço é sobre cinema. Mas pedidos de silêncio são comuns tanto nas salas de cinema quanto nas vizinhanças que têm uma garagem servindo de estúdio. Quem acompanha o Cinéfilo, eu? já deve ter notado que uma das minhas grandes paixões além do cinema é a música. Tanto é que a seção "Luz, câmera... canção!" tenta aproximar os dois temas.

Pois bem: meu camarada fraternal Ric-o, do Pensa Rics, pensa!, me chamou para gravar conversas sobre temas musicais variados. Ou seja, agora eu tenho um podcast. Nós dois tocamos juntos por muito tempo em uma banda de roque, a Diabo Verde (isso rende hiostória...). Tinha gente, principalmente os vizinhos da garagem onde a gente ensaiava (nós éramos verdadeiramente uma banda de garagem), que vivia pedindo para que a gente fizesse silêncio. Logo, batizamos o programa de Silêncio!

O primeiro episódio é um piloto e fala sobre o movimento punk. Ramones, Sex Pistols, The Clash, Ratos de Porão, Garotos Podres, Black Flag, NOFX e um monte de outras bandas que, de certa forma, influenciaram o nosso comportamento. Como se trata da estréia, seria bacana se vocês deixassem impressões, positivas ou negativas, para que possamos melhorar.

Sempre que tiver um programa novo, eu aviso por aqui!

O email do podcast é silenciocast@gmail.com. Para ouvir o Silêncio!, visite http://silenciocast.podomatic.com/. Para se inscrever no feed e receber os episódios sem precisar visitar o site (com o iTunes, por exemplo), use o endereço http://silenciocast.podomatic.com/rss2.xml.

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Luz, câmera... canção! - Ida Maria

Com esse nome aí, Ida Maria mais parece uma daquelas cantoras da noite que misturam MPB a ritmos dos mais variados. Mas não é nada disso. Trata-se de uma norueguesa meio pop, meio roquenrol, com um timbre de voz encantador!

A moça tem feito certo sucesso nas paradas da Inglaterra com a espetacular "Stella", uma canção de amor divina, literalmente. A letra dá um belíssimo argumento para a tela grande, espia: deus se apaixona por uma prostituta feiosa de 43 anos e oferece a ela o mundo em troca de uma noite. O senhor fica bobão, todo distraído, fazendo anjinhos na neve...

Um mimo!

Tem gente que acha aburso: onde já se viu deus pegando uma puta feiosa? Se fosse sério, ele pegava uma Galisteu, uma ex-BBB, uma mulher-fruta... E mais: se deus é o pai de todos os seres vivos, estaria investindo em uma relação incestuosa.

Bom, ainda assim é uma música bonitinha e um clipe fofinho. Vale o confere!

sábado, dezembro 13, 2008

#98 - Queime depois de ler (Burn after reading), de Joel e Ethan Coen


Agora que os irmãos Coen foram premiados com a estatueta da Academia, em demonstração de honra ao mérito, seus filmes vão ficar badalados. Prova disso foi que precisei me deslocar a um multiplex para assistir a Queime depois de ler - coisa que eu não fazia há muito tempo. Já estava desacostumado com poltronas confortáveis, som de última geração, tela gigante e projetor... Opa! Projetor arranhado? Ué? Não é um multiplex? Bom, melhor ignorar isso. Assim como ignorei também o barulho de pipocas gigantes e os celulares tocando e , pior que isso, sendo atendidos.

Antes de ir direto ao filme, queria fazer um adendo sobre os vários trailers. Eu não preciso mais ver Austrália e nem O curioso caso de Benjamim Button, porque em cerca de dois minutos já trataram de me contar quase toda a história.

Queime depois de ler parece que é um filme de férias dos Coen, descompromissado e despretensioso. Depois de filmar Onde os fracos não têm vez, uma obra-prima violenta e intensa, a dupla se permitiu ser mais sarcástica e menos perfeccionista. Ainda assim, o filme tem lá seu charme. O roteiro, nada demais quando comparado ao que já fizeram os realizadores, conta a história de um CD com dados sigilosos de um ex-agente da CIA que vai parar nas mãos de dois funcionários de uma academia de ginástica. Eles resolvem chantagear o sujeito e, a partir daí, sucede-se uma comédia de erros.

O forte do filme, que o difere das demais comédias em cartaz, está nos diálogos. Prato cheio para os talentosos Coen, que sempre tiveram excelência nesse ofício. O que parece soar banal, na verdade, é parte de um enredo engenhoso. O elenco ajuda bastante: Frances McDormand, George Clooney, John Malkovich (excelente como o federal neurastênico) e Brad Pitt (igualmente excelente como um personal trainer efeminado e boboca).

Vale a pena ficar durante os créditos finais para ouvir uma versão ao vivo do clássico "CIA Man", da banda pacifista The Fugs. Um achado!

#97 - Demoninho de olhos pretos, de Haroldo Marinho Barbosa


Ainda que a maioria das tentativas anteriores de adaptar textos de Machado de Assis para o cinema tenham malogrado, há corajosos realizadores que tentam o feito. Movidos, talvez, pela vontade de enaltecer a obra do escritor. Porém, no fundo, eles sabiam do risco que corriam.

Eu acho que o diretor Haroldo Marinho Barbosa tinha noção disso quando juntou Nelson Freitas, aquele humorista do Zorra Total, um punhado de atores desconhecidos e a narração de Otávio Augusto para filmar quatro contos do autor fluminense. As chances de dar certo, convenhamos, eram muito pequenas. Estão todos um pouco perdidos, sem ritmo. Como a interpretação é um jogo e depende de todo o elenco, o resultado é muito fraco. As atuações não rendem o suficiente para prender o espectador, apesar do humor ferino e moderno de Machado de Assis.

No roteiro, quatro leitores em quatro épocas diferentes deixam o texto do escritor interferir em suas vidas. Mas faltou capricho na produção. Parece que tudo foi feito depressa demais, como se a areia da ampulheta estivesse se esvaindo rapidamente. As histórias paralelas são fracas e desinteressantes, em um forte contraste com o conteúdo das narrativas escolhidas.

É, Machadão... Ainda não foi dessa vez!

PS: escrevi também uma resenha sobre o mesmo filme no site da revista M... Foi a minha estréia como crítico de M... Para a versão fecal, de abordagem diferente, basta clicar no link do post abaixo!

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Crítico de M..., eu?

Queridos, poucos e sensacionais leitores, tenho uma novidade para todos vocês. Preciso confessar: a partir de hoje, eu sou um crítico de M... Um crítico de merda, sobre a merda, para a merda! Vou cocô-laborar com o sensacional sítio dessa revista de nome pe(cu)liar escrevendo sobre as principais estréias cinematográficas que podem desagradar as platéias de olfato mais sensível. Quase um trabalho de utilidade pública.

As resenhas de lá serão diferentes das que publicarei aqui, pois preciso seguir uma linha editorial específica. Olha que beleza: leitura dupla para todos vocês que me acompanham! Sempre que um filme que for resenhado por aqui tiver a versão fecal, haverá um link indicativo.

Convido a todos para uma visita ao site da M... Vale a pena explorá-lo. Humor inteligente, refinadamente escatológico!

Hoje mesmo já tem resenha por lá! Tá esperando o quê? Clica aqui!

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Luz, câmera...canção! - Suicidal Tendencies

Quando eu era moleque, queria ser um integrante do Suicidal Tendencies - o que significava vestir camisa xadrez, usar bandana e ter uma calça jeans de estimação. A primeira música dessa banda californiana de hardcore que eu escutei foi "Institutionalized", do primeiro e homônimo álbum. Na verdade, foi o videoclipe que chamou a minha atenção.

