quinta-feira, dezembro 27, 2007

#92 - Ano passado em Marienbad (L'année dernière à Marienbad), de Alain Resnais


Sim, é uma história de amor. Sim, ambientada em um belo hotel. E, sim, envolvendo um intrigante triângulo amoroso. Os ingredientes podem até parecer romanescos demais. Porém, tratando-se de Alain Resnais, é um cinema muito diferente do que se costuma ver por aí.

A história gira em torno de um sujeito, X, obcecado por uma bela mulher, A, acompanhada por um frio e misterioso homem. Todos hospedados em um luxuoso e suntuoso hotel em Marienbad. Segundo X, os dois já haviam se encontrado anteioromente, há um ano. Ela diz não se lembrar, enquanto ele tenta convencê-la a largar tudo e fugir para viverem juntos. O que se segue é um jogo de sedução onde memória e lirismo se fundem. Testemunha-se, por entre os corredores retos e intermináveis do hotel, a incapacidade de concretização do desejo entre A e X, bem como a distância de um e do outro em um alfabeto.


A arquitetura clássica, quase barroca, do hotel se mistura perfeitamente ao roteiro, tornando-se praticamente um personagem. Espelhos, estátuas, objetos de decoração e um gigantesco jardim servem de moldura para enquadramentos requintados e angulosos, deixando o filme com uma aura de obra de arte. O simbolismo e as comparações com Bergman, inevitavelmente, se tornam muito fortes. A fotografia p&b chega a brilhar de tão bem cuidada. É cinema de luxo, de arte, na mais pura acepção da palavra.

O tempo narrativo é longo, quase estático. Uma locução repetitiva e monocórdica pontua com perfeição a frieza na maneira como uma paixão fugaz é contada por Resnais. As atuações são teatrais, com a valorização da expressão corporal de todos os atores - principalmente do casal protagonista.

Mais do que um filme, uma verdadeira obra de arte.

sábado, dezembro 22, 2007

#91 - Death proof, de Quentin Tarantino


Se fosse para escolher qual dos dois filmes levar para casa, "Planet terror" ou "Death proof", certamente ficaria com o segundo. Road movies furiosos me atraem mais do que zumbis comedores de cérebro. Portanto, depois de conferir e gostar do que Rodriguez fez em seu segmento de "Grindhouse", não pude aguentar a ansieadade e baixei "Death proof", o segmento de Tarantino, que por aqui só vai ganhar as grandes telas em março do ano que vem.

Esteticamente, apesar da semelhança de propostas, o filme de Tarantino é muito superior ao de Rodriguez. Ainda que conte com os mesmos recursos para dar efeito de falha nos fotogramas, com cortes abruptos, quedas no áudio e muitos arranhões na cópia, os enquadramentos são simplesmente sensacionais. Lembram muito as produções baratas, porém extremamente caprichadas, de Russ Meyer. Capricho também na trilha sonora, na escolha do elenco e, principalmente, nos diálogos - marca registrada de Tarantino.

O roteiro é fiel ao cinema trash com conteúdo. Nada de novo: um dublê alucinado dirige um carro negro "à prova de morte" com o qual inferniza a vida de outros motoristas. Para ser mais preciso, de "outras" motoristas. E algumas dessas motoristas também são más, fazendo claras referências ao trio de "Faster, pussycat! Kill! Kill!", de Meyer.

Aliás, referências não faltam em "Death Proof". Tarantino brinca com sua própria filmografia o tempo todo. Utiliza as cores de "Kill Bill", as músicas de "Jackie Brown", as sequências de "Cães de aluguel" e uma penca de outros detalhes que, para os conhecedores da obra do diretor, são um deleite!

Um filme que vale muito ser conferido na tela grande. Agora é aguardar...

quinta-feira, dezembro 20, 2007

#90 - Planet terror, de Robert Rodriguez

O problema com a maioria dos filmes de zumbis é que eles se levam a sério demais. Não os zumbis, mas os filmes. Pode até dar medo, ou fazer com que você esconda o rosto por detrás de uma almofada, ou deixe os dedos caírem levemente sobre os olhos enquanto finge estar coçando a testa. Em "Planet Terror", nada é levado a sério, e esse é o grande trunfo do diretor Robert Rodriguez.


A premissa é clássica: um gás biológico é lançado sobre uma cidade e transforma os moradores em espécies de zumbis deformados que se alimentam de tripas humanas. Previsível. Porém, o recheio do roteiro é que dá o tom diferencial que Rodriguez busca em todos os seus filmes. São milhares e milhares de intermináveis clichês de filmes de zumbis, mas todos recheados com diálogos insólitos, ações inesperadas e desfechos inverossímeis. Marca registrada do diretor.

Para fazer com que o espectador entre mais ainda no clima, os fotogramas foram desgastados propositalmente para dar a sensação de se estar realmente diante de uma pérola do cinema trash, exatamente como era feito no começo da década de 70 - o que pode parecer um retrocesso na técnica aos mais desavisados. Logo, montagem, fotografia e edição são experimentações cinematográficas que tornam a produção de Rodriguez ainda mais atraente. Fica nítida a habilidade do diretor em fazer e reinventar cinema.

