quinta-feira, dezembro 27, 2007

#92 - Ano passado em Marienbad (L'année dernière à Marienbad), de Alain Resnais


Sim, é uma história de amor. Sim, ambientada em um belo hotel. E, sim, envolvendo um intrigante triângulo amoroso. Os ingredientes podem até parecer romanescos demais. Porém, tratando-se de Alain Resnais, é um cinema muito diferente do que se costuma ver por aí.

A história gira em torno de um sujeito, X, obcecado por uma bela mulher, A, acompanhada por um frio e misterioso homem. Todos hospedados em um luxuoso e suntuoso hotel em Marienbad. Segundo X, os dois já haviam se encontrado anteioromente, há um ano. Ela diz não se lembrar, enquanto ele tenta convencê-la a largar tudo e fugir para viverem juntos. O que se segue é um jogo de sedução onde memória e lirismo se fundem. Testemunha-se, por entre os corredores retos e intermináveis do hotel, a incapacidade de concretização do desejo entre A e X, bem como a distância de um e do outro em um alfabeto.


A arquitetura clássica, quase barroca, do hotel se mistura perfeitamente ao roteiro, tornando-se praticamente um personagem. Espelhos, estátuas, objetos de decoração e um gigantesco jardim servem de moldura para enquadramentos requintados e angulosos, deixando o filme com uma aura de obra de arte. O simbolismo e as comparações com Bergman, inevitavelmente, se tornam muito fortes. A fotografia p&b chega a brilhar de tão bem cuidada. É cinema de luxo, de arte, na mais pura acepção da palavra.

O tempo narrativo é longo, quase estático. Uma locução repetitiva e monocórdica pontua com perfeição a frieza na maneira como uma paixão fugaz é contada por Resnais. As atuações são teatrais, com a valorização da expressão corporal de todos os atores - principalmente do casal protagonista.

Mais do que um filme, uma verdadeira obra de arte.

sábado, dezembro 22, 2007

#91 - Death proof, de Quentin Tarantino


Se fosse para escolher qual dos dois filmes levar para casa, "Planet terror" ou "Death proof", certamente ficaria com o segundo. Road movies furiosos me atraem mais do que zumbis comedores de cérebro. Portanto, depois de conferir e gostar do que Rodriguez fez em seu segmento de "Grindhouse", não pude aguentar a ansieadade e baixei "Death proof", o segmento de Tarantino, que por aqui só vai ganhar as grandes telas em março do ano que vem.

Esteticamente, apesar da semelhança de propostas, o filme de Tarantino é muito superior ao de Rodriguez. Ainda que conte com os mesmos recursos para dar efeito de falha nos fotogramas, com cortes abruptos, quedas no áudio e muitos arranhões na cópia, os enquadramentos são simplesmente sensacionais. Lembram muito as produções baratas, porém extremamente caprichadas, de Russ Meyer. Capricho também na trilha sonora, na escolha do elenco e, principalmente, nos diálogos - marca registrada de Tarantino.

O roteiro é fiel ao cinema trash com conteúdo. Nada de novo: um dublê alucinado dirige um carro negro "à prova de morte" com o qual inferniza a vida de outros motoristas. Para ser mais preciso, de "outras" motoristas. E algumas dessas motoristas também são más, fazendo claras referências ao trio de "Faster, pussycat! Kill! Kill!", de Meyer.

Aliás, referências não faltam em "Death Proof". Tarantino brinca com sua própria filmografia o tempo todo. Utiliza as cores de "Kill Bill", as músicas de "Jackie Brown", as sequências de "Cães de aluguel" e uma penca de outros detalhes que, para os conhecedores da obra do diretor, são um deleite!

Um filme que vale muito ser conferido na tela grande. Agora é aguardar...

quinta-feira, dezembro 20, 2007

#90 - Planet terror, de Robert Rodriguez

O problema com a maioria dos filmes de zumbis é que eles se levam a sério demais. Não os zumbis, mas os filmes. Pode até dar medo, ou fazer com que você esconda o rosto por detrás de uma almofada, ou deixe os dedos caírem levemente sobre os olhos enquanto finge estar coçando a testa. Em "Planet Terror", nada é levado a sério, e esse é o grande trunfo do diretor Robert Rodriguez.


A premissa é clássica: um gás biológico é lançado sobre uma cidade e transforma os moradores em espécies de zumbis deformados que se alimentam de tripas humanas. Previsível. Porém, o recheio do roteiro é que dá o tom diferencial que Rodriguez busca em todos os seus filmes. São milhares e milhares de intermináveis clichês de filmes de zumbis, mas todos recheados com diálogos insólitos, ações inesperadas e desfechos inverossímeis. Marca registrada do diretor.

Para fazer com que o espectador entre mais ainda no clima, os fotogramas foram desgastados propositalmente para dar a sensação de se estar realmente diante de uma pérola do cinema trash, exatamente como era feito no começo da década de 70 - o que pode parecer um retrocesso na técnica aos mais desavisados. Logo, montagem, fotografia e edição são experimentações cinematográficas que tornam a produção de Rodriguez ainda mais atraente. Fica nítida a habilidade do diretor em fazer e reinventar cinema.

Talvez o único problema de "Planet Terror" seja a quantidade absurda de sangue, gosmas e restos putrefatos dos pobres personagens. Algumas cenas e as maquiagens são completamente toscas, mas é um pouco incômodo ter que agüentar quase duas horas de exploitation puro. Precisa ter um pouco de estômago. Além dos que você vai ver na tela.