Mike Muir, vocalista e líder do Suicidal, quer uma lata de Pepsi. Porém, seus pais começam a duvidar de sua sanidade mental e o acusam de consumir drogas. Mas tudo o que ele quer é uma Pepsi, só uma Pepsi... Notem a cara dos atores que interpretam os progenitores do pobre rapaz de língua presa, em interpretações geniais. O desfecho da história também é sensacional! A letra é muito boa. Porém, para acompanhá-la de ouvido, só se você tiver uma pontuação brilhante no TOEFL. Sugiro catar no Google. Vale a pena!

quinta-feira, dezembro 04, 2008

#96 - Terra vermelha (La terra degli uomini rossi - Birdwatchers), de Marco Bechis


Foi preciso um diretor chileno para fazer um registro cinematográfico contundente da questão indígena no Brasil. Mais precisamente no Mato Grosso do Sul, terra onde índios guaranis-caiowás tentam manter-se em pé diante do massacre constante às suas crenças, seus costumes e sua cultura. Em tom naturalista, Marco Bechis faz um excelente cinema político, como há muito tempo não tinha o prazer de assistir.

O filme parte de uma premissa verídica e assustadora: em pouco mais de 20 anos, 500 índios cometeram suicídio na região. A história de Terra vermelha tem como ponto de partida a morte de duas jovens. O evento perturba a ordem da tribo, que se vê obrigada a deixar uma pequena e isolada reserva demarcada e arranjada pelo governo em busca de suas raízes, em busca de uma cura para o que acreditam ser uma influência maligna. Ao levantar acampamento e reivindicar as terras que pertencem a um fazendeiro, uma série de conflitos tem início.

A primeira cena de Terra vermelha incomoda bastante. Turistas em um barco observam de binóculos os índios trajando vestimentas típicas e empunhando armas. Minutos depois, longe dos olhares curiosos, eles vestem calças jeans, tênis e camisetas. Sobem na caçamba de um caminhão e recebem o pagamento por terem feito uma espécie de figuração. Essa é apenas uma das seqüências que denunciam a situação do índio no Mato Grosso do Sul. Todas elas tratadas com a dose certa, sem exageros ou maneirismos.

O trabalho de direção de Bechis é clamoroso. Ao preparar seus protagonistas indígenas, demonstrou a eles a importância do silêncio e da expressão corporal no cinema. Para isso, foram feitas sessões de filmes como Era uma vez no oeste, de Sergio Leone, e Os pássaros, de Alfred Hitchcock. O resultado é, de fato, impecável! Os 15 minutos finais são de beleza, simplicidade e tensão - tudo em harmonia - raramente vistas no cinema contemporâneo.

Parece que Marco Bechis é bom mesmo! Ano que vem estréia por aqui o elogiadíssimo Garage Olimpo, produção do diretor chileno que tem como tema os porões da ditadura na Argentina.

sexta-feira, novembro 28, 2008

#95 - Rising son: the legend of skateboarder Christian Hosoi, de Cesario Montaño


Quando tinha 10 anos, ganhei de Natal dos meus pais um skate. Tava na moda. Eram quase encerrados os anos 80 e toda a molecada da rua tinha um. E não bastava uma tábua com rodinhas, era preciso ter um ídolo também. Ou o loiro topetudo e magricela Tony Hawk, que fazia manobras acrobáticas de tirar o fôlego, ou o japonês doido de cabelo comprido Christian Hosoi, que literalmente voava e fazia poses em pleno ar. Era uma competição quase maniqueísta, o bem contra o mal. Os dois disputavam praticamente todas as finais verticais. Porém, com o tempo, Hosoi foi sumindo. O documentário Rising son: the legend of skateboarder Christian Hosoi trata de elucidar o porquê.

Assim como em Dogtown and Z-Boys, documentário que tem narração de Sean Penn, Dennis Hopper é quem narra a carreira meteórica do skatista que mais parecia um rock star, tamanho o carisma e a presença. Hosoi não apenas desenvolveu uma linha mais plástica e vigorosa de andar de skate, mas também criou um estilo de vida. O problema foi justamente não saber equilibrar a fama com a alta performance que um esportista precisa manter. Ao contrário de Tony Hawk, que teve uma carreira bem mais sensata, Hosoi deu uma pirada e acabou viciado em crystal method, uma anfetamina que o levou, inclusive, para a cadeia.

O filme tem belíssimas imagens, já que o skate proporciona movimentos de extrema complexidade. O material de pesquisa e os personagens que prestam depoimentos foram escolhidos a dedo - e não têm medo de falar a verdade. Por isso, nada fica debaixo do tapete. Na sequência mais pesada, o pai de Hosoi admite que se drogava com o próprio filho.

O problema é o desfecho politicamente correto demais. Aliás, religiosamente correto demais. Hosoi ficou preso por alguns anos e foi solto recentemente, em 2004. Atrás das grandes, começou a ler a bíblia e se converteu. Atualmente, é pastor e viaja o mundo contando sua experiência - um roteiro um tanto previsível, mas perfeitamente compreensível para quem foi do topo do half ao fundo do poço. O problema é que o diretor Cesario Montaño, em sua estréia, dá muita ênfase ao papel da religião na vida de Hosoi. Os minutos finais funcionam quase como uma pregação, espécie de discurso sentimentalóide. É chato de ver.

Ainda assim, é uma vida que vale a biografia! Até hoje, Hosoi é referência de ousadia e irreverência para muitos skatistas.

quinta-feira, novembro 27, 2008

#94 - Berlin Alexanderplatz (Parte 4 - Um punhado de gente nas profundezas do silêncio), de Rainer Werner Fassbinder


No quarto episódio da série filmada mais longa da história, Franz Biberkopf, ainda sem barba e nem um pouco parecido com De Niro ou Val Kilmer, se entrega à bebida. O protagonista passa a morar em uma espécie de cortiço, onde funciona um depósito de bebidas no andar térreo.

De tanto beber cerveja, Franz acaba adoecendo. Ele conhece um misterioso homem que foi enfermeiro na guerra e que promete o curar. De tão bêbado, ele chega até a recusar uma mulher, logo ele, e é humilhado aos berros de "broxa".

O texto começa a ficar pesado nesta quarta parte da história. Por consegüinte, começa a ficar melhor! A vida de todos os moradores do local é esmiuçada. Os efeitos da miséria que assolava grande parte da Alemanha no período entreguerras fica cada vez mais evidente. É também cada vez mais flagrante a idéia de que Franz não vai aguentar por muito tempo a idéia de levar uma vida honesta.

E olha que não estou nem na metade...

quarta-feira, novembro 26, 2008

#93 - Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen


Woody Allen é esperto. Trocou a bruma acinzentada de Londres pelas cores vivas e berrantes de Barcelona. Ô cidadezinha especial essa capital da resistência catalã! É preciso muito autocontrole e um aparato racional altamente desenvolvido para não morrer de amor em Barcelona. Eu digo por experiência própria.

Antes mesmo da estréia, muito já se falava da mais nova produção de Allen. Dois pitéis, Penélope Cruz (que não faz parte do título, mas ainda assim rouba os holofotes) e Scarlett Johansson, trocando carícias - diziam os tablóides sensacionalistas. Pois Vicky Cristina Barcelona oferece muto mais que isso. Ok, longe de ser das melhores produções do diretor estadunidense, mas é uma encantadora demonstração de como um choque de cultura pode afetar para sempre a vida de todos que pisam o solo catalão e não têm, como disse no parágrafo ali de cima, autocontrole e aparato racional altamente desenvolvido.