Talvez o único problema de "Planet Terror" seja a quantidade absurda de sangue, gosmas e restos putrefatos dos pobres personagens. Algumas cenas e as maquiagens são completamente toscas, mas é um pouco incômodo ter que agüentar quase duas horas de exploitation puro. Precisa ter um pouco de estômago. Além dos que você vai ver na tela.

O destaque, indubitavelmente, fica por conta das cenas com a bela Rose McGowan, que interpreta Cherry Darling, a tal dançarina que tem no lugar da perna amputada um fuzil. Suas cenas são realmente inesquecíveis.

Uma grande, e nojenta, mais nojenta do que grande, inclusive, homenagem ao cinema trash.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

#89 - The Devil and Daniel Johnston, de Jeff Feuerzeig


Pouca gente sabe quem é Daniel Johnston. Porém, quem é fã de Pearl Jam, Sonic Youth ou Nirvana, talvez já tenha estado muito perto da obra desse artista e compositor sem saber. No premiado documentário de Jeff Feuerzeig, Daniel, sua família, seus trabalhos, seus amigos e seus demônios são revelados em fotograma.

Com um extenso arquivo de imagens e áudios, Feuerzeig vai mostrando aos poucos como Daniel Johnston, que era maníaco depressivo, se tornou um ícone nos bastidores da música. Vindo de uma família religiosa da Virginia, afirmava ser perseguido pelo Diabo. Apesar de levar uma vida conturbada, com freqüentes internações em hospitais psiquiátricos e prisões por comportamento agressivo, conseguiu chamar a atenção de músicos e produtores com suas composições sinceras e diretas. Tecnicamente, nada demais: ele mesmo gravava fitas cassete tocando violão e cantando e desenhava à caneta todas as artes que ilustravam seus álbuns. O diferencial estava justamente no conteúdo, extraordinariamente lírico e verdadeiro. Obra tão valorosa, que foi executada por mais de 150 artistas: Tom Waits, Beck, Mercury Rev, Flaming Lips, Wilco, Teenage Fanclub e mais uma penca de gente boa, além dos supracitados.

A montagem do documentário é sensacional. Nada fica de fora, nenhuma passagem é descartada e o rico material de arquivo é bem dosado com as entrevistas. Inclusive, uma ótima com Gibby Haynes, vocalista do Butthole Surfers, enquanto faz uma obturação no dentista.

Denso, tocante, bizarro e bem feito. "The Devil and Daniel Johnston" venceu o prêmio de melhor direção no Festival de Sundance em 2005. Premiação justíssima!

domingo, dezembro 09, 2007

#88 - Electroma, de Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo


A dupla francesa de produtores e dj's Daft Punk já havia provado que seu trabalho vai muito além do som. É estético também. Prova disso foi o show que fizeram por aqui na edição de 2006 do Tim Festival: impecável e intenso. Uma experiência visual e musical inesquecível.


Como em "Interstella 555", anime que contava a história do disco "Discovery", "Electroma" conta a história do álbum "Human after all". Porém, diferentemente do primeiro, que tinha como roteiro todo o playlist do respectivo disco, este segundo trabalho foca apenas no conceito: os dois robôs, membros do Daft Punk, tentam se transformar, finalmente, em seres humanos.

O que se segue é um trabalho impecável de experimentação cinematográfica. Nada de luzes piscantes, vozes robóticas, samplers acelerados ou bate-estacas. "Human after all", dirigido e escrito pela dupla, é uma jornada densa e melancólica. Com direito a planos longos, fotografia caprichada e trilha sonora que passa longe do eletrônico.

Em pouco mais de uma hora, o que se vê na tela é pura poesia visual. Cenas inesquecíveis como um show do Daft Punk. Lembra um pouco Tarkovsky, com sua temporalidade lírica, lenta, rígida e silenciosa. Aliás, não há um "ai" durante todo o filme.

Isso sim é arte.

terça-feira, dezembro 04, 2007

#87 - Eu, um negro (Moi, un noir), de Jean Rouch

Jean Rouch, antes de um belo cineasta, foi também um soberbo etnógrafo. Depois de uma expedição pelo Rio Níger, no qual teve contato com a cultura e o povo africano, resolveu que era hora de documentar o que havia experimentado. Nascia, então, um dos mais importantes e influentes documentaristas do nosso tempo.

Em "Eu, um negro", estupenda obra de ficção com traços documentacionais, Rouch traz à tona os problemas decorrentes da descolonização africana. Um grupo de jovens abandona sua terra natal, a Nigéria, para tentar uma vida melhor na Costa do Marfim. O filme, de 1959, é considerado um marco no cinema francês por sua linguagem extremamente contemporânea e montagem singular para os padrões da época. O protagonista, Robinson, narra livremente a colagem de imagens exibidas na tela, organizada pelos dias da semana. Durante os dias úteis, trabalho. Nos finais de semana, boxe e dança.