O destaque, indubitavelmente, fica por conta das cenas com a bela Rose McGowan, que interpreta Cherry Darling, a tal dançarina que tem no lugar da perna amputada um fuzil. Suas cenas são realmente inesquecíveis.

Uma grande, e nojenta, mais nojenta do que grande, inclusive, homenagem ao cinema trash.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

#89 - The Devil and Daniel Johnston, de Jeff Feuerzeig


Pouca gente sabe quem é Daniel Johnston. Porém, quem é fã de Pearl Jam, Sonic Youth ou Nirvana, talvez já tenha estado muito perto da obra desse artista e compositor sem saber. No premiado documentário de Jeff Feuerzeig, Daniel, sua família, seus trabalhos, seus amigos e seus demônios são revelados em fotograma.

Com um extenso arquivo de imagens e áudios, Feuerzeig vai mostrando aos poucos como Daniel Johnston, que era maníaco depressivo, se tornou um ícone nos bastidores da música. Vindo de uma família religiosa da Virginia, afirmava ser perseguido pelo Diabo. Apesar de levar uma vida conturbada, com freqüentes internações em hospitais psiquiátricos e prisões por comportamento agressivo, conseguiu chamar a atenção de músicos e produtores com suas composições sinceras e diretas. Tecnicamente, nada demais: ele mesmo gravava fitas cassete tocando violão e cantando e desenhava à caneta todas as artes que ilustravam seus álbuns. O diferencial estava justamente no conteúdo, extraordinariamente lírico e verdadeiro. Obra tão valorosa, que foi executada por mais de 150 artistas: Tom Waits, Beck, Mercury Rev, Flaming Lips, Wilco, Teenage Fanclub e mais uma penca de gente boa, além dos supracitados.

A montagem do documentário é sensacional. Nada fica de fora, nenhuma passagem é descartada e o rico material de arquivo é bem dosado com as entrevistas. Inclusive, uma ótima com Gibby Haynes, vocalista do Butthole Surfers, enquanto faz uma obturação no dentista.

Denso, tocante, bizarro e bem feito. "The Devil and Daniel Johnston" venceu o prêmio de melhor direção no Festival de Sundance em 2005. Premiação justíssima!

domingo, dezembro 09, 2007

#88 - Electroma, de Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo


A dupla francesa de produtores e dj's Daft Punk já havia provado que seu trabalho vai muito além do som. É estético também. Prova disso foi o show que fizeram por aqui na edição de 2006 do Tim Festival: impecável e intenso. Uma experiência visual e musical inesquecível.


Como em "Interstella 555", anime que contava a história do disco "Discovery", "Electroma" conta a história do álbum "Human after all". Porém, diferentemente do primeiro, que tinha como roteiro todo o playlist do respectivo disco, este segundo trabalho foca apenas no conceito: os dois robôs, membros do Daft Punk, tentam se transformar, finalmente, em seres humanos.

O que se segue é um trabalho impecável de experimentação cinematográfica. Nada de luzes piscantes, vozes robóticas, samplers acelerados ou bate-estacas. "Human after all", dirigido e escrito pela dupla, é uma jornada densa e melancólica. Com direito a planos longos, fotografia caprichada e trilha sonora que passa longe do eletrônico.

Em pouco mais de uma hora, o que se vê na tela é pura poesia visual. Cenas inesquecíveis como um show do Daft Punk. Lembra um pouco Tarkovsky, com sua temporalidade lírica, lenta, rígida e silenciosa. Aliás, não há um "ai" durante todo o filme.

Isso sim é arte.

terça-feira, dezembro 04, 2007

#87 - Eu, um negro (Moi, un noir), de Jean Rouch

Jean Rouch, antes de um belo cineasta, foi também um soberbo etnógrafo. Depois de uma expedição pelo Rio Níger, no qual teve contato com a cultura e o povo africano, resolveu que era hora de documentar o que havia experimentado. Nascia, então, um dos mais importantes e influentes documentaristas do nosso tempo.

Em "Eu, um negro", estupenda obra de ficção com traços documentacionais, Rouch traz à tona os problemas decorrentes da descolonização africana. Um grupo de jovens abandona sua terra natal, a Nigéria, para tentar uma vida melhor na Costa do Marfim. O filme, de 1959, é considerado um marco no cinema francês por sua linguagem extremamente contemporânea e montagem singular para os padrões da época. O protagonista, Robinson, narra livremente a colagem de imagens exibidas na tela, organizada pelos dias da semana. Durante os dias úteis, trabalho. Nos finais de semana, boxe e dança.

Em busca de uma identidade ideal, aos moldes ocidentais, Robinson e seus amigos procuram se comparar a ícones da cultura européia e estadunidense. Apaixonado por boxe, ele se transforma em Sugar Ray Robinson. Já seu companheiro, por julgar-se parecido com o ator estadunidense, passa a se chamar Eddie Constantine.

Rouch foi responsável pelo que mais tarde convencionou-se chamar de Cinema Verdade - corrente que influenciou uma penca de grandes realizadores. Por exemplo: o filme "Acossado", de Godard, inicialmente se chamaria "Moi, un blanche" (Eu, um branco). Para citar alguns brasileiros que beberam na fonte do etnógrafo francês: os competentes Eduardo Coutinho e João Moreira Salles. Ou seja, dá para perceber que o cara é bom!

Entrou fácil na minha lista de top 20...