O roteiro conta a história de duas amigas que viajam para passar o verão em Barcelona. Vicky (Rebecca Hall, competente, interpretando uma espécie de Allen de saias) é uma estudante de mestrado prestes a se casar, correta e avessa ao inesperado. Cristina (Scarlett Johansson), é mais liberal, do tipo que não planeja o futuro. As duas conhecem um pintor catalão (Javier Barden), que causa reviravoltas em ambas as vidas.

Vicky Cristina Barcelona é despretensioso no tema, mas não deixa de lado o requinte típico dos filmes de Allen. Belas paisagens, obras de arte, restaurantes chiques, casas suntuosas e música tipicamente espanhola lembram a toda hora como é pasteurizada a cultura estadunidense, de onde vêm as protagonistas. Assim fica fácil para Javier Barden consquistar qualquer turista incauta... Ao mesmo tempo, estereótipos são postos à prova o tempo inteiro pela narração em off - recurso que caiu muito bem ao filme.

Ao final da projeção, Vicky Cristina Barcelona despertou em mim uma série de lembranças bacanas. A principal delas foi: como é difícil não se apaixonar em Barcelona!

segunda-feira, novembro 24, 2008

#92 - Waiting for Godot, de Michael Lindsay-Hogg


Algumas manifestações artísticas são capazes de transformar vidas. Já dizia Heidegger que uma obra de arte instaura um mundo. Foi o que a peça "Esperando Godot", de Samuel Beckett, fez em mim há alguns anos. Leitura arrebatadora, inesperada, difusa e instigante. A mesma experiência tive durante encenações e leituras dramatizadas. E, agora, tudo de novo ao ver um dos meus textos favoritos capturado em película.

"Esperando Godot", para muitos, é a expressão máxima de uma corrente que ficou conhecida como Teatro do Absurdo. Partindo de situações aparentemente surreais, os personagens são forçados a fazer uma reflexão quase existencialista daquilo que os cerca. Como nos textos platônicos, os diálogos parecem acabar sempre em aporia, revelando uma inércia do homem perante espaço e tempo. Na peça de Beckett, dois sujeitos, Vladimir e Estragon, esperam Godot, que nunca chega.

A adaptação é religiosamente irlandesa, proveniente da terra do dramaturgo, o que dá autenticidade ao texto. Atores com bagagem beckettiana no teatro se mostram muito à vontade. Porém, ao contrário do que muita gente pode esperar, é quase um teatro filmado. Há, sim, movimentos de câmera que enquadram e direcionam o olhar do espectador, recurso não disponível num palco italiano. O único problema é a língua. Não há legendas disponíveis, nem em inglês. Entender o que os personagens estão falando, vez em quando, é muito difícil. Porém, para quem conhece o texto, isso não vira uma barreira.

O filme, dirigido por Michael Lindsay-Hogg, faz parte de uma coletânea lançada em 2001, chamada Beckett on film. As peças do dramaturgo foram filmadas por diretores e atores consagrados e reunidas em uma bela caixa - que já virou objeto de desejo. Para citar os mais conhecidos, David Mamet dirige a esquete "Catastrophe", aqui.

Até hoje, algumas montagens são feitas em palcos brasileiros. Poucas, infelizmente. Cacilda Becker fez história na pele de Estragon, ao lado do marido Walmor Chagas. Morreu durante uma apresentação, em 1969.

Ler, presenciar ou assistir à "Esperando Godot", não importa o suporte usado, é uma experiência inspiradora. Escrever sobre, também!

sábado, novembro 22, 2008

#91 - A bola da vez (Sixty six), de Paul Weiland


Pela capa, pelos atores, pelo roteiro e pela sinopse, A bola da vez parece ser uma boa pedida para quem procura uma comédia leve, com humor britânico refinado. Porém, muita gente vai se surpreender quando levar o filme para casa. E vai querer amaldiçoar o danado que não catalogou o filme como drama. Dramalhão, para ser mais correto.

Espia: um jovem judeu desajustado, maltratado no colégio e ofuscado pelo irmão mais velho está prestes a virar homem, ou seja, a dias de comemorar seu Bar Mitzvah. Porém, para sua infelicidade, a data coincide com a final da Copa do Mundo de 1966, sediada pela Inglaterra - que viria a ser, inclusive, a campeã. Não bastasse a impopularidade escolar, sua festa ainda corre o risco de ser um fiasco, esvaziada pelo certame. Ele logo passa a estudar sobre futebol e a torcer contra a seleção inglesa.

Há um tempo defendo a idéia de uma nova prateleira em todas as videolocadoras sinalizando os "dramas cômicos". Nesses casos, o foco deixaria de ser o riso fácil. A bola da vez é assim: quase não tem graça, no sentido lúdico do predicado - o que, graças ao bom e interessante argumento, não é ponto negativo. Boas interpretações ajudam a manter o ritmo do filme até os minutos finais, quando uma "mensagem" acaba indispensável para agradar os espectadores perplexos com o tanto de tragédia que o menino sofre. Apesar de um desfecho auto-explicativo, com direito a narração, a história é bem contada. Mas é drama!

Guardadas as devidas proporções, é como se fosse O ano em que meus pais saíram de férias dos britânicos: o olhar forçosamente amadurecido de uma criança sobre a vida, tendo como cenário um fato histórico.

quinta-feira, novembro 20, 2008

#90 - Loucos por nada (Eagle vs. shark), de Taika Cohen


Vem da Nova Zelândia, terra dos Maori, guerreiros tatuados, e de Peter Jackson, um filme que ganhou notoriedade nos cinemas estadunidenses depois que foi exibido no Sundance Festival do ano passado. É independente, é estranho, mas é fofo.

Seguindo a linha das comédias românticas sobre desajustados sociais, até que Loucos por nada não faz feio. Fruto da oficina de roteiros do festival de Redford, o filme narra a relação nada normal de uma balconista de uma lanchonete fast food com um viciado em videogames. O casal se encontra em uma festa na qual é preciso ir fantasiado como seu animal preferido. Ela vai de tubarão e ele, de águia.

Está preparado o cenário para situações insólitas, diálogos surreais e personagens pouco convencionais. Os mesmos ingredientes que fizeram de Napoleon Dynamite, por exemplo, um grande sucesso nos Estados Unidos entre o público jovem. Loucos por nada seguiu a mesma trilha, apesar da procedência neozelandesa.

O ator, diretor e roteirista Taika Cohen (é nome masculino) mostra que aproveitou bem as aulas nas oficinas de roteiro. Criou uma história bacana, com trilha sonora esperta e inserção de animações em pixilation (aquela técnica de fotografias em seqüência). Nada mal para uma comédia romântica!

Pena que a safra atual de filmes da Nova Zelândia seja tão parecida com o cinema estadunidense. Logo eles, que tem uma cultura aborígene tão interessante...

quarta-feira, novembro 19, 2008

#89 - Berlin Alexanderplatz (Parte 3 - Uma martelada na cabeça pode ferir a alma), de Rainer Werner Fassbinder


Continuando com a saga de Franz Biberkopf, o terceiro episódio mostra a luta por um emprego digno. Depois de vender um jornal nazista, o ex-detento passa a comercializar cadarços de sapatos. Porém, acaba se envolvendo com uma de suas clientes. O que acaba em confusão.

