domingo, novembro 25, 2007

#85 - Viridiana, de Luis Buñuel


É de Buñuel a célebre frase:

"Sou ateu graças a Deus."

Em "Viridiana", filme de sua fase mexicana, talvez a mais simbolista do cineasta, Buñuel exercita toda a sua criatividade e cria uma obra-prima sobre a falência da doutrina cristã. Não à toa, o filme foi banido da Espanha e causou rebuliço e ojeriza no Vaticano.

Viridiana, uma bela freira, viaja para a casa de seu abastado tio, que acabou de se tornar viúvo. Lá, sofre com as constantes investidas dele e acaba por presenciar uma desgraça. Ela, então, abandona a vida eclesiástica e tenta viver segundo os preceitos fraternais do cristianismo, abrigando e alimentando mendigos e doentes da região.

As cenas que provocaram a ira dos religiosos fervorosos estão espalhadas por todo o filme. Punhais em forma de crucifixo, coroa de espinhos queimando na fogueira e músicas sacras dão o tom crítico e simbólico. Closes nas sensuais pernas de Silvia Pinal, soberba como Viridiana, não faltam. Porém, o destaque da película, que traduz a genialidade de Buñuel e o consagra como um dos maiores realizadores de todos os tempos, é de arrepiar: ele recria, com perfeição jônica, a imagem da Santa Ceia de Da Vinci. E no lugar dos apóstolos, os mendigos.

Como em "Fim de partida", peça de Samuel Beckett, e "Dogville", filme de Lars Von Trier, "Viridiana" expõe sem pudores o tácito acordo que existe no jogo entre explorador e explorado. Coloca em xeque doutrina e doutrinadores.

É incômodo, pungente e forte.

6 comentários:

Museu do Cinema disse...

O Buñuel tem muitas peculariedades, seu cinema tem grife, tem densidade extrema.

ótima dica!

Kamila disse...

Mais um filme que eu não assisti. Do Buñuel, só mesmo àquela clássica cena de "Um Cão Andaluz".

Felipe Nobrega disse...

Tenho que conhecr um pouco mais Bunel. Mas queria comentar sobre o post que vc colocou do filme do Waine Wang, com o Keitel. Assisti a um certo tempo e até hoje tenho ele na memória - ass vezesaa cho que são as histórias mais banais (?) que nos marcam. Um filme despreocupado e com diálogos escelentes. Fora uma musica tema do David Byrne nota 11!.

Daniel disse...

Não vi esse filme, conheço muito pouco Buñuel, mas essa frase é, realmente, muito boa!

Apareça!
Abração!

Anônimo disse...

Gostaria de adicionar mais algumas coisas que notei...

Na ultima cena tocava uma espécie de fox-trot, se opondo a musica sacra tocada em todo o filme, que ele coloca como a "musica da moda"... mais uma critica à Igreja

Um dos mendigos conta uma historia aparentemente despretenciosa na qual ele delatava um companheiro... alusão a judas

MatHeuS MatHeuS disse...

Deluxe!