Em busca de uma identidade ideal, aos moldes ocidentais, Robinson e seus amigos procuram se comparar a ícones da cultura européia e estadunidense. Apaixonado por boxe, ele se transforma em Sugar Ray Robinson. Já seu companheiro, por julgar-se parecido com o ator estadunidense, passa a se chamar Eddie Constantine.

Rouch foi responsável pelo que mais tarde convencionou-se chamar de Cinema Verdade - corrente que influenciou uma penca de grandes realizadores. Por exemplo: o filme "Acossado", de Godard, inicialmente se chamaria "Moi, un blanche" (Eu, um branco). Para citar alguns brasileiros que beberam na fonte do etnógrafo francês: os competentes Eduardo Coutinho e João Moreira Salles. Ou seja, dá para perceber que o cara é bom!

Entrou fácil na minha lista de top 20...

quinta-feira, novembro 29, 2007

#86 - Attack of the 50 ft woman, de Nathan Juran


Uma mulher de estatura baixa com hormônios descompensados e enfurecida pode ser um perigo na vida de alguns homens. Agora, imagine uma mulher de 50 pés de altura, com os hormônios descompensados afetados por uma estranha radiação alienígena e irada por saber que seu marido não passa de um cafajeste interessado apenas em seu dinheiro?

Deliciosa e iconoclástica premissa para um bom filme sci-fi B!

E é isso que Nathan Juran fez lá nos idos de 1958, época em que aranhas gigantes, formigas gigantes, crocodilos gigantes e outros seres pertencentes ao reino animal ganhavam tamanho descomunal e lotavam as salas de cinema em todo o mundo.

Como toda boa produção do gênero, de orçamento modesto, o filme conta com efeitos especiais toscos, cenografia pobretona e atuações nada convincentes - o que só aumenta a curiosidade acerca do resultado final (pelo menos a minha). O interior da nave espacial que cai no deserto dos Estados Unidos é delirante e seu piloto gigante traja roupas medievais (tem explicação?). O desfecho é sensacional, típico da época. A trama é resolvida em apenas três segundos e a projeção termina com uma frase de efeito.

Porém, Juran nem era um diretor decadente. Muito pelo contrário: dirigiu Boris Karloff no clássico "O castelo do pavor" e filmou algumas obras de ficção científica de grandes autores, como Orson Welles. Mas foi realmente no gênero B que ele fez o seu nome.

Se o filme não é lá grandes coisas, pelo menos seu poster é considerado um dos melhores de todos os tempos. Nisso a gente concorda, né?

PS: fujam do remake de 1993, prefiram o original!

domingo, novembro 25, 2007

#85 - Viridiana, de Luis Buñuel


É de Buñuel a célebre frase:

"Sou ateu graças a Deus."

Em "Viridiana", filme de sua fase mexicana, talvez a mais simbolista do cineasta, Buñuel exercita toda a sua criatividade e cria uma obra-prima sobre a falência da doutrina cristã. Não à toa, o filme foi banido da Espanha e causou rebuliço e ojeriza no Vaticano.

Viridiana, uma bela freira, viaja para a casa de seu abastado tio, que acabou de se tornar viúvo. Lá, sofre com as constantes investidas dele e acaba por presenciar uma desgraça. Ela, então, abandona a vida eclesiástica e tenta viver segundo os preceitos fraternais do cristianismo, abrigando e alimentando mendigos e doentes da região.

As cenas que provocaram a ira dos religiosos fervorosos estão espalhadas por todo o filme. Punhais em forma de crucifixo, coroa de espinhos queimando na fogueira e músicas sacras dão o tom crítico e simbólico. Closes nas sensuais pernas de Silvia Pinal, soberba como Viridiana, não faltam. Porém, o destaque da película, que traduz a genialidade de Buñuel e o consagra como um dos maiores realizadores de todos os tempos, é de arrepiar: ele recria, com perfeição jônica, a imagem da Santa Ceia de Da Vinci. E no lugar dos apóstolos, os mendigos.

Como em "Fim de partida", peça de Samuel Beckett, e "Dogville", filme de Lars Von Trier, "Viridiana" expõe sem pudores o tácito acordo que existe no jogo entre explorador e explorado. Coloca em xeque doutrina e doutrinadores.

É incômodo, pungente e forte.

#84 - Blades of glory, de Josh Gordon e Will Speck

Eu sempre achei patinação artística um evento estranho. Aqueles figurinos, as músicas, piruetas, sorrisos... Depois que o esporte virou atração dominical na televisão, e pior, com celebridades, aí mesmo que passei a achar insuportável. Em "Blades of glory", toda essa conotação "artística" é levado ao extremo, em uma divertida comédia com dois dos melhores atores do gênero em atividade: Will Ferrell e John Heder.

O filme conta a história de dois patinadores rivais, um sensível e o outro ninfomaníaco, que são banidos da disputa individual da modalidade após uma briga. A solução para voltarem à ativa é disputar os campeonatos como uma dupla. O argumento fica completamente em segundo plano, pois o figurino, a trilha sonora e as coreografias são incríveis.