Aliás, Franz é um garanhão, apesar de feio, neurastênico, gordo e mal ajambrado. Até agora, em apenas três episódios, já assediou e levou para a cama várias mulheres. E não tem tempo feio: puta, viúva, cunhada. Todas elas interpretadas por belas atrizes alemãs.

O cuidado com a fotografia é notável. Claro, em grande parte a beleza do fotograma se dá pela restauração digital. Porém, a luz é muito bem trabalhada. Os olhos dos personagens chegam a brilhar.

Partimos para o episódio 4, em breve...

terça-feira, novembro 18, 2008

#88 - O Homem-meteoro (The Meteor Man), de Robert Townsend


Não podia esperar muito de um DVD que me custou apenas R$ 1,50 - exatamente isso, no supermecado Extra. Ou seja, pelo preço de uma garrafa das cervejas belgas do post aí de baixo, daria pra comprar algumas cópias de O Homem-meteoro. Aí podem querer saber: mas por que cargas d'água você comprou esse filme? E a resposta é simples: porque eu achei que ia ser muito ruim mesmo, no estilo trash. Mas não foi. Quer dizer, foi ruim, entende?

Obviamente, trata-se de uma sátira aos filmes de super-heróis. Dada a minha implicância com esses seres arquetípicos, esperava encontrar certo alento no argumento do filme, que segue a fórmula de todas as produções do gênero. A saber: um sujeito normal leva uma vida pacata, mas de repente sofre uma experiência traumática que lhe rende poderes. Precisa, então, de um mentor - alguém que vai guiá-lo e mostrá-lo como usá-los para vencer um trauma, que concentra seu apogeu na figura de um antagonista quase tão sobrenatural quanto ele próprio. O vilão sempre apela para o lado humano do super-herói, colocando a vida de pessoas comuns em risco. E por aí vai, né...

Em O Homem-meteoro a história não é diferente: um professor covardão que vive em um bairro dominado pelo tráfico é atingido por um meteoro. Ganha superpoderes e passa a lutar contra o traficante mais temido da cidade. E aí, o que poderia se tornar um festival de deboche acaba seguindo a linha "lição de vida". Nada de politicamente incorreto acontece. O filme tem falhas grotescas de continuidade e o roteiro tem mais buraco que a Rio-Santos, pois foi reescrito centenas e centenas de vezes.

E no fim, Bill Cosby salva o dia... Não teve graça nenhuma.

Quero meu dinheiro de volta!

domingo, novembro 16, 2008

#87 - Com a bola toda (Dodgeball), de Rawson Marshall Thurber


Cervejas belgas, quitutes gordurosos e uma boa comédia pastiche têm o poder de salvar uma noite daquelas sem opções. Pela enésima vez, o filme escolhido para acompanhar garrafas de Leffe e porções de salaminho e amendoim foi Com a bola toda.

Ben Stiller e Vince Vaughn, dois dos melhores atores desta nova safra do gênero, estão em perfeita sintonia nessa história que beira o absurdo. Ambos são donos de academias de ginástica rivais, que acabam se enfrentando em um campeonato de queimado - aquele esporte (?) que muita gente praticou nas aulas de Educação Física, no primário. O prêmio, US$ 50 mil, poderá salvar o personagem de Vaughn de perder sua modesta academia para o ganancioso empresário interpretado por Stiller.

O mais bacana, que eu nunca havia visto, é o final original, que queriam os atores e o diretor, mas que acabou sendo cortado a mando dos executivos do estúdio. Nele, a equipe do bem perde o jogo. E pronto, sem mais delongas. Sensacional!

Eu ri tudo que tinha rido na primeira vez que assisti ao filme, de novo!

sexta-feira, novembro 14, 2008

#86 - Fearless Freaks, de Bradley Beesley


Os Flaming Lips elevam o conceito de música a impressionantes patamares sensoriais. A primeira vez que eu escutei a banda tocando "She don't use jelly", talvez o grande hit, fiquei completamente hipnotizado com os timbres dissonantes e a voz inconfundível de Wayne Coyne. Já era fã. Pouco tempo depois, pude vê-los na TV, durante um show. E aí a coisa ficou mais séria. Um show dos Flaming Lips não respeita o conceito universal do que deve ser uma apresentação musical. É lindo!


O documentário Fearless Freaks, dirigido por um grande amigo de Wayne, Bradley Beesley, é um dos melhores registros da trajetória de uma banda que eu já vi. Desde o início das atividades do grupo, no começo da década de 80, até os dias atuais, está tudo documentado: os bons e os maus momentos. Inclusive, os péssimos momentos com as drogas, que quase levaram a banda à extinção. Em uma das cenas mais chocantes, Steven Drozd, baterista e multi instrumentista, se deixa filmar consumindo heroína.

O título do filme faz referência a um time de futebol americano de quintal que Wayne, seus irmãos e seus vizinhos montaram. Jogavam para valer, sem proteções e sem medo de contusões. O mesmo acontece com o Flaming Lips. Eles nunca tiveram medo de arriscar. A experimentação musical sempre esteve presente na sonoridade. Prova disso é que a banda acostumou-se a remar contra a maré do sucesso fácil, preferindo ousar em projetos interessantíssimos. Por exemplo, o Parking Lot Project, no qual centenas de pessoas ganhavam uma fita K7 e um minisystem cada. Depois, recebiam instruções de quando apertar o play. Dessa forma, como maestros, Wayne e seus colegas praticamente regiam uma espécie de orquestra nada convencional. Outro projeto ousado, mas apoiado pela gravadora, foi o Zaireeka: um álbum gravado em quatro CDs. Porém, para escutá-lo na totalidade, era preciso tocar todos de uma vez, pois cada um continha apenas um instrumento.

Como já disse, os shows são uma atração à parte. É uma espécie de celebração. As inserções teatrais são tantas, que levaria dezenas de parágrafos para listá-las. Durante o péssimo festival Claro Que é Rock, aqui no Rio, alguns espectadores foram sorteados para participar da apresentação do Flaming Lips diretamente do palco. Todos devidamente vestidos em trajes de bichinhos felpudos. Deu para entender?

Prato cheio para os fãs da banda. Dica quente para quem não conhece. É impossível ficar indiferente perante os Flaming Lips...

quinta-feira, novembro 13, 2008

#85 - Berlin Alexanderplatz (Parte 2 - Como viver quando não queremos morrer?), de Rainer Werner Fassbinder


Dois já foram! E uma observação que pode ser feita dessas quase três horas já assistidas é que não se trata de uma narrativa enfadonha. Fassbinder capricha na direção e proporciona algumas maldades, com texto bem afiado.

A série mostra um sujeito chamado Franz Biberkopf (Günter Lamprecht), condenado por assassinato, lutando para reconstruir sua vida após deixar a prisão. Ele tenta andar na linha, mas as tentações são muitas. Tudo se passa na na Berlim dos anos 20/30, em plena República de Weimar, no período entreguerras. A Alemanha estava enfraquecida pela Primeira Guerra Mundial e o nazismo, prestes a eclodir. Havia desemprego e recessão. Cenário desanimador.

O primeiro episódio começa com Franz sendo libertado. Neste segundo, ele já busca um emprego digno. Será que consegue?

quarta-feira, novembro 12, 2008

#84 - Gomorra, de Matteo Garrone


Yes, eles também têm crime organizado! Baseado no polêmico livro de Roberto Saviano, Gomorra trata de uma das organizações mais violentas da Itália, e por que não do mundo: a Camorra. O diretor Matteo Garrone, que já foi tenista profissional, adaptou para a tela grande cinco histórias contidas no relato chocante de como as drogas, as armas e a lavagem de dinheiro tomaram conta da periferia de Scampia, em Napoli - local que tem o maior movimento de venda de drogas do mundo.

