quinta-feira, novembro 29, 2007

#86 - Attack of the 50 ft woman, de Nathan Juran


Uma mulher de estatura baixa com hormônios descompensados e enfurecida pode ser um perigo na vida de alguns homens. Agora, imagine uma mulher de 50 pés de altura, com os hormônios descompensados afetados por uma estranha radiação alienígena e irada por saber que seu marido não passa de um cafajeste interessado apenas em seu dinheiro?

Deliciosa e iconoclástica premissa para um bom filme sci-fi B!

E é isso que Nathan Juran fez lá nos idos de 1958, época em que aranhas gigantes, formigas gigantes, crocodilos gigantes e outros seres pertencentes ao reino animal ganhavam tamanho descomunal e lotavam as salas de cinema em todo o mundo.

Como toda boa produção do gênero, de orçamento modesto, o filme conta com efeitos especiais toscos, cenografia pobretona e atuações nada convincentes - o que só aumenta a curiosidade acerca do resultado final (pelo menos a minha). O interior da nave espacial que cai no deserto dos Estados Unidos é delirante e seu piloto gigante traja roupas medievais (tem explicação?). O desfecho é sensacional, típico da época. A trama é resolvida em apenas três segundos e a projeção termina com uma frase de efeito.

Porém, Juran nem era um diretor decadente. Muito pelo contrário: dirigiu Boris Karloff no clássico "O castelo do pavor" e filmou algumas obras de ficção científica de grandes autores, como Orson Welles. Mas foi realmente no gênero B que ele fez o seu nome.

Se o filme não é lá grandes coisas, pelo menos seu poster é considerado um dos melhores de todos os tempos. Nisso a gente concorda, né?

PS: fujam do remake de 1993, prefiram o original!

domingo, novembro 25, 2007

#85 - Viridiana, de Luis Buñuel


É de Buñuel a célebre frase:

"Sou ateu graças a Deus."

Em "Viridiana", filme de sua fase mexicana, talvez a mais simbolista do cineasta, Buñuel exercita toda a sua criatividade e cria uma obra-prima sobre a falência da doutrina cristã. Não à toa, o filme foi banido da Espanha e causou rebuliço e ojeriza no Vaticano.

Viridiana, uma bela freira, viaja para a casa de seu abastado tio, que acabou de se tornar viúvo. Lá, sofre com as constantes investidas dele e acaba por presenciar uma desgraça. Ela, então, abandona a vida eclesiástica e tenta viver segundo os preceitos fraternais do cristianismo, abrigando e alimentando mendigos e doentes da região.

As cenas que provocaram a ira dos religiosos fervorosos estão espalhadas por todo o filme. Punhais em forma de crucifixo, coroa de espinhos queimando na fogueira e músicas sacras dão o tom crítico e simbólico. Closes nas sensuais pernas de Silvia Pinal, soberba como Viridiana, não faltam. Porém, o destaque da película, que traduz a genialidade de Buñuel e o consagra como um dos maiores realizadores de todos os tempos, é de arrepiar: ele recria, com perfeição jônica, a imagem da Santa Ceia de Da Vinci. E no lugar dos apóstolos, os mendigos.

Como em "Fim de partida", peça de Samuel Beckett, e "Dogville", filme de Lars Von Trier, "Viridiana" expõe sem pudores o tácito acordo que existe no jogo entre explorador e explorado. Coloca em xeque doutrina e doutrinadores.

É incômodo, pungente e forte.

#84 - Blades of glory, de Josh Gordon e Will Speck

Eu sempre achei patinação artística um evento estranho. Aqueles figurinos, as músicas, piruetas, sorrisos... Depois que o esporte virou atração dominical na televisão, e pior, com celebridades, aí mesmo que passei a achar insuportável. Em "Blades of glory", toda essa conotação "artística" é levado ao extremo, em uma divertida comédia com dois dos melhores atores do gênero em atividade: Will Ferrell e John Heder.

O filme conta a história de dois patinadores rivais, um sensível e o outro ninfomaníaco, que são banidos da disputa individual da modalidade após uma briga. A solução para voltarem à ativa é disputar os campeonatos como uma dupla. O argumento fica completamente em segundo plano, pois o figurino, a trilha sonora e as coreografias são incríveis.

A dupla de diretores, oriundos do filme publicitário, suaram a camisa para pôr em prática suas idéias. Assim como as celebridades dominicais, Ferrel e Heder foram postos à prova por profissionais da patinação. Heder, inclusive, quebrou o tornozelo durante as filmagens.

O desfecho é ridiculamente sensacional e os extras chegam a ser mais engraçados que o próprio filme.

sábado, novembro 24, 2007

#83 - Blue in the face, de Paul Auster e Wayne Wang

O que fazer quando você já assistiu a quase todos os filmes de seus cineastas favoritos? Uma boa pedida é começar a ver os filmes preferidos deles. Foi assim que eu cheguei até "Blue in the face", um dos prediletos de Jim Jarmusch.

E que grata surpresa! A direção é de uma parceria que já havia dado certo em "Smoke", escrito por Paul Auster e dirigido por Wayne Wang. Agora, em "Blue in the face", os dois assumem a direção de uma película que levou apenas cinco dias para ser filmada. O roteiro, que quase não existe, traz pequenas situações que foram criadas a partir de exercícios cênicos de Harvey Keitel para seu personagem em "Smoke". Por isso, o tema é o mesmo: filosofias de esquina e cigarros, muitos cigarros. E nós, espectadores, testemunhamos um pouco da vida dos transeuntes que freqüentam uma pequena loja de tabaco no Brooklyn, Nova York.

