sexta-feira, janeiro 05, 2007

#3 - Crepúsculo dos deuses (Sunset Boulevard), de Billy Wilder


Um clássico. Tanto o filme, quanto o seu título - muito lembrado nas brincadeiras de mímica. Trata-se de uma obra-prima, com toda a técnica cinematográfica empregada no seu máximo rigor. E, aqui, o que vale é inverter o paradigma: a arte imita a vida!

O tema: como a indústria cinematográfica pode ser macabra. O momento: a chegada do som no cinema. O cenário: Hollywood. A história: uma famosa atriz de filmes mudos, agora esquecida pelos estúdios, se envolve com um roteirista meia-boca endividado.

E por que a arte imita a vida?

Gloria Swanson interpreta Norma Desmond, a tal atriz renegada ao limbo. Na época, Swanson passava pela mesma situação. Wilder fez com que sua carreira retomasse os eixos anos após seu fracasso nas telas, em um filme dirigido pelo sujeito que, aqui, interpreta o mordomo, Erich Von Stroheim. E mais: há uma cena onde Norma mostra ao roteirista, Joe Gillis (William Holden), um filme de sua época de ouro. Justamente a tal produção que ancorou sua carreira na vida real.

Isso sem contar a melancólica cena em que Norma joga cartas com outros atores de cinema mudo, igualmente esquecidos. Um dos jogadores é ninguém mais, niguém menos, que Buster Keaton!

O recheio do filme é completo: tem crime, mordomo, mansões e tiradas sensacionais. A diferença é o tom com que tudo isso foi dirigido pelo experiente Billy Wilder. O cara tinha um pé na bizarrice. Em 1950, bizarrices! Como a cena em que um chimpanzé de estimação é enterrado.

E poderia ser bem mais bizarro. O roteiro, para a época, era inovador. Não me arrisco a dizer que foi a primeira, mas deve ter sido a segunda ou terceira vez que uma história era contada a partir de seu desfecho: um jovem morto na piscina da mansão de Norma Desmond. Na verdade, a seqüência inicial era para ser outra, que inclusive chegou a ser filmada. Nela, dois cadáveres, daqueles com etiquetas no dedão do pé, conversam sobre o assassinato. Bizarro, não? Porém, a seqüência foi descartada porque, durante uma exibição antes do lançamento oficial, a platéia não conteve as gargalhadas, o que não condizia com o resto do clima que a história propunha.

Durante quase duas horas de projeção eu vi ali um pouco dos personagens assustadores dos filmes de David Lynch, a Hollywood apoteótica dos livros de John Fante e os desfechos sombrios das peças de Neil LaBute. Enfim, uma obra fundamental.

2 comentários:

Jo disse...

tá indo deveras bem, não-cinéfilo!
volto para os comments, após assisti-lo.

zE disse...

Ótimo filme! Um clássico! Já vi várias vezes e vou continuar vendo. Filme obrigatório pra que gosta de cinema.. daqueles que vc tem que comprar!