A estética é crua e com toques de naturalismo. Atores desconhecidos, feios e sem maquiagem fazem com que as seqüências sejam bastante realistas, o que talvez seja o ponto alto do filme. Indiscutivelmente, o roteiro é parte integrante de um documento que serve como denúncia. Famílias inteiras são afetadas, direta ou indiretamente, pela Camorra. A corruptela do nome da organização com o título do filme é perfeita. Scampia se tornou uma verdadeira Gomorra. É um filme corajoso, coerente e coeso. Porém, confesso, não me atraiu tanto a atenção. Tecnicamente, nada de novo. Tematicamente, nada de tão chocante, cinematograficamente, que já não tenhamos visto. Inclusive, o diretor opta por atenuar os enquadramentos de algumas cenas de extrema brutalidade.

Muito tem se falado de Gomorra. O filme causou rebuliço em Cannes e acabou se tornando um forte candidato ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Acredito que o livro seja muito bom!

segunda-feira, novembro 10, 2008

#83 - Berlin Alexanderplatz (Parte 1 - O castigo começa), de Rainer Werner Fassbinder


O melhor presente de aniversário que um cinéfilo pode ganhar é DVD. É a mesma concepção de felicidade da criança com o brinquedo. Portanto, meu progenitor acertou em cheio ao me presentear com uma caixa contendo seis DVDs da série filmada em 16 mm mais longa da história, Berlin Alexanderplatz, contendo 13 episódios e somando algo em torno de 16 horas de projeção.

Os fotogramas originais foram restaurados com as técnicas digitais mais avançadas da indústria cinematográfica. Agora, a nossa geração vai poder conferir, sem perda de qualidade, uma das obras mais importantes do que convencionou-se chamar de Novo Cinema Alemão.

O primeiro episódio já foi. Anotei-o como número 83. Porém, agora vou esperar chegar até o último para então tecer comentário sobre a obra como um todo. O que posso adiantar é que Fassbinder não é dos meus favoritos - até por isso conheço pouco a obra dele. E sei também que a fama do cara não é das melhores: é acusado por bibliógrafos de ser anti-semita, anticomunista, arrogante e malvado com seus atores. O que, na verdade, torna Berlin Alexanderplatz mais interessante.

Voltaremos ao filme mais tarde...

segunda-feira, novembro 03, 2008

#82 - Linha de passe, de Walter Salles e Daniela Thomas


Em novembro, a rede multiplex Cinemark - aquela das dezenas de salas e poucos filmes - promove um evento de projeção de filmes nacionais. Todo o espaço é ocupado pelas mais recentes produções brasileiras a preços bem camaradas: a bagatela de R$ 2,00. Altruísmo? Formação de público? Fomento da cultura brasileira? Nada disso. Apenas estratégia fiscal. Ainda assim, boa oportunidade para ver bons filmes, já que a safra anda valorizada.

Eu precisei escolher um dos que perdi quando ainda estavam em cartaz. O eleito, sem titubear, foi Linha de passe, de Walter Salles e Daniela Thomas. Expectativa enorme, por se tratar de um dos cineastas brasileiros que, acredito, mais tem grife. O filme conta a história de quatro irmãos que vivem com a mãe, gestante, na periferia de São Paulo. A dura realidade da capital a toda hora entra em choque com suas próprias verdades. Vamos testemunhando os caminhos e escolhas enquanto eles buscam saídas.

O que se segue na tela grande é uma verdadeira aula de cinema!

Lição 1 - Roteiro
Convencionou-se considerar que um roteiro precisa ter início, meio e fim. E que um pouco antes do fim, é preciso ter um clímax. Porém, na minha opinião, os melhores são aqueles que fogem dessa tríade. Em Linha de passe, o clímax flagrante que desencadearia reações esperadas da platéia nunca acontece. Em seu lugar, há um constante conflito que flerta com a simplicidade, mas que é denso. Humano e muito denso. Não há apelo. As arestas são bem aparadas.

Lição 2 - Direção
Extrair do ator a palavra dita na hora certa, no tempo correto e com a entonação apropriada chega a ser até fácil. Difícil mesmo é conseguir que o gestual, por menor que seja, alcance reverberação tão potente, capaz de deixar tudo claro. É isso que a direção de Linha de passe faz. No cinema, menos só é mais quando a proposta é clara e coesa. E quando se consegue isso, é coisa linda de deus!

Lição 3 - Fotografia
Falar que a fotografia é bonita é quase um chavão. Porém, quando ela acerta o tom e se alinha aos dois itens acima, é digna de destaque. São Paulo no asfalto: é isso que a fotografia de Linha de passe propõe. Cinza, esburacada, gasta. Uma personagem.

Lição 4 - Edição
Contar cinco histórias, uma separada da outra, mas ainda assim unidas pelo mesmo núcleo, e não soar cansativo ou confuso é tarefa hercúlea. Palmas (podiam ser até as de ouro) para a edição do filme, que faz exatamente isso!

Atores fantásticos, trilha sonora maravilhosa, montagem impecável... Podia ficar listando aqui as qualidades do filme. Saí daquela sala multiplex, com som digital, pipocas amanteigadas e poltronas reclináveis, preenchido.

Um dos melhores filmes nacionais que eu já vi!

terça-feira, outubro 28, 2008

Luz, câmera... canção! - King Missile

King Missile é a banda do escritor John S. Hall, que é famoso por suas prosas e poesias pouco convencionais, mas muito criativas. Inicialmente, o grupo o acompanhava em saraus. Porém, suas apresentações eram tão boas que o negócio foi ficando mais sério.

Como se não bastassem as letras sensacionais, o instrumental do King Missile também é muito bom, como você vai poder conferir aí embaixo, no clipe de "Detachable penis". Me diz se o argumento não vale um filme?

Um sujeito tem o penis destacável. Um dia, ele acorda de ressaca após uma festança e percebe que o dito cujo não está no lugar. Como não consegue se lembrar o que aconteceu, sai em busca do membro. Se tem uma música na qual vale a pena prestar atenção na letra, é essa!



Eu poderia colocar aqui vários videos do King Missile. Todos são cinematográficos! Por exemplo, "Socks", na qual um homem se enfurece ao perceber que tem meias demais. Mas tem um que vale, e por isso a seção vai ser dupla. Trata-se da pequena homenagem que ele fez ao cineasta Martin Scorsese. Na letra, o que ele faria se encontrasse o cara na rua. Como o blog é sobre cinema, vem bem a calhar.

domingo, outubro 26, 2008

#81- Ascensor para o cadafalso (Ascenseur pour l'échafaud), de Louis Malle


Sempre escutava elogios rasgados ao clássico noir Ascensor para o cadafalso, obra-prima de Louis Malle - com trilha sonora classuda de Miles Davis e interpretação estonteante da musa do cinema francês, Jeanne Moreau. E, agora, faço coro aos predicados.

Malle sempre foi um cineasta para frente, que enxergava além das possibilidades. Contemporâneo de Truffaut e Godard, nunca teve seu trabalho, de fato, enquadrado na nouvelle vague, pois fugia de amarras estéticas que pudessem limitar sua obra. É conhecido por fazer um cinema live. E foi com essa pérola que, no final da década de 50, ganhou notoriedade internacional.

