terça-feira, março 27, 2007

#23 - Jesus Camp, de Heidi Ewing e Rachel Grady


Assustador. Perturbador. Bizarro. São só alguns adjetivos para este documentário extremamente bem realizado.

À primeira vista, nem parece que vai ser assim. O tema é simples, religioso: a câmera acompanha, com certo distanciamento, uma colônia de férias para crianças. No comando, uma missionária de uma igreja evangélica petencostal. Porém, bastam cinco minutos e pronto, já se está chocado com o que se vê.

Meninos e meninas de cinco anos em transe, chorando copiosamente, levando as mãos ao céu, rezando em línguas inteligíveis, caindo no chão em convulsões, se sentindo culpadas e, mais ainda, amedrontadas pela possibilidade de que um diabo lhes espete o traseiro com um tridente afiado. Tudo isso em nome de um deus.

Ao longo do filme, o espectador vai conhecendo melhor não só as crianças, mas também a líder deste pequenino rebanho, Becky Fischer: uma senhora que afirma ser a dona da verdade, apóia o presidente George W. Bush, proíbe Harry Porter, condena crianças muçulmanas e acha que, de fato, o seu deus quer não só uma nação, mas um mundo inteiro cristão.

A mistura religião/política é muito bem conduzida. Estado laico? Eles, os estadounidenses, não sabem mais o que é isso. E nós, em breve, também não saberemos?

Tecnicamente, a montagem do documentário é perfeita. Enquadramentos fantásticos, excelente trilha sonora e uma fotografia de tirar o chapéu contribuem para tornar o clima ainda mais soturno e sombrio.
Não foi à toa que o filme rendeu críticas fervorosas e gerou muita polêmica. Becky Fischer não gostou nada do resultado final do filme. Agora, além de repudiarem livros, programas de TV, músicas e tais coisas, eles também odeiam cinema. Mas é tudo verdade.

segunda-feira, março 26, 2007

#22 - Scoop, o grande furo (Scoop), de Woody Allen


Eu achei que fosse quebrar a cara de vez. Vinha de uma excelente seqüência de filmes de Woody Allen. Não cheguei a enterrar de vez a certa implicância que tenho com ele, mas me diverti um bocado.

Quando Allen não faz papel de escritor maníaco depressivo em crise que quer comer a psicóloga gostosa, e quando o roteiro não gira em torno da bizarra e estranha sexualidade foucaultiana, eu gosto do filme. Foi assim com várias películas, como "Zellig", "Poucas e Boas" e "Match Point". Aqui não é diferente. E, como acontece nos bons filmes dele, o roteiro é comum, criativo, curioso: o fantasma de um jornalista repassa a uma estudante uma pista do que pode ser um grande furo de reportagem - a identidade do serial killer conhecido como Assassino do Tarô.

A partir daí, o que se segue é uma enxurrada de piadas inteligentes, posicionadas milimétricamente nos bons diálogos. É quase impossível não rir aquele riso fleumático, sem exageros, gostoso.

As atuações estão ótimas. Woody ainda me incomoda um pouco com aqueles tiques e aquela gaguice que, a mim, parece forçosa demais (li que, quando criança, ele era gago de verdade. Será?). Porém, o casal Scarlett Johansson e Hugh Jackman está sensacional. O senhor Wolverine sem garras mutantes e roupa colante prova que é polivalente. Quanto à protagonista, parece que o casamento, não no sentido bíblico, com Woody Allen (no caso dele, é bom alertar) deu muito certo. Perfeita, com um roteiro pensado e escrito para ela.

Diversão garantida.

terça-feira, março 20, 2007

#21 - Clerks II, de Kevin Smith


Sem dúvida, "Clerks" é um dos meus filmes prediletos. Orçamento de pouco mais de US$25 mil, filmado em p&b, com diálogos dos mais saborosos até hoje escritos para a grande tela e com aquele ar meio Jim Jarmusch juvenil. Já o vi e revi várias vezes e continua sendo prata da casa.

"Clerks II" é diferente. Kevin Smith já é diretor consagrado, reconhecido e respeitado a ponto de conseguir orçamentos bem maiores para filmar o que quiser (que assim seja por muito tempo). Seqüências sempre assustam, mas esta aqui não é exatamente uma seqüência, e sim uma ode. Uma homenagem a um dos filmes mais inventivos e criativos da nova safra de diretores, da qual Smith faz parte.

Dante e Randal estão de volta, trabalhando em uma rede de fast food após um fatídico incêndio no Quick Stop. Durante a projeção, várias personagens antigas do primeiro filme dão o ar da graça. E como não podia deixar de ser, o roteiro é recheado por filosofias cinematográficas, sexuais e pops. Como, por exemplo, o maravilhoso debate sobre a homossexualidade de Sam Gamgi, o hobbit de "Senhor dos Anéis". Aliás, há várias piadas sobre o anel, todas hilárias.

Jay e Silent Bob, o próprio Kevin Smith, também estão lá, enconstados na parede e vendendo suas "merdas".

O melhor é a indicação etária do fime:

"Sexo perversivo e conteúdo cruel, incluindo aberrações sexuais, liguagem ofensiva e drogas."

Perfeito!

#20 - Meu encontro com Drew Barrymore (My date with Drew), de Jon Gunn e Brian Herzlinger


Pelo nome e, mais ainda, pela capa do filme, parece ser mais uma comédia romântica no estilo das muitas feitas pela atriz-título. Que nada. Trata-se de um divertidíssimo documetário sobre um cara normal que resolve realizar um sonho: ter um encontro com sua musa desde a mais tenra infância. Para ser mais preciso, desde a estréia de "E.T.".

Está mais que provado que, para um bom documentário funcionar, é preciso uma boa idéia que ninguém teve antes. Mesmo que ela pareça ridícula e boboca, como é o caso de um encontro com Drew Barrymore. No fundo, o filme fala sobre uma pessoa normal tentando se aproximar de outra que, forçosamente, devido ao sistema de estrelas de Hollywood, acaba se tornando inacessível, inalcansável, uma mera imagem.

Durante a saga para conseguir realizar seu sonho, o rapaz peludo, cheio de cravos e um pouco acima do peso não mede esforços. Com pouco mais de US$1 mil no bolso, ganhos em um quiz de TV cuja resposta era Drew Barrymore, e uma câmera adquirida gratuitamente por 30 dias na Circuit City, famosa loja de eletrônicos nos EUA, o cara tenta se aproveitar da teoria dos seis graus para se aproximar da musa.

Há momentos hilários, como o que ele se encontra com um locutor, quer dizer, "o" locutor, de trailers de cinema - George DelHoyo. Sim! Aquele cara que fala o nome dos atores, do tipo: "Robert Downey Jr., Sean Penn, Emilio Estevez... This summer... they are back... for... revenge!".

Esta boa idéia já foi usada. Arranje outra musa.

segunda-feira, março 19, 2007

#19 - Um convidado bem trapalhão (The party), de Blake Edwards


Eu sempre gostei da atuação de Peter Sellers como Dr. Fantástico e como o inspetor Jacques Clouseau. Alguns fãs fervorosos do ator inglês me indicaram "Um convidado bem trapalhão" como um de seu melhores trabalhos. Porém, não posso concordar com eles.
Não que o filme seja ruim. A condução do roteiro e da ação é bem ágil, com um bom ritmo. Aliás, timing para comédia, inegavelmente, Sellers tem de sobra. A expressão corporal de sua personagem, o ator indiano Hrundi V. Bakshi, é levada ao extremo - até mesmo porque ele mal fala inglês. O problema fica com o conteúdo.
Reza a lenda que Blake Edwards deixou o filme rolar solto, meio sem piadas previamente definidas. Prova disso é o roteiro de pouco mais de 60 páginas para um filme de hora e meia. Só que o riso não vem facilmente, sabe?
Não dá para entender o comentário do mestre Henry Mancini, que assina a trilha sonora. Segundo ele, quando se escreve uma música bonita para uma boa comédia, mal se pode ouvi-la por causa das gargalhadas. Eu a ouvi direitinho. E gostei muito, inclusive.
É, eu fico com Dr. Fantástico.
PS: Em breve, outro filme de Peter Sellers.

segunda-feira, março 12, 2007

#18 - Nacho Libre, de Jared Hess


Eu tenho certeza que isso vai acontecer: um monte de gente vai ao cinema esperando uma comédia rasgada, risos fáceis e Jack Black em números hilários, mas acaba saindo no meio, sem achar graça nenhuma. Quem se der ao trabalho de ler o nome do diretor, vai logo notar que não é mais uma daquelas hilariantes superproduções hollywoodianas. Jared Hess é um cara diferente, haja visto 'Napoleon Dynamyte', aí em baixo.

Mais uma vez, como acontece também no supracitado, o bacana de Nacho Libre não são as piadas, e sim o que as rodeia. É saber aproveitar o que de melhor um tema pode oferecer. No caso de um padre que quer participar da luta livre mascarada mexicana: lutadores divertidos, coreografias engraçadas, direção de arte impecável e uma fotografia que recria com perfeição o árido das pequenas cidades mexicanas.

Jack Black, o tal clérigo que à noite vira Nacho, o lutador mascarado, dá conta do recado, com uma caracterização perfeita, trejeitos na medida certa e, claro, um número musical bem esquisitão, quando interpreta a canção 'Encarnación'. Destaque para seu companheiro, o excelente Héctor Jiménez, que interpreta Esqueleto.

O que é digno de nota em 'Nacho Libre' é a direção de arte. Uma comédia cujo o destaque é a direção de arte. Estranho, né? Mas é isso mesmo...

Um bom filme, uma boa história, um bom diretor e um bom protagonista.