terça-feira, dezembro 04, 2007

#87 - Eu, um negro (Moi, un noir), de Jean Rouch

Jean Rouch, antes de um belo cineasta, foi também um soberbo etnógrafo. Depois de uma expedição pelo Rio Níger, no qual teve contato com a cultura e o povo africano, resolveu que era hora de documentar o que havia experimentado. Nascia, então, um dos mais importantes e influentes documentaristas do nosso tempo.

Em "Eu, um negro", estupenda obra de ficção com traços documentacionais, Rouch traz à tona os problemas decorrentes da descolonização africana. Um grupo de jovens abandona sua terra natal, a Nigéria, para tentar uma vida melhor na Costa do Marfim. O filme, de 1959, é considerado um marco no cinema francês por sua linguagem extremamente contemporânea e montagem singular para os padrões da época. O protagonista, Robinson, narra livremente a colagem de imagens exibidas na tela, organizada pelos dias da semana. Durante os dias úteis, trabalho. Nos finais de semana, boxe e dança.

Em busca de uma identidade ideal, aos moldes ocidentais, Robinson e seus amigos procuram se comparar a ícones da cultura européia e estadunidense. Apaixonado por boxe, ele se transforma em Sugar Ray Robinson. Já seu companheiro, por julgar-se parecido com o ator estadunidense, passa a se chamar Eddie Constantine.

Rouch foi responsável pelo que mais tarde convencionou-se chamar de Cinema Verdade - corrente que influenciou uma penca de grandes realizadores. Por exemplo: o filme "Acossado", de Godard, inicialmente se chamaria "Moi, un blanche" (Eu, um branco). Para citar alguns brasileiros que beberam na fonte do etnógrafo francês: os competentes Eduardo Coutinho e João Moreira Salles. Ou seja, dá para perceber que o cara é bom!

Entrou fácil na minha lista de top 20...

3 comentários:

Museu do Cinema disse...

Um cineasta adorado em Portugal, Jean Rouch foi o inspirador do movimento Nouvelle Vague, que transformou o cinema francês e influenciou o quarteto Spielberg, Scorsese, De Palma e Coppola nos EUA. Grande lembrança Dudu!

Kamila disse...

Não conheço muita coisa do Jean Rouch, mas adoro ler seus textos, Dudu, porque sou apresentada a um tipo de cinema com o qual não sou muito familiarizada.

Felipe Nobrega disse...

bem, tenho minhas duvidas quanto a tal "influência" de Rouch sobre a "quadrilha" americana, mas... vou dar uma epsquisada maior.