O roteiro é fantástico. Um sujeito trama com sua amante o assassinato de um grande empresário. Patrão do primeiro, esposo da segunda. Porém, um mero detalhe após a execução do plano cria uma avalanche de desencontros e situações inesperadas. A fotografia que recheia isso tudo é outro ponto forte. Paris, em preto e branco, acaba se tornando mais uma personagem, que joga em perfeita sintonia com uma Jeanne Moreua sem maquiagem, in natura, melancólica, vagando pelas ruas da cidade. E tudo isso embalado pela música de Miles Davis, que merece um parágrafo só para ela.

A trilha sonora é realmente incrível. Casa perfeitamente com a ação, tornando-se uma atração à parte. Reza a lenda que Davis gravou tudo em apenas algumas horas, de 11 da noite até 5 da manhã, em um quarto de hotel. Enquanto compunha, sorvia champanhe com Malle e Moreau. Deve ter sido divertido!

Filmaço! Entra facilmente para a lista dos favoritos...

sexta-feira, outubro 24, 2008

Meme - Os 10 piores!

Esse negócio de meme está na moda! O camarada cinéfilo Sérgio, do ótimo Blog dos Cinéfilos, me passou o seguinte: listar os dez filmes que eu mais execro. Como eu até gosto de filmes ruins, mas ruins de verdade, quando não se levam a sério, a tarefa foi um pouco difícil.

Resolvi listar os dez petardos que quando viram assunto em rodas de conversa, normalmente regadas a chope, tornam a prosa tensa. As justificativas, é claro, não podiam ficar de fora! Em ordem aleatória, são eles:

1 - Crash, estranhos prazeres, de David Cronemberg
Estranho mesmo é gostar dessa obra esquisita de David Cronemberg, um diretor que na minha opinião tem altos e "valas". Essa é a vala dele. Ok, sexo desregrado é divertido. Mas cicatrizes, traumatismos e pernas mecânicas servindo de fetiche é um pouco demais. E pode confundir com aquele outro Crash, que ganhou o Oscar, pois ele é o próximo da lista.

2 - Crash, no limite, de Paul Haggis
Já comentei sobre esse filme, aqui. Orçamento milionário, atores badalados e uma enxurrada de clichês inesgotáveis. Quase tudo soa piegas e forçado nesse Crash. Não é à toa que ganhou o Oscar.

3 - Titanic, de James Cameron
Eu não vi Titanic nos cinemas porque tinha mais o que fazer. Deixei pra ver em casa, no videocassete, relaxado no sofá. Resultado: dormi nos primeiros dez minutos. Acordei no meio e o navio ainda não tinha afundado. Pedi: me acordem quando ele bater no iceberg, por favor. Fui despertado nos dez minutos finais da fita. E, impressionantemente, parecia que eu havia visto o filme inteiro! Não é à toa que ganhou o Oscar?

4 - Forrest Gump, de Robert Zemeckies
Para a opinião geral, cinéfilo que não gosta de Forrest Gump é tão ignorante quanto músico que não gosta de Chico Buarque. Perdi as contas de quantas vezes fui hostilizado por isso. Porém, essa fórmula estadunidense de produzir sucessos de bilheteria com dramalhões sobre superação de protagonistas deficientes não dá. Não mesmo! Ops: não é à toa que ganhou o Oscar?

5 - O sexto sentido, de M. Night Shyamalan
Odeio filme de fantasma. E pior que fantasma, só mesmo crianças fantasmas - elemento que, depois de O sexto sentido, foi exaustivamente explorado nas telas. Tudo um saco.

6 - O retorno da múmia, de Stephen Sommers
Eu não sei onde estava com a cabeça quando resolvi ir na onda de uns amigos e fui ver O retorno da múmia. Aquela máxima que efeitos especiais escondem falhas de direção e roteiro aqui é comprovada. Constrangedor.

7 - Jurassic Park, de Steven Spielberg
Mais chato do que dinossauros, só mesmo o ciclo reprodutivo dos protozoários. Só faltou serem inteligentes. E aí teríamos títulos como Um T-Rex da pesada, Um tiranossauro muito louco, A turma do brontossauro.

8 - Cidade dos anjos, de Brad Silberling
É quase regra: filmes com Meg Ryan não são legais. Cidade dos anjos é uma afronta ao original, Asas do desejo, de Wim Wenders.

9 - Amor nos tempos do cólera, de Mike Newell
Nem vale a pena me estender escrevendo sobre este que é um dos piores filmes que eu já vi! Tem resenha por aqui. Espinafrei mesmo.

10 - Moulin Rouge, de Baz Luhrmann
Se direção de arte bastasse para fazer um bom filme, até que Moulin Rouge seria mediano. O filme é chato e cansativo, com aquela aura de videoclip interminável da MTV. Uma mistura pop toda desengonçada. Os números musicais são constrangedores: o que é Ewan McGregor cantando?

Pronto. Como eu sei que alguns filmes supracitados são adorados pela maioria, favor pegar leve na hora de me xingar, ok? Quem quiser fazer a própria lista, fique à vontade!

quinta-feira, outubro 23, 2008

#80 - A noiva do monstro (Bride of the monster), de Ed Wood


Conhecido por ser o pior cineasta do mundo pela excentricidade de suas produções, Ed Wood acabou virando celebridade anos depois de sua morte. O reconhecimento, ainda que no terreno da chacota, é valido - afinal, tem que ter muita criatividade para produzir pérolas como Plano 9 do espaço sideral e Glen ou Glenda.


A noiva do monstro não foge à regra. Argumentação confusa, atuações medianas - com exceção do lendário e realmente bom Bela Lugosi -, cenários escassos e diálogos desnecessários. E ainda assim, o filme tem lá seu charme.

O roteiro conta a história de um cientista louco (precisa dizer quem o interpreta?) que planeja criar uma horda de homens com super força. Seus experimentos com seres humanos, porém, enfrentam um pequeno problema técnico: todos que são submetidos aos seus raios atômicos, morrem... Uma repórter vai atrás da história depois de relatos de um monstro rondando a região, que coincide com o desaparecimento de 12 pessoas. A trama é tão enrolada que chega a ser difícil resumi-la. Doideira!

O filme é fraco. Bem fraco. Vale mais para matar a curiosidade. E para ver o último papel de Bela Lugosi, que viria a morrer no meio das filmagens da produção seguinte de Ed Wood, o divertidíssimo e supracitado Plano 9.

terça-feira, outubro 21, 2008

Meme - vilões!

O também cinéfilo e companheiro de resenhas Kauê, do excelente Cinefilando, propôs que eu escolhesse 10 vilões - cinco calcinhas furiosas e cinco cuecas ordinárias - que marcaramas grandes telas. Tarefa complicada!

Ainda mais porque eu sempre torci para o Gargamel fazer um chá de trombeta com os smurfs, para o Tom cravar os caninos naquele rato metido a sabichão do Jerry, para um dos monstros turbinados pelo Satã-Goss botar no chão o Daileon... Enfim, sou um entusiasta dos antagonistas. Seguem, em ordem aleatória.



Varla (Tura Satana), de Faster, pussycat! Kill! Kill!

Essa aí é o diabo em forma de mulher! Com direito a seios fartos, decote provocante, cintura fina e botas de couro.















Edna (Pat Ast), de Reform school girls

Todo reformatório para garotas que se preze precisa de uma inspetora grande, feia e com ar de sargentona. Pat Ast, com seus métodos nada convencionais, dá conta do recado!














Gogo Yubari (Chiaki Kuriyama), de Kill Bill V.1

Olha o fetiche: japonesa, em trajes colegiais, meias três-quartos e uma bola de metal com espinhos sinistros nas mãos. Gogo é a jovem delinqüente mais estilosa que a mente fértil de Tarantino já produziu.