A dupla de diretores, oriundos do filme publicitário, suaram a camisa para pôr em prática suas idéias. Assim como as celebridades dominicais, Ferrel e Heder foram postos à prova por profissionais da patinação. Heder, inclusive, quebrou o tornozelo durante as filmagens.

O desfecho é ridiculamente sensacional e os extras chegam a ser mais engraçados que o próprio filme.

sábado, novembro 24, 2007

#83 - Blue in the face, de Paul Auster e Wayne Wang

O que fazer quando você já assistiu a quase todos os filmes de seus cineastas favoritos? Uma boa pedida é começar a ver os filmes preferidos deles. Foi assim que eu cheguei até "Blue in the face", um dos prediletos de Jim Jarmusch.

E que grata surpresa! A direção é de uma parceria que já havia dado certo em "Smoke", escrito por Paul Auster e dirigido por Wayne Wang. Agora, em "Blue in the face", os dois assumem a direção de uma película que levou apenas cinco dias para ser filmada. O roteiro, que quase não existe, traz pequenas situações que foram criadas a partir de exercícios cênicos de Harvey Keitel para seu personagem em "Smoke". Por isso, o tema é o mesmo: filosofias de esquina e cigarros, muitos cigarros. E nós, espectadores, testemunhamos um pouco da vida dos transeuntes que freqüentam uma pequena loja de tabaco no Brooklyn, Nova York.

O recheio do filme é espetacular. Não bastasse o talento do elenco principal para o improviso, há participações muito especiais de gente que respira Brooklyn. Lou Reed e seus estranhos óculos, John Lurie e sua pequena orquestra (números musicais sensacionais), Madonna e seu corpo musculoso (em um papel espetacular de cantora de telegrama animado) e Jim Jarmusch, o próprio, com seu topete grisalho, contando fatos muito engraçados sobre cigarros e cinema. Verdadeiras pérolas! O filme é divido em esquetes, intercaladas por depoimentos de moradores da vizinhança - o que confere à obra certo ar documentacional e antropológico.

Muitas idéias, gente talentosa e diversos filmaços saíram deste núcleo que se formou em Nova York. Uma espécie de patota independente que filma boas idéias e não se preocupa em parecer comercialmente atraente. Assim é "Blue in the face", adorável.

Cinema para poucos, mas bons poucos.

terça-feira, novembro 13, 2007

Meus posters chegaram!

Minha casa vai ficar mais temática do que nunca. Porque não basta imã de geladeira com motivo cinematográfico. Casa de cinéfilo que se preze tem que ter poster!

Os posters em si nem foram tão caros assim: US$16,00. O caro foi o frete, US$27,00 - que, porém, me surpreendeu com a rapidez! A encomenda chegou aqui em casa em menos de duas semanas, de seis previstas. Por isso, recomendo o site: www.movieposters.com.

Escolhi três. Uma trinca que considero perfeita, que mantém uma coesão com a minha trajetória. São eles:



Agora tenho que emoldurar as crianças. Já vi que isso vai me custar uns trocados. Mas tá valendo!

domingo, novembro 11, 2007

#82 - Farrapo humano (The lost weekend), de Billy Wilder


Muita gente achou que Billy Wilder havia perdido o juízo quando, em 1945, decidiu lançar um filme que falava sobre os malefícios causados pela bebida em excesso. Muitos foram os lobistas, os críticos e os profetas que tentaram convencer o diretor a sumir com os fotogramas, alegando que esta obra seria o fim de sua carreira.

Quebraram a cara!

Wilder enfrentou pressões da indústria de bebidas e de grupos conservadores e executou com a maestria de sempre "Farrapo humano", que mostra um fim de semana destrutivo na vida de um escritor viciado em álcool. Ray Milland, o humano esfarrapado, também enfrentou forte resistência de terceiros em interpretar esse papel. E, mais uma vez, todos quebraram a cara. O ator ganhou um Oscar por seu minucioso trabalho - o qual incluiu um laboratório de alguns dias em uma espécie de hospital misturado com manicômio para alcoólatras.

As cenas dos delírios causados pela droga são espetaculares. A trilha sonora é fantasmagórica, a edição é ligeira e a imersão é total. O impacto dessas seqüências é realmente impressionante. Fica fácil perceber que a estrutura narrativa que Wilder utilizou serviria de pilar para muitas obras contemporâneas que exploraram o tema, como "Trainspotting" e "Réquiem para um sonho", que retratam tão bem o perturbador mundo do vício.

Por se tratar de Billy Wilder, esperava um desfecho mais contundente. Porém, que essa seja a única ressalva.

sexta-feira, novembro 09, 2007

#81 - Machuca, de Andrés Wood


E depois de um longo e tenebroso, e põe tenebroso nisso, início de primavera, com direito à suspeita de dengue e testes de estresse, eis que meu pequeno e horroroso DVD player portátil rodou um filme novamente. Quase que não roda, é verdade. O disco chegou a patinar algumas vezes, mas no final deu tudo certo.

