domingo, janeiro 28, 2007

#8 - Zelig, de Woody Allen


Depois de muito torcer o nariz para Woody Allen, eu ando quebrando a cara. Não que eu esteja ficando mais velho, mais maduro ou mais preparado para entender os filmes dele - como muita gente pode pensar. De jeito nenhum! É que só agora eu venho assistindo aos títulos certos.

Um deles é este aí, "Zelig", um documentário fake (como eu gosto de documentários fakes!) que conta a história do Homem-Camaleão. Leonard Zelig possui a estranha característica de ganhar as mesmas feições e traços de quem quer que esteja ao seu lado. Ele vira objeto de estudo para a comunidade científica e uma estrela de carreira meteórica para a grande mídia.

O filme mistura imagens de arquivo das décadas de 20 e 30 com cenas gravadas utilizando-se os mesmos recursos de antigamente. O resultado é uma divertida comédia, com um roteiro que dá margens à passagens incríveis. Como a que conta sobre a música que Cole Porter tentou fazer para Zelig, abandonada porque o compositor não achou nada que rimasse com o nome da celebridade.

Lá no fundo, bem lá no fundo, há uma severa crítica ao sistema que constrói e destrói ícones com espantosa facilidade. Utilizar a linguagem documentacional para desenrolar este argumento é genial.

Em épocas de Big Brother, vale repensar este assunto. Um bom passatempo para as mesas de bar.

Então, um brinde aos bons, mas somente aos bons, filmes de Woody Allen!

segunda-feira, janeiro 15, 2007

#7 - Os embalos de sábado à noite (Saturday night fever), de John Badham


No ano em que eu nascia, lá estavam as costeletas, cabelos engomados, calças boca-de-sino, camisas estampadas de seda,pista de dança iluminada e Bee Gees. Muito Bee Gees. Ainda bem que eu era minúsculo nesta época.

E ainda bem que este clássico ocupa as prateleiras das dvdtecas dos meus melhores amigos. Assim, é possível revê-lo sempre que der vontade. Como neste fim de semana. O vizinho de uma grande amiga estava dando uma festa. Horas tantas, todos alcoolizados, começa o festival de anos 70: de "YMCA", do Village People, a "I will survive", de Gloria Gaynor, passando pelo clássico "Staying alive".

Coreografias de lado, vamos ao que interessa... O filme.

É indiscutível que algumas cenas ficaram imortalizadas na história do cinema. Sendo assim, é possível reconhecer diversos outros filmes que beberam na fonte dos passos e coreografias de Tony Manero.

O argumento é bem fraquinho: aquela coisa de sempre sobre segregação nos bairros mais pobres de Nova York, as gangs, a intolerância entre latinos e italianos, a rebeldia juvenil. Tem os pais implicando com o rapaz de cabelo engomado, o garoto que cai da ponte, briga de rua... A diferença está nos números musicias, com o famoso passo no qual o dedo indicador sobe e desce, sobe e desce, sobre e desce (confesse, em casamentos e festas anos 80, quando toca Bee Gees, você também faz esse passo...).

Manero virou até gíria aqui no Rio. E não sou eu quem inventou isso, não. Consta nos arquivos do IMDB.

#6 - Mundo Cola (The Cola Conquest), de Irene Lilienheim Angelico


Eu nem gosto tanto de Coca-Cola. Inclusive, eu deixo a tampa da garrafa levemente solta que é para o gás sair. Sim, eu bebo Coca-choca. Sem gás.

E este documentário "é isso ái" (parafraseando o slogan deles): falta gás. Falta ritmo, falta polêmica, falta coesão. O filme é dividido em três cansativos episódios: um que fala sobre a gênese, outro sobre a guerra contra a Pepsi e mais um que mostra a Coca ao redor do mundo.

Depois de ver documentários tão bons no ano passado, principalmente "The Corporations", fica difícil achar este aqui contundente.

terça-feira, janeiro 09, 2007

#5 - Missionários, de Cleisson Vidal e Andréa Prates


Uma amiga minha, que tem um trabalho voltado à "re"-socialização de penitenciários, me emprestou este documentário. Ele mostra desde a gênese até os diversos caminhos percorridos por uma banda de rock composta por quatro condenados, três deles por latrocínio (na foto, apenas os dois do meio fazem parte do grupo). Fãs de Legião Urbana, foi atrás das celas que eles aprenderam a tocar instrumentos, a compor e a mostrar que a liberdade, aquela que tanto falam em canções, está dentro de cada um.