Beverly R. Sutphin (Kathleen Turner), de Mamãe é de morte

A ex-sexy Kathleen Turner faz de sua mãe serial killer uma das figuras mais adoráveis do cinema underground de John Waters. Matriarca zelosa e preocupada com as quetões ambientais. Porém, mexeu com ela, tá lascado!












Bruxa de Blair

Impressionante como uma vilã que não aparece na tela pode deixar o espetador tenso. Eu me lembro da pré-estréia do filme, meia-noite, cinema cheio. Sinistro! Saímos todos renovados com aquela vontade de pegar uma câmera e fazer um filme.












Darth Vader (David Prowse), de Guerra nas estrelas

De que adiantou creditar David Prowse nos letreiros dos três primeiros episódios de Guerra nas Estrelas? Nem a voz era dele. Pois impactante mesmo é a máscara negra de um dos meus vilões preferidos.













Anton Chigurh (Javier Barden), de Onde os fracos não têm vez

Javier Barden é um dos grandes atores do cinema contemporâneo. E seu vilão não poderia deixar de ser inesquecível. A caracterização de Anton Chigurh, com cabelo tosco e olhos esbugalhados, é assutadoramente perfeita!












Chong Li (Bolo Yeung), de O grande dragão branco

Van Damme teve que cortar um dobrado para vencer Chong Li, o terror dos ringues - sempre enfezado e cheio de marra. Ainda mexia os peitinhos só para tirar onda.














Biff Tannen (Thomas F. Wilson), de De volta para o futuro

Apesar de ter um final melancólico já nos primeiros minutos da trilogia, já que o filme começa no presente, Biff Tannen tem lá seus méritos. Com aquele jeito paspalhão, parvalhão, bobo-alegre, é impossível não criar empatia pelo personagem.












Zé Pequeno (Leandro Firmino), de Cidade de Deus

Dadinho é o caralho! O nome dele é Zé Pequeno, porra! O trabalho de Leandro Firmino é impressionante.















É isso aí! Quem quiser seguir o meme, fique à vontade. E me chame pra ver como ficou a lista.

domingo, outubro 19, 2008

#79 - The boss of it all (Direktøren for det hele), de Lars Von Trier


Um dos diretores responsáveis pelas mais provocativas produções cinematográficas do nosso tempo resolveu atacar de comédia. Depois de filmes furiosos, densos e pesados, Lars Von Trier aparece com um criativo roteiro sobre um empresário que, inseguro em se apresentar aos funcionários de sua empresa como o chefe de tudo, contrata um ator para se encarregar da função.

Claro que, tratando-se de Lars Von Trier, The boss of it all não podia ser uma simples comédia. Ele gosta mesmo é de obstruir o trabalho de direção, discutir arte, propor novos caminhos. Portanto, para capturar a ação das personagens, o dinamarquês utilizou-se de uma técnica batizada como Automavision. Funciona assim: um programa de computador seleciona, randomicamente, os enquadramentos, os cortes e os movimentos de câmera, fazendo com que o diretor perca o controle sobre o que será filmado.

Ou seja, os atores são enquadrados pela metade e há cortes bruscos para câmeras apontadas para onde não há ação. E o mais bacana, sem exagero algum, é que tudo isso faz sentido. Genial!

As razões para se utilizar do tal recurso são as mais diversas. Em primeiro lugar, o argumento do filme, que fala sobre a perda de controle de um executivo sobre seus empregados, e sobre a dificuldade das relações que envolvem o ser humano. Depois, a discussão da valorização do homem como sujeito produtor de arte, uma vez que o computador, nesse caso, poderia ser creditado como co-diretor. E mais: o verdadeiro exercício cinematográfico, proposto a ser executado com limitações técnicas, mas com prudência intelectual - o mesmo que é sugerido por Von Trier no ótimo The five obstructions, documentário ficcional no qual um diretor precisa filmar um roteiro cinco vezes, sempre com uma obstrução diferente.

Filmaço, fortemente recomendado para quem curte novas experiências estéticas.

domingo, outubro 12, 2008

#78 - Team America: World Police, de Trey Parker


Ah, que bonitinho! Um filme com marionetes!

Bem poderia ser um mimo, se os criadores de Team America: World Police não fossem Trey Parker e Matt Stone, os responsáveis pelo humor nada correto de South Park. Agora eles atacam o estilo de vida estadunidense com um filme sobre uma instituição que usa as cores dos Estados Unidos e luta exclusivamente contra terroristas do mundo todo. Exatamente o que o presidente daquele país convenhou chamar de "cruzada contra o terror". Sendo assim, o que você vai ver na tela são maquetes das principais capitais mundias explodindo, bonecos sendo esquartejados e muitos diálogos politicamente incorretos.

Se em South Park a bola da vez era Saddam Hussein, uma vez que o trauma recente dos estadunidenses era a Guerra do Golfo, dessa vez eles pegam como Judas o líder da Coréia do Norte, Kim Jong II - o sujeito que, depois do 9/11 (ou 11/9, pra gente), se tornou a grande ameaça ao solo ianque.

No roteiro, um ator da Broadway, com sua habilidade interpretativa, é a única esperança para que o grupo consiga se infiltrar na organização de Kim Jong II e roubar informações sobre os próximos ataques. O líder coreano consegue o apoio de um a comissão de artistas de Hollywood, e aí sobra até para os pacifistas. O boneco de Alec Baldwin capitaneia uma cruzada contra o Team America e seus métodos destrutivos e nada convencionais. Sobra para Matt Damon, George Clooney, Helen Hunt e Sean Penn - esse último, furioso, chegou a escrever para Trey Parker reclamando.

O problema é que o filme não tem um ritmo bom. As piadas vão perdendo a graça e o entusiasmo com as situações bizarras envolvendo os bonecos também vai se esvaindo. Lá pela metade final já não se acha tanta graça assim. Tratando-se da dupla Parker/Stone, eu esperava bem mais.

Os bonecos, realmente incríveis, são fruto do maravilhoso trabalho dos Irmãos Chiodo - responsáveis pela pérola Killer clowns from outter space. São inspirados na antiga série de TV dos anos 60, Thunderbirds. É o que há de melhor no filme!

segunda-feira, outubro 06, 2008

#77 - O sonho de Cassandra (Cassandra's dream), de Woody Allen


Enquanto a massa se estapeia na tentativa de conseguir um mísero ingresso para o novo filme de Woody Allen, em cartaz no Festival Internacional do Rio, eu, do conforto do meu sofá, confiro o filme que fez a mesma massa se estapear - e pelo mesmo motivo - no ano passado. Não tenho mais paciência, e muito menos tempo, para enfrentar tarefas hercúleas.

Os ares londrinos fizeram bem a Allen. O sonho de Cassandra é mais uma produção que foge da comédia com requintes neuróticos. O roteiro conta a história de dois irmãos em busca da emancipação financeira. Um deles, Ewan McGregor, é ambicioso e visionário. O outro, Colin Farrell, surpreendentemente excelente na tela, é viciado em jogo e parece não ter muitos planos para o futuro. Tudo muda quando um tio rico, estabelecido nos Estados Unidos, chega à cidade.

Seria o tio a Cassandra? Se não, que outro personageriam poderia ser? Imagino que muita gente tenha tentado resolver a questão: qual a ligação do filme com a mitologia grega?