E novamente, como em "Desaparecido", o cenário desta realização do competente diretor Andrés Wood é o Chile. Mais precisamente, Santiago prestes a sofrer o golpe militar do dia 11 de setembro (é, a América Latina também tem seus lamentos decimais...) de 1973, apoiado pelo governo estadunidense. O filme conta a história de dois meninos que se aproximam, apesar do abismo social que os separa, graças à política de inclusão de uma escola liderada por um padre britânico. Gonzalo Infante, moleque bochechudo e de feições européias, conhece Pedro Machuca, filho de proletários que vive em uma das diversas favelas da capital chilena. A amizade dos dois vai se fortalecendo em meio ao caos político que toma conta do país. Valores familiares, religiosos e políticos são postos à prova.

É inevitável não estabelecer uma semelhança entre "Machuca" e "O ano em que meus pais saíram de férias". Os dois falam sobre regimes ditatoriais, perseguição política e esperança sob a ótica infantil. As crianças dão um show de interpretações, com atuações extremamente convincentes. A reconstituição de época também é perfeita. A grande diferença entre os dois filmes, porém, é a carga dramática. O nosso hermano chileno é um pouco mais denso, uma vez que o petiz que dá nome ao título é vítima do sistema opressor. Entretanto, não se preocupe: não há uma gota de sentimentalismo, clichês ou pieguice.

Filmaço!

Indicação de um grande camarada, Rodrigo, sujeito engajado e consciente, que tem um trabalho muito interessante de frases urbanas. Assim que ele arrumar um fotolog, website ou qualquer outra coisa que o valha, eu ponho o link aqui para vocês.

segunda-feira, outubro 29, 2007

#80 - O grande ditador (The great dictator), de Charles Chaplin


Em "Crepúsculo dos deuses", Billy Wilder junta em uma mesa de poker estrelas do cinema mudo que caíram no ostracismo após o advento do som. Buster Keaton, um dos meus comediantes prediletos, ocupa uma das cadeiras. De fato, foi esse o destino de muita gente boa que ficava quieta, mas dominava a pantomima.

Com Charles Chaplin, ainda bem, foi diferente. Seu primeiro filme falado, rodado cerca de treze anos após a revolução sonora na indústria cinematográfica, é uma obra-prima. Interpretando dois personagens antagônicos, um ditador totalitarista e um barbeiro judeu, Chaplin fez da guerra e suas atrocidades uma comédia que consegue mostrar o quão estúpida e ignorante é a indiferença que move a guerra.

As analogias que ligam o roteiro ao nazismo e ao fascismo são evidentes de cara. Mais precisamente, estão na cara de Chaplin. Ele mesmo confessou um dia ter ficado assustado com as coincidências que o remetiam a imagem de Adolf Hitler: os dois tinham quase a mesma altura, quase o mesmo peso e nasceram entre um espaço de tempo de apenas uma semana. Fora o bigode que ele usava em cena. Logo, a caracterização de Adenoid Hynkel, ditador de um país fictício chamado Tomania, é perfeita.

As melhores cenas, não há como negar, estão nos momentos silenciosos, nos quais o ator e diretor usa e abusa de sua expressão corporal. São célebres as seqüências onde ele brinca com um globo terrestre, como ditador, ou quando faz a barba com movimentos coreografados de uma sinfonia, como judeu. Porém, o som é muito bem usado: seja nos discursos de Hynkel, em uma língua que soa raivosa e que foi inventada pelo próprio Chaplin; ou no discurso emocionante que permeia o filme.

"O grande ditador" foi banido de todos os territórios nazistas e fascistas. Reza a lenda que Hitler viu o filme. Infelizmente, não há registros sobre o que ele achou da película. Sabe-se que, em uma ocasião nos Balcãs ocupados, soldados alemães tiveram acesso a uma cópia clandestina sem saber do que se tratava. Alguns saíram no meio da projeção e outros atiraram contra a tela.

É por isso que pode-se afirmar sem dúvida alguma que Chaplin foi um gênio. O cinema nunca mais foi o mesmo após sua existência.

#79 - Kinky boots, de Julian Jarrold


Comédias britânicas, por mais insossas que possam parecer, costumam ser simpáticas. Na maioria das vezes, é um humor mais refinado, que não leva o espectador às gargalhadas, mas o mantém com um sorriso durante toda a projeção.

Em "Kinky boots", é mais ou menos assim. Filme água-com-açúcar, dramaticamente cômico, completamente previsível, mas que não chega a ser um fracasso total. O roteiro é baseado em fatos reais e conta a história de um jovem que toma a frente de uma fábrica de sapatos após a morte de seu pai. O que ele não sabia é que acabaria assumindo, também, uma série de dívidas que poderiam culminar no fechamento de suas atividades. A única saída, então, ao invés de fabricar sapatos comportados, passa a ser um tanto incomum: fabricar botas. Botas de couro. Longas e sexy. E para transformistas.