O recheio do filme é espetacular. Não bastasse o talento do elenco principal para o improviso, há participações muito especiais de gente que respira Brooklyn. Lou Reed e seus estranhos óculos, John Lurie e sua pequena orquestra (números musicais sensacionais), Madonna e seu corpo musculoso (em um papel espetacular de cantora de telegrama animado) e Jim Jarmusch, o próprio, com seu topete grisalho, contando fatos muito engraçados sobre cigarros e cinema. Verdadeiras pérolas! O filme é divido em esquetes, intercaladas por depoimentos de moradores da vizinhança - o que confere à obra certo ar documentacional e antropológico.

Muitas idéias, gente talentosa e diversos filmaços saíram deste núcleo que se formou em Nova York. Uma espécie de patota independente que filma boas idéias e não se preocupa em parecer comercialmente atraente. Assim é "Blue in the face", adorável.

Cinema para poucos, mas bons poucos.

terça-feira, novembro 13, 2007

Meus posters chegaram!

Minha casa vai ficar mais temática do que nunca. Porque não basta imã de geladeira com motivo cinematográfico. Casa de cinéfilo que se preze tem que ter poster!

Os posters em si nem foram tão caros assim: US$16,00. O caro foi o frete, US$27,00 - que, porém, me surpreendeu com a rapidez! A encomenda chegou aqui em casa em menos de duas semanas, de seis previstas. Por isso, recomendo o site: www.movieposters.com.

Escolhi três. Uma trinca que considero perfeita, que mantém uma coesão com a minha trajetória. São eles:



Agora tenho que emoldurar as crianças. Já vi que isso vai me custar uns trocados. Mas tá valendo!

domingo, novembro 11, 2007

#82 - Farrapo humano (The lost weekend), de Billy Wilder


Muita gente achou que Billy Wilder havia perdido o juízo quando, em 1945, decidiu lançar um filme que falava sobre os malefícios causados pela bebida em excesso. Muitos foram os lobistas, os críticos e os profetas que tentaram convencer o diretor a sumir com os fotogramas, alegando que esta obra seria o fim de sua carreira.

Quebraram a cara!

Wilder enfrentou pressões da indústria de bebidas e de grupos conservadores e executou com a maestria de sempre "Farrapo humano", que mostra um fim de semana destrutivo na vida de um escritor viciado em álcool. Ray Milland, o humano esfarrapado, também enfrentou forte resistência de terceiros em interpretar esse papel. E, mais uma vez, todos quebraram a cara. O ator ganhou um Oscar por seu minucioso trabalho - o qual incluiu um laboratório de alguns dias em uma espécie de hospital misturado com manicômio para alcoólatras.

As cenas dos delírios causados pela droga são espetaculares. A trilha sonora é fantasmagórica, a edição é ligeira e a imersão é total. O impacto dessas seqüências é realmente impressionante. Fica fácil perceber que a estrutura narrativa que Wilder utilizou serviria de pilar para muitas obras contemporâneas que exploraram o tema, como "Trainspotting" e "Réquiem para um sonho", que retratam tão bem o perturbador mundo do vício.

Por se tratar de Billy Wilder, esperava um desfecho mais contundente. Porém, que essa seja a única ressalva.

sexta-feira, novembro 09, 2007

#81 - Machuca, de Andrés Wood


E depois de um longo e tenebroso, e põe tenebroso nisso, início de primavera, com direito à suspeita de dengue e testes de estresse, eis que meu pequeno e horroroso DVD player portátil rodou um filme novamente. Quase que não roda, é verdade. O disco chegou a patinar algumas vezes, mas no final deu tudo certo.

E novamente, como em "Desaparecido", o cenário desta realização do competente diretor Andrés Wood é o Chile. Mais precisamente, Santiago prestes a sofrer o golpe militar do dia 11 de setembro (é, a América Latina também tem seus lamentos decimais...) de 1973, apoiado pelo governo estadunidense. O filme conta a história de dois meninos que se aproximam, apesar do abismo social que os separa, graças à política de inclusão de uma escola liderada por um padre britânico. Gonzalo Infante, moleque bochechudo e de feições européias, conhece Pedro Machuca, filho de proletários que vive em uma das diversas favelas da capital chilena. A amizade dos dois vai se fortalecendo em meio ao caos político que toma conta do país. Valores familiares, religiosos e políticos são postos à prova.

É inevitável não estabelecer uma semelhança entre "Machuca" e "O ano em que meus pais saíram de férias". Os dois falam sobre regimes ditatoriais, perseguição política e esperança sob a ótica infantil. As crianças dão um show de interpretações, com atuações extremamente convincentes. A reconstituição de época também é perfeita. A grande diferença entre os dois filmes, porém, é a carga dramática. O nosso hermano chileno é um pouco mais denso, uma vez que o petiz que dá nome ao título é vítima do sistema opressor. Entretanto, não se preocupe: não há uma gota de sentimentalismo, clichês ou pieguice.

Filmaço!

Indicação de um grande camarada, Rodrigo, sujeito engajado e consciente, que tem um trabalho muito interessante de frases urbanas. Assim que ele arrumar um fotolog, website ou qualquer outra coisa que o valha, eu ponho o link aqui para vocês.