O tal sonho de Cassandra se refere ao nome de um barco comprado pelos irmãos. Na mitologia, Cassandra é a portadora de más notícias, pois é uma profeta amaldiçoada para que ninguém acredite em suas palavras. Acaba antevendo a guerra de Tróia, mas nada pode fazer. Dados os dois significados, sinceramente, não consigo fazer uma ligação entre um e outro. E também nem vou ficar tentando. Me limito a dizer o seguinte: a grega é uma tragédia; e o que acontece no filme também é uma tragédia.

O sonho de Cassandra está longe de ser o ápice de Allen. Porém, ainda assim prende o espectador e fornece entretenimento de alta qualidade. É um filme muito bem produzido e cuidadosamente montado. Vale a pena.

Mas não precisava ter se estapeado...

quinta-feira, outubro 02, 2008

Luz, câmera... canção! - Wolf Parade

A banda canadense Wolf Parade, além do bom gosto para a música, tem bom gosto para os videoclipes.

Prova disso é a animação em stop motion da bela e angustiante canção "Modern world", que conta a história de uma fábrica que passa pelo processo de automação. No lugar de funcionários, máquinas. Nem a banda escapa. O argumento lembra um pouco o célebre Tempos modernos, de Chaplin.

I'm not in love with the modern world - canta o Wolf Parade. É lindo!

terça-feira, setembro 30, 2008

#76 - Repo Man, de Alex Cox


Será possível que todas as vezes que Repo Man foi ao ar na Sessão da Tarde eu estava longe da TV? Porque, conforme fiquei sabendo, era atração rotineira na grade de programação vespertina na época em que não havia essa enxurrada de animais inteligentes na tela.

Cogitei a hipótese de ser um daqueles filmes que você só se toca de estar revendo lá pela metade. Mas eu me lembraria da trilha sonora espetacular, que vai de Iggy Pop a Suicidal Tendencies. E não é só isso: o roteiro é insano! Mistura jovens punks, roubo de carros e conspirações alienígenas.

Repo man é um sujeito que pratica repossession, ou seja, toma na mão grande o carro de quem está com as contas pendentes. Otto, interpretado pelo então frangote Emilio Estevez, acaba se tornando um deles depois de roubar um carro, enganado por Bud (o sempre irretocável Harry Dean Stanton), um repo man experiente. E aí você pergunta "e cadê a conspiração alienígena?". É que um dos automóveis mais visados pelos repo men, e também pelo serviço secreto dos Estados Unidos, é um Malibu em cujo porta-malas estão quatro cadáveres de seres extraterrestres.

Repo Man é mais iconoclástico do que de fato interessante. Porém, parafraseando outra atração vespertina, vale a pena ver de novo.

sábado, setembro 27, 2008

#75 - Surf nazis must die!, de Peter George


O título acima aguçou a curiosidade de muita gente em 1987, ano de lançamento, pasmem, no festival de Cannes. Obviamente, Surf nazis must die foi esculachado e espinafrado por quase toda a crítica da época. Acabou virando mais um cult movie da famosa produtora Troma - criada para produzir e lançar filmes de baixo orçamento.

Em mais um de seus exploitations, o roteiro... Ah, o filme nem tem um roteiro de verdade! Conta a história de um grupo de surfistas nazistas que aterroriza as praias de uma Califórnia arrasada por um terremoto de proporções catastróficas. Liderados por um sujeito de bigode ralo e alcunha Adolf, eles planejam dominar a área eliminando outras gangues existentes.

Generalizando, Surf nazis must die é um Warriors trash. Com direito a indumentária da pior qualidade! Os tais surfistas nazistas estão o tempo inteiro de long john (a roupa de borracha para surfar em águas frias) e têm soásticas pintadas nas bochechas. Há o bando de skatistas com roupas rasgadas, os japoneses ninjas com bandanas na cabeça e os playboys atléticos de roupas coloridas. Todos empanturrados de maquiagem e cheios de acessórios da década de 80. Uma trilha sonora repleta de sintetizadores futuristas completa o trabalho.

Apesar das falhas de roteiro e montagem, quem gosta de um bom exploitation, sem pretensões e descompromissado com argumentos, pode achar divertido. O problema é que a cópia disponível é um lixo!

Será que é de propósito?

quarta-feira, setembro 24, 2008

Meme - 10 musas da tela grande

O também companheiro de resenhas Sérgio, que mantém o recomendado Blog dos Cinéfilos, me passou a tarefa de escolher dez "pitéis" que preencheram com exuberância e talento as grandes telas dos cinemas. Como eu adoro fazer listas, já que recordar é viver, tratei logo de fazer a minha, com mulheres que ajudaram a me tornar um amante inveterado da sétima arte. Confesso que achei que seria mais fácil... Depois de muitas elucubrações, eis as escolhidas, em ordem aleatória.

Salma Hayek
Me lembro como se fosse ontem. Eu, jovem, em uma sala de cinema vazia, embasbacado e de queixo caído em uma das melhores cenas de Um drink no inferno. Salma Hayek, em trajes de banho, dançava com uma cobra envolta no corpo.




Tainá Müller
Cão sem dono, um dos melhores nacionais do ano passado, tem seus méritos pelo roteiro e pela atuação do casal protagonista. Mas é Tainá Müller quem rouba todas as cenas em que aparece, provando que não basta ser bela, tem que saber interpretar! E melhor: é coisa nossa!




Catherine Deneuve
Eterna bela da tarde, do dia, da noite, da madrugada, da alvorada, do chá das cinco. Foi na pele da mulher casada que resolve se prostituir, sob direção do mestre Buñuel, que Deneuve conquistou minha admiração.





Ángela Molina
Buñuel tinha realmente um olho clínico para trabalhar a volúpia feminina. Escolheu Ángela Molina como uma das duas intérpretes da mulher que é um obscuro objeto do desejo.






Claudia Cardinale
Modelo e atriz são predicados que quase nunca combinam, feito lasanha e feijão. Não no caso de Claudia Cardinale, que entrou na indústria cinematográfica após chamar a atenção em concursos de beleza. Basta assistir a Era uma vez no Oeste para concluir que, no caso dela, modelo e atriz formam par.



Kelly Preston
Se você, que nem eu, era adolescente na década de 80, provavelmente vibrou com os peitinhos de Kelly Preston em A primeira transa de Jonathan. Na época, em quase todos os filmes que fez, ela era a loira cobiçada que acabava sozinha por culpa da própria vaidade. Tadinha...



Tia Carrere
Wayne Campbell, de Quanto mais idiota melhor, não tinha nada de bobo. Tinha mesmo é bom gosto: queria uma Fender Stratocaster branca e a Tia Carrere!







Kristy Swanson
Eu confesso: chorei quando Samantha, a personagem de Kristy Swanson em A maldição de Samantha, morreu, logo no início do filme. O vizinho a ressuscita e ela acaba voltando meio esquisita, mas ainda assim encantadora. Seria isso necrofilia? Eu hein...




Gretchen Mol
Foi com extrema competência e formosura que a loira Gretchen Mol tingiu os cabelos de preto para viver nas telas a famosa e espevitada pin up Bettie Page. De chicote e cinta-liga.






Scarlett Johansson Acho que é meio lugar comum e ela é a bola da vez. Vai até lançar disco. Porém, quem viu Encontros e desencontros ou Match Point não pode fazer uma lista sem Scarlett Johansson.







A maioria já foi desafiada. Porém, tenho dois amigos que, tenho certeza, vão mandar bem em suas respectivas listas. Dougra, ou melhor, Surfista Platinado, mãos à obra! Mendes, você também. Caprichem!