O elenco é de total desconhecidos, mas o destaque fica, obviamente, para o transformista e designer de botas ousadas, Lola, interpretado de corpo e alma por Chiwetel Ejiofor. A direção de Julian Jarrold não comete erros, mas também não gera trunfos. A trilha sonora, entretanto, foi extremamente acertada. Os números musicais são engraçados e as canções ao longo do filme, a maioria bem nostálgica, combinam com o tema.

Os diálogos são previsíveis, o clímax é previsível, as reviravoltas são previsíveis e o final, então, é muito previsível. Também há um monte de lições de vida sobre preconceito, ganância etc. Ah, mas é simpático.

Um filme para ser visto em casa. Daqueles que você nem precisa pausar para ir ao banheiro fazer xixi.

domingo, outubro 28, 2007

#78 - A enfermeira Betty (Nurse Betty), de Neil LaBute


À primeira vista parece ser uma comédia sessão-da-tarde: cartaz bonitinho, Renée Zellweger como protagonista e roteiro contando uma história de amor. Se eu não soubesse que o diretor dessa produção era Neil LaBute, um dos sujeitos de mente criativa mais perverso que eutenho notícia, "A enfermeira Betty" teria passado despercebida.

Para quem não o conhece, LaBute é um dramaturgo estadunidense que ganhou bastante notoriedade com textos que exploravam a mediocridade e a perversidade do ser humano. Principalmente dos homens, talvez por sua homossexualidade, como é testemunhado em um filme que está no meu top 10 e acabou de ser lançado em DVD, "Na companhia de homens" (que consta lá na lista dos 25 mais perigosos).

Por isso, nos primeiros dez minutos de, digamos, comédia, um assassinato brutal acontece na casa da garçonete Betty (Zellweger). Seu marido é morto com requintes de crueldade, como não poderia deixar de ser, por dois bandidos. Em estado de choque, a garçonete bloqueia a lembrança do horrível incidente e resolve trocar as bandejas por ataduras. Ela cisma que é uma enfermeira e pega a estrada em busca de seu grande amor, um médico, personagem principal de uma novela televisiva. Torna-se procurada não só da polícia, mas dos bandidos também.

A tal cena inicial é tão brutal, mas tão brutal, que LaBute teve que editá-la de várias formas diferentes até que ela ficasse leve o suficiente para receber uma indicação etária menos restritiva. Deu certo, apesar do clima ser extremamente pesado. O resto do filme não foge da marca que consagrou o diretor: recheado de situações inusitadas e bons diálogos.

No elenco também estão Morgan Freemam, ótimo, Chris Rock e Aaron Eckhart - perfeito como o rapaz assassinado e figurinha fácil nos filmes de LaBute.

Um filme simpático. E o melhor: diferentemente simpático.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Bat For Lashes - "What a girl to do"

Eu sempre tive uma queda por planos-seqüência. E por um motivo muito óbvio: a ousadia e o capricho que envolvem a sua realização. Bons exemplos são "Festim diabólico", do Hitchcock, e o início de "A marca da maldade", de Orson Welles. Eis, então, que me deparo com o vídeo clipe desta banda inglesa, Bat For Lashes.

Resolvi colocar esse video clipe aqui justamente pela ousadia do diretor, um tal de Dougal Wilson. Não bastasse a música sensacional, "What a girl to do", ele conseguiu um dos melhores planos-seqüência que eu já tive a oportunidade de ver, com soluções perfeitas para os enquadramentos. A direção é realmente impecável. Tudo funciona direitinho: a luz, os efeitos e até a estranha coreografia - da qual não falarei demais para não estragar o impacto que o video clipe tem. Só uma nota, que vale a pena: o figurino lembra aquele velho filme, que passava nas tardes do SBT, em que crianças eram seqüestradas por bandidos mascarados... lembra?

Dougal Wilson é muito talentoso, assim como Michel Gondry e Spike Jonze, que ambos iniciaram suas belas carreiras dirigindo video clipes.

Putz, tomara que esse cara resolva fazer um longa em breve!

quarta-feira, outubro 24, 2007

#77 - O tigre e a neve (La tigre e la neve), de Roberto Benigni


Eu queria perder a implicância com um ator que respeitava demais por antigas atuações. Roberto Benigni foi um dos protagonistas do meu filme preferido, "Down by law", de Jim Jarmusch. Do mesmo diretor, brilhou no maravilhoso "Uma noite sobre a Terra". E ainda realizou "O monstro", um filme muito divertido. Porém, desde "A vida é bela", que não é lá tão ruim assim, comecei a implicar com aquele jeito italo-verborrágico de atuar e com aquele certo traquejo emotivo demais em conduzir suas tramas. Na minha opinião, Benigni não deveria ter assumido o posto de diretor.

Porém, quando vi o anúncio de "O tigre e a neve", que tem título de filme oriental, resolvi dar uma segunda chance ao moço. Afinal, está destacada no cartaz a presença de Tom Waits - que também protagonizou o meu filme preferido, fez a trilha de várias produções de Jarmusch e gravou discos brilhantes com seu timbre rouco e inconfundível.

É, Roberto. Os tempos, de fato, mudaram...

Porém, a temática permanece a mesma que foi abordada em "A vida é bela". Aqui, um professor de poesia vai atrás de sua amada, ferida em um bombardeio em meio à guerra do Iraque, para tentar salvar sua vida. Ao longo do filme, metáforas, metáforas, metáforas e tanto lirismo que a tela chega a ficar melada. A guerra é novamente mostrada de um ponto de vista poético, com os conflitos da trama amenizados por números cômicos. E nessas passagens, engraçada mesmo é apenas uma na qual Benigni anda por um campo minado.

De resto, é aquilo de sempre. Desfecho mal resolvido, situações constrangedoramente emotivas e mais metáforas. Muitas metáforas. Inclusive, a implicação visual do título é lamentável.

E o Tom Waits só aparece no começo! E tocando uma só música.

segunda-feira, outubro 22, 2007

#76 - Desaparecido (Missing), de Costa-Gavras


Os filmes de Costa-Gavras são como uma aula de história. Uma vez que o diretor domina todas as técnicas de montagem e edição, suas obras ganham força e permanecem como verdadeiros instrumentos documentacionais. Com "Desaparecido", de 1982, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, não é diferente.

O roteiro é baseado na história de um jornalista estadunidense que é dado como desaparecido após um golpe militar em um país da América Latina. Seu pai, conservador cristão, e sua esposa, envolvida com as questões sociais, partem em busca da verdade por trás do desaparecimento. Passando por cima de burocracias, interesses políticos e cadáveres espalhados pelas ruas, a busca vai se tornando cada vez mais complicada.

Não há referência ao local, mas é sabido que o fato aconteceu no Chile, durante o regime ditatorial de Pinochet. Talvez, a opção do diretor em não deixar nomes explícitos tenha sido pela universalidade do tema. O enredo se repetiu em quase toda a América Latina, e poderia ser a história de qualquer regime ditatorial apoiado pelos Estados Unidos. Apesar disso, o filme foi filmado no México, na encolha, porque o conteúdo dito subversivo iria desagradar os produtores hollywoodianos que apostavam e aguardavam ansiosos o primeiro filme "americano" de Costa-Gavras.

Eu ficaria ansioso. A trilha sonora do Vangelis, que assina também a de "Blade Runner", dá o tom de suspense necessário para manter o espectador grudado na tela, com tons graves e longos. Jack Lemmon ganhou a Palma de Ouro de Melhor Ator e Sissy Spacek já era, naquela época, uma excelente atriz. O resultado foi tão arrebatador que, durante muito tempo, em muitos países, "Desaparecido" foi proibido. Inclusive no Brasil, citado por ter mandado ao Chile soldados especialistas em tortura.

Os produtores de Hollywood, provavelmente muitos deles, não devem ter ficado nada contentes. Azar o deles!

quarta-feira, outubro 17, 2007

#75 - O doce amanhã (The sweet hereafter), de Atom Egoyan


Este filme veio parar em minhas mãos emprestado de uma grande amiga cinéfila que tem o gosto muito similar ao meu, a Mônica. Ela me disse: "Dudu, veja esse filme e me diz o que você acha. Eu não achei nada de mais, mas todo mundo adora, não sei por quê."

Moniquinha, eu também não sei por quê. Inclusive, eu também não gostei.

O DVD estava na minha estante há uns bons meses e quase se perdeu na pilha bagunçada de títulos aqui de casa. Depois de ler a tal lista dos 25 mais perigosos, lembrei não só que ele estava comigo, mas que também precisava devolvê-lo. Perfeitos ensejos para enfrentar as quase duas horas de drama, drama mesmo, dramalhão até, do diretor Atom Egoyan, que faturou o Grande Prêmio em Cannes no ano de 1997.

Os atores, apesar de tarimbados, têm rendimentos discretos. Os diálogos não são tão bem trabalhados. A trilha sonora em nada contribui para a ambientação do roteiro, que tem lá seus buracos. Aliás, quem leu o livro que motivou essa adaptação cinematográfica diz que há cenas que só podem ser compreendidas em sua totalidade após folhear alguns capítulos da obra homônima. O envolvimento com a trama é empacado por todos esses detalhes.

O que sobra são dois pontos fortes, inegáveis: a fotografia, uma vez que a história se passa em uma linda estância montanhesa do Canadá; e o argumento, sinistro. Um acidente de ônibus mata a maioria das crianças da cidade. Ainda sob o impacto da tragédia, um advogado surge propondo mover ações de indenização, um procedimento muito comum nos Estados Unidos e no Canadá, e que rende milhões de dólares às custas do sofrimento alheio. Porém, é tanto sofrimento que o filme fica chato, às vezes até clichê.

Não o achei perigoso. O que significa escrever que não gostei.

segunda-feira, outubro 15, 2007

#74 - O vampiro de Düsseldorf (M), de Fritz Lang


Um dos filmes indicados na lista dos 25 mais perigosos, "O vampiro de Düsseldorf" não é uma obra sobrenatural. Inclusive, não há criaturas dentuças sugando o sangue de incautas jovens desacordadas. Trata-se de uma história baseada em fatos reais sobre um infanticida que "assombrou" Düsseldorf e pôs toda a população da cidade (policiais, bandidos, mendigos, crianças e suas mães, é claro) em estado de alerta.

Fritz Lang já era um cineasta conhecido pelo memorável "Metropolis", um marco do cinema expressionista que influencia até hoje uma penca de filmes de ficção científica. Porém, "O vampiro de Düsseldorf" o coroou como o grande realizador do cinema alemão, o que lhe rendeu um convite para dirigir os filmes de propaganda nazista - convite esse que ele recusou.

Um dos grandes trunfos dessa obra de suspense psicológico é o uso do som. Lang mostrou-se muito à frente de seus contemporâneos ao estabelecer uma perfeita simbiose entre imagem e ruído. A trilha sonora funciona como contraponto, contribuindo para aumentar o clima soturno e escuro da grife expressionista. E, aproveitando ao máximo a nova técnica, é justamente o som que costura e resolve a trama. O infanticida, interpretado magistralmente por Peter Lorre, ganha reforço em seus traços esquizofrênicos ao assobiar uma música do compositor Edvard Grieg.

Aliás, Lorre merece destaque. Apesar de seu personagem só crescer mesmo no terço final do filme, sua caracterização é realmente assombrosa. De olhos esbugalhados, o perturbado assassino de crianças é assustador como um vampiro. E, de fato, o ator era perturbado também por trás das câmeras. Lorre sofreu uma séria crise psíquica, passando por diversos tratamentos. Viciado em heroína, morreu de overdose.

Definitivamente, vampiros são menos assustadores do que infanticidas.

#73 - Free zone, de Amos Gitai


De cara, logo na abertura, uma cena para odiar ou amar o filme. A bela e competente Natalie Portman chora até borrar a maquiagem, ao som de uma cantiga popular israelense. A cena dura longos minutos. Belíssimos longos minutos.

Amos Gitai é um diretor judeu que conseguiu a proeza de rodar pela primeira vez um filme israelense, esse em questão, na Jordânia. Ele conta a história de três mulheres de etnias e religiões diferentes que se encontram em uma área de livre comércio, a tal free zone. Lá, há uma espécie de acordo tácito que mantém a paz. Porém, os problemas que cada uma vive colocam em xeque suas crenças.

Enquanto o filme se desenrola, flash backs contam a história de cada um dos personagens envolvidos. A forma como são inseridos, em justaposição de imagens, transforma a narrativa em um mosaico que aos poucos vai ganhando significado. Como se, em doses homeopáticas, os motivos que levam os personagens à tal free zone fossem ficando mais claros. Paisagens insólitas vão se combinando a um roteiro cuja ação foge do convencional.

"Free zone" é um filme lento, contemplativo, cujo fim não justifica o início, nem o meio. Por isso, quem vai esperando por respostas ou entretenimento fácil costuma odiá-lo. Porém, quem estiver disposto a embarcar na viagem de Gitai pode ter uma experiência cinematográfica realmente diferente.

quarta-feira, outubro 10, 2007

#72 - Tropa de elite, de José Padilha


A caminho do cinema, passei por uma banca de jornal e lá estava, na capa de uma revista de grande circulação, a foto de Wagner Moura vestindo uniforme preto e empunhando um rifle, com dizeres garrafais em destaque: Capitão Nascimento, o novo herói nacional. Segunda-feira, no Roda Viva, da TVE, José Padilha concedeu uma excelente entrevista para um time de jornalistas afiados. Há dias que recebo e-mails com frases, fotos e vídeos baseados em "Tropa de Elite" - alguns de gosto duvidoso, diga-se de passagem. Pronto, já era hora de tirar minhas próprias conclusões, na tela grande e com som estéreo.

Vou tentar me ater a uma análise artística do que vi - será que consigo? Tecnicamente, "Tropa de Elite" é um êxito, um belo trabalho. A edição e a montagem são perfeitas, e o roteirista Bráulio Mantovani (o mesmo de "Cidade de Deus") conseguiu uma narrativa em tom crescente, sem excessos, bem enxugada e com as doses certas. O filme não perde ritmo em momento algum. As cenas de ação são extremamente bem filmadas. Durante as quase duas horas de projeção, que passam voando, não há tempo nem para suspirar. A estrutura do roteiro chega, de vez em quando, a lembrar vagamente "Nascido para matar", de Stanley Kubrick, que esmiuça lá dentro do psicológico dos personagens os motivos e as razões para suas atitudes. Isso faz com que qualquer ação, seja ela boa ou má, seja acompanhada de certa catarse. A história gira em torno da vida de três policiais que pensam, agem e enxergam o dia-a-dia de forma diferente, mas que se confrontam em um determinado momento.

Quanto ao elenco, dizer que Wagner Moura está espetacular é cair em lugar comum. Não há dúvidas: é dos melhores atores da nova safra, que poderia muito bem se dar ao luxo de esnobar papéis onde a mediocridade interpretativa da atual teledramaturgia brasileira é requerida. Com aquela cara de bom moço, