quarta-feira, outubro 10, 2007

#72 - Tropa de elite, de José Padilha


A caminho do cinema, passei por uma banca de jornal e lá estava, na capa de uma revista de grande circulação, a foto de Wagner Moura vestindo uniforme preto e empunhando um rifle, com dizeres garrafais em destaque: Capitão Nascimento, o novo herói nacional. Segunda-feira, no Roda Viva, da TVE, José Padilha concedeu uma excelente entrevista para um time de jornalistas afiados. Há dias que recebo e-mails com frases, fotos e vídeos baseados em "Tropa de Elite" - alguns de gosto duvidoso, diga-se de passagem. Pronto, já era hora de tirar minhas próprias conclusões, na tela grande e com som estéreo.

Vou tentar me ater a uma análise artística do que vi - será que consigo? Tecnicamente, "Tropa de Elite" é um êxito, um belo trabalho. A edição e a montagem são perfeitas, e o roteirista Bráulio Mantovani (o mesmo de "Cidade de Deus") conseguiu uma narrativa em tom crescente, sem excessos, bem enxugada e com as doses certas. O filme não perde ritmo em momento algum. As cenas de ação são extremamente bem filmadas. Durante as quase duas horas de projeção, que passam voando, não há tempo nem para suspirar. A estrutura do roteiro chega, de vez em quando, a lembrar vagamente "Nascido para matar", de Stanley Kubrick, que esmiuça lá dentro do psicológico dos personagens os motivos e as razões para suas atitudes. Isso faz com que qualquer ação, seja ela boa ou má, seja acompanhada de certa catarse. A história gira em torno da vida de três policiais que pensam, agem e enxergam o dia-a-dia de forma diferente, mas que se confrontam em um determinado momento.

Quanto ao elenco, dizer que Wagner Moura está espetacular é cair em lugar comum. Não há dúvidas: é dos melhores atores da nova safra, que poderia muito bem se dar ao luxo de esnobar papéis onde a mediocridade interpretativa da atual teledramaturgia brasileira é requerida. Com aquela cara de bom moço, ele encarna com voracidade o tal Capitão Nascimento. Para que isso aconteça, tem que ter muito talento. Porém, discordo de muita gente que acha que ele rouba a cena. Na minha opinião, Caio Junqueira e André Ramiro, os outros dois personagens centrais, também policiais, estão soberbos!

A narração trabalha para dar um tom de suspense à trama. Como em "Ônibus 174", Padilha adianta os fatos, mas a iminência da execução torna tudo ainda mais angustiante. Ao longo do filme, as falhas de caráter de toda a sociedade, civil ou militar, é ditada pela voz do Capitão Nascimento, personagem extremamente ambíguo e à beira de um colapso nervoso.

O grande mérito de "Tropa de Elite" é que o filme não aponta soluções, e sim fomenta discussões. Na minha leitura, em momento algum há a adoção de um discurso que seja tido como o correto. É como um daqueles incontáveis tapas na cara projetados na tela. Como se fosse um alarme, alertando que há algo de errado em achar Capitão Nascimento um herói. Há algo de errado em rir das cenas de tortura. Há algo de errado nas universidades.

No final das contas (e do filme) fica aquele sentimento de que todo mundo sai perdendo.

13 comentários:

Museu do Cinema disse...

É isso mesmo, tá assinado em baixo!

Silvia disse...

O filme ainda não assisti... mas você continua talentoso ao escrever!
Beijão da sempre Silvia Silva... (Afinal, como vc sempre diz "ninguém silva como a Silvia Silva"! Hahahahaha)

Ramon Scheidemantel disse...

Dudu... a cada linha que lia suspirava, com medo de encontrar algum informação que estragasse minha surpresa para assistir o filme. Fiquei bem feliz por não ter encontrado nada. hehe!

Bom... assisti o Roda Viva, e o Padilha acabou contando coisas que não devia. Sacanagem! Afinal, eu tenho direito de assistir a entrevista mesmo antes de ter visto o filme, não?

É difícil comentar algo ainda, mas é importante transmitir a idéia de repensar o sistema que o filme exterioriza. Fizesse a sua parte, com certeza!
Belo post!

Rafael Carvalho disse...

Prefiro não ler nada sobre o filme antes de assisti-lo e não vejo a hora de fazer isso. Mas no interior é complicado pra chegar os filmes. Mas se até agora resisti ao pirata, então prefiro esperar mesmo.

Búfalo Suburbano! disse...

Isso. A única coisa sobre as discussões em torno do filme, é que ninguém até agora se atentou, que se existe um caos, foi porque o Estado se eximiu há muito tempo de se responsabilizar pelas favelas que se formam a cada dia, pelas armas e drogas que circulam livremente pelas rodovias, salvo algumas toneladas de maconha apreendidas para enfeitar o pomposo relatório da segurança. É amigo, se hoje aclamamos pelo fim deste caos, temos que pensar que numa sociedade, há responsáveis sim, votamos para isso, nesta utópica democracia, mas infelizmente, há um monte de medíocres, que vota mal, não cobra nada de ninguém, e quando o estrume fede, ficam direcionando culpa para determinado grupo social, normalmente os mais fracos, os viciados universitários, que ricos ou pobres sobrevivem neste vergonhoso sistema, propício ao comércio e consumo de drogas.

Quero ver começar de cima, juízes, senadores, deputados, que ficam coçando durante um mandato inteiro se deleitando com o rio de dinheiro arrecadado com nossos impostos...

E ai, fulaninho não pode mudar nada politicamente, e está sempre se reelegendo ou elegendo seguidores. Essa corja me repugna, os viciados estão até certos em cagar pra isso! Sociedade Civil hoje tá parecendo a Prefeitura, uma mera repartição, onde nada acontece e só fica delegando que a responsabilidade é sempre do outro! Isso, com todos no mesmo barco!

Ana Néca disse...

Vi ontem o filme e tive essa mesma sensação de tapa na cara. Torço no entanto pra que o filme continue doendo na cara da gente e que não se torne mais um "pagou passou", entende? O que quero dizer é que ver o filme pode trazer o efeito inverso: eximir da culpa quem está nas diversas frentes de responsabilidade pelo "tar do sistema"...
Mas vamo que vamo. E palmas pros três atores sem dúvida! atuações sensacionais!
Beijão!
Ana

Wiliam Domingos disse...

Ótimo texto!
xD
Melhor filme do ano...e não é pela dimensão que o filme está ganhando, mas é difícil não confessar que Padilha fez por merecer!
Abraço

rics disse...

Assisti ao filme ontem e não dormi direito. É realmente um tapa na cara.

Ramon Scheidemantel disse...

Filmão! Ao lado de Cidade de Deus, mais um grande fênomeno do cinema nacional. Sugere reflexão e reavaliação do sistema de segurança do país. Tudo através de um grande entretenimento!
Fantástico!

Kamila disse...

Dudu, "Tropa de Elite" é isso mesmo que você escreveu no seu texto. O maior mérito do filme é fomentar discussões. E isso acontece porque ele mexe com a nossa passividade diante daquelas duas grandes feridas do Brasil: a violência e a corrupção.

Belo texto!!

Surfista disse...

Opa! Estava esperando a sua avaliação do filme. Já vi em versão pirata e na telona. A experiência no sala escura é incrivelmente mais densa, o que é óbvio. As discussões levantadas são ótimas e ouço críticas e elogios com igual pertinência. Qual dos dois estará correto? Qual a razão do frenesi das platéias que vibram com cada bandido esfolado? Sei lá, essa pica não é mais minha Essa pica é do aspira.

Rodrigo disse...

Ele me lembrou Nascido Para Matar em alguns momentos mesmo! Interessante isso...

Hugo Norte disse...

Concordo com tudo o que você escreveu.
Muito interessante a maneira nua e crua como são mostradas as peças dessa engrenagem podre que é a sociedade carioca. Como estão intimamente relacionados os figuões, o pm, o traficante, o jovem de classe média que se drogae os pais desses que fazem passeatas pela paz.
Sensacional!
Bem, como eu ia dizendo...a palavra "estratégia"...