Muito bom. Muito bom mesmo! Só o rock... Ceticismo de lado: é cafona, mas fecho com Paul Stanley & cia.

"God gave rock and roll to you, gave rock and roll to you
Gave rock and roll to everyone
God gave rock and roll to you, gave rock and roll to you
Put it in the soul of everyone"

PS: Quem estiver interessado em assistir ao documentário, me avise!

domingo, janeiro 07, 2007

#4 - O rei da comédia (The king of comedy), de Martin Scorsese


Comédia boa é aquela que, ao invés de provocar gargalhadas pontuais, uma aqui e outra acolá, deixa você com um sorriso contínuo. Junte a direção de Martin Scorsese, seu velho parceiro Robert De Niro e o mito Jerry Lewis. E o que temos? Uma comédia séria. Muito séria.

O filme fala sobre um aspirante a comediante (De Niro, no papel de Rupert Pupkim) que, frustrado com a falta de atenção de seu ídolo (Lewis, no papel de Jerry Langford), resolve seqüestrá-lo e assumir o seu lugar no comando de um programa humorístico. Scorsese aproveita para mostrar o lado negro da comédia. Mais que isso, faz um minucioso relatório sobre a fragilidade daquele que, como um palhaço, maquiado, faz os outros rirem.

A parceria De Niro-Scorsese já havia funcionado antes, e muito bem: "Taxi Driver" e "Touro Indomável". O bacana é ver Lewis se desdobrando para fazer um papel quase, eu disse quase, biográfico e penando para se encaixar na metodologia de trabalho de Scorsese. Reza a lenda que, durante as primeiras semanas de filmagem, o comediante quase desistiu da produção. Ele era levado à exaustão tanto pela direção, quanto pelo jogo interpretativo que os atores propunham em cena.

Scorsese deixou o improviso correr solto, o que incomodou Lewis, egresso de uma escola de interpretação bem diferente. Em uma cena onde Rupert invade a casa de campo de Langford, os dois começam a discutir rispidamente. Para incitar um maior realismo à seqüência, De Niro começou a fazer comentários anti-semistas, o que teria irritado profundamente Lewys. Em outro momento do filme, talvez um dos melhores, a insana amiga de Pupkim, Masha (Sandra Bernhard, em uma atuação digna de nota), tenta seduzi-lo enquanto ele está amarrado a uma cadeira. Tudo no improviso.

Exatamente como os melhores shows e programas de comédia são: improvisados.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

#3 - Crepúsculo dos deuses (Sunset Boulevard), de Billy Wilder


Um clássico. Tanto o filme, quanto o seu título - muito lembrado nas brincadeiras de mímica. Trata-se de uma obra-prima, com toda a técnica cinematográfica empregada no seu máximo rigor. E, aqui, o que vale é inverter o paradigma: a arte imita a vida!

O tema: como a indústria cinematográfica pode ser macabra. O momento: a chegada do som no cinema. O cenário: Hollywood. A história: uma famosa atriz de filmes mudos, agora esquecida pelos estúdios, se envolve com um roteirista meia-boca endividado.

E por que a arte imita a vida?

Gloria Swanson interpreta Norma Desmond, a tal atriz renegada ao limbo. Na época, Swanson passava pela mesma situação. Wilder fez com que sua carreira retomasse os eixos anos após seu fracasso nas telas, em um filme dirigido pelo sujeito que, aqui, interpreta o mordomo, Erich Von Stroheim. E mais: há uma cena onde Norma mostra ao roteirista, Joe Gillis (William Holden), um filme de sua época de ouro. Justamente a tal produção que ancorou sua carreira na vida real.

Isso sem contar a melancólica cena em que Norma joga cartas com outros atores de cinema mudo, igualmente esquecidos. Um dos jogadores é ninguém mais, niguém menos, que Buster Keaton!

O recheio do filme é completo: tem crime, mordomo, mansões e tiradas sensacionais. A diferença é o tom com que tudo isso foi dirigido pelo experiente Billy Wilder. O cara tinha um pé na bizarrice. Em 1950, bizarrices! Como a cena em que um chimpanzé de estimação é enterrado.

E poderia ser bem mais bizarro. O roteiro, para a época, era inovador. Não me arrisco a dizer que foi a primeira, mas deve ter sido a segunda ou terceira vez que uma história era contada a partir de seu desfecho: um jovem morto na piscina da mansão de Norma Desmond. Na verdade, a seqüência inicial era para ser outra, que inclusive chegou a ser filmada. Nela, dois cadáveres, daqueles com etiquetas no dedão do pé, conversam sobre o assassinato. Bizarro, não? Porém, a seqüência foi descartada porque, durante uma exibição antes do lançamento oficial, a platéia não conteve as gargalhadas, o que não condizia com o resto do clima que a história propunha.

Durante quase duas horas de projeção eu vi ali um pouco dos personagens assustadores dos filmes de David Lynch, a Hollywood apoteótica dos livros de John Fante e os desfechos sombrios das peças de Neil LaBute. Enfim, uma obra fundamental.

terça-feira, janeiro 02, 2007

#2 - Uma vida iluminada (Everything is illuminated), de Liev Schreiber


Ah... o cinema independente estadounidense distribuído pela Warner. Tiro meu chapéu para ele. Tinha tudo para dar errado: Frodo Baggins como protagonista e estréia como diretor do outrora ator Liev Schreiber - aquele de "Pânico" (fez todos os três, como Cotton Weary)e "Denise está chamando" (um clássico de aulas de Teoria da Comunicação). E não é que deu certo? Bem certo!

A história é simples: um rapaz que coleciona diversos objetos e itens familiares, todos meticulosamente organizados em saquinhos zip-zipa-tudo, vai à Ucrânia para encontrar a mulher que salvou seu avô da perseguição nazista. Parece pesado. E é, de certa forma. Só que também é muito divertido.

O filme é uma aula de como desenhar personagens interessantes. São todos rasos, acessíveis, transparentes. Porém, sem perder o conteúdo. Do obsessivo colecionador de lembranças, Jonathan Safran Foer, à cadela, em atuação magistral, Sammy Davis Jr Jr. Tem tudo que o cinema independente tem de bom. Principalmente aquela liberdade para criar cenas insólitas, seqüências desnecessariamente adoráveis e trilha sonora minuciosamente escolhida - no caso, aqui, música judaica tradicional.

O estranho é que as cenas excluídas, que vêm como extra no DVD, são maravilhosas! Se eu fosse o diretor (é, mas não sou! Iai!), elas estariam lá. Como, por exemplo, a passagem em que a cadela se apaixona pelo protagonista. Ou então, uma cena fundamental, logo no início do filme, que mostra como começou a mania de Jonathan em "guardar", e não em "se desfazer".

Pensando bem, até entendo o diretor. Talvez, com a inserção dessas cenas, sua produção independente perderia carga dramática, uma vez que trata-se de uma comédia dramática. E aí, ficaria com muita cara de filme independente.

Belo trabalho, Cotton Weary. Quer dizer, Liev Schreiber!

segunda-feira, janeiro 01, 2007

#1 - Estrela Solitária (Don't come knocking), de Wim Wenders


Um bom filme para começar o ano. Ok, não chega aos pés de "Paris, Texas", nem de "O céu de Lisboa". Porém, ainda assim é poesia visual, com aquele toque preciso do Wenders. Planos longos, cenários exóticos e diálogos deliciosos. Conta a história de um ator de westerns que, entediado e alcoolizado, abandona o set de filmagem e parte em busca da reconstrução do seu passado. Lembra um pouco a temática de "Paris, Texas", né? Ainda mais se eu disser que a paisagem escolhida é o deserto do oeste estadounidense. E mais ainda se eu disser que Sam Shepard pôs o dedo no roteiro de ambas as produções.

Destaque para Gabriel Mann no papel de um músico country neurastênico e problemático. Seus números musicais são imperdíveis. O bom gosto do diretor para a música já havia sido provado há tempos - vide a parceria com Ry Cooder ("Paris, Texas" e "Buena Vista Social Club"). Desta vez, Wenders juntou um time fantástico, que dá um tom mais árido e melancólico para a country music.

Resumindo: tem tudo para agradar a quem gosta de um bom road movie, daqueles que não necessariamente precisam ser a 180 km/h.