domingo, janeiro 07, 2007

#4 - O rei da comédia (The king of comedy), de Martin Scorsese


Comédia boa é aquela que, ao invés de provocar gargalhadas pontuais, uma aqui e outra acolá, deixa você com um sorriso contínuo. Junte a direção de Martin Scorsese, seu velho parceiro Robert De Niro e o mito Jerry Lewis. E o que temos? Uma comédia séria. Muito séria.

O filme fala sobre um aspirante a comediante (De Niro, no papel de Rupert Pupkim) que, frustrado com a falta de atenção de seu ídolo (Lewis, no papel de Jerry Langford), resolve seqüestrá-lo e assumir o seu lugar no comando de um programa humorístico. Scorsese aproveita para mostrar o lado negro da comédia. Mais que isso, faz um minucioso relatório sobre a fragilidade daquele que, como um palhaço, maquiado, faz os outros rirem.

A parceria De Niro-Scorsese já havia funcionado antes, e muito bem: "Taxi Driver" e "Touro Indomável". O bacana é ver Lewis se desdobrando para fazer um papel quase, eu disse quase, biográfico e penando para se encaixar na metodologia de trabalho de Scorsese. Reza a lenda que, durante as primeiras semanas de filmagem, o comediante quase desistiu da produção. Ele era levado à exaustão tanto pela direção, quanto pelo jogo interpretativo que os atores propunham em cena.

Scorsese deixou o improviso correr solto, o que incomodou Lewis, egresso de uma escola de interpretação bem diferente. Em uma cena onde Rupert invade a casa de campo de Langford, os dois começam a discutir rispidamente. Para incitar um maior realismo à seqüência, De Niro começou a fazer comentários anti-semistas, o que teria irritado profundamente Lewys. Em outro momento do filme, talvez um dos melhores, a insana amiga de Pupkim, Masha (Sandra Bernhard, em uma atuação digna de nota), tenta seduzi-lo enquanto ele está amarrado a uma cadeira. Tudo no improviso.

Exatamente como os melhores shows e programas de comédia são: improvisados.

Um comentário:

Gontijo disse...

Esse filme na época do lançamento foi um tremendo fracasso. Nem critica, nem público o compreenderam. Porém, eu penso que este filme previa a nossa entrada nessa era de celebridades. Ser uma celebridade tem maior importancia do que a arte ou trabalhe que se ira ou foi produzido. Vale a pena dar uma olhada nos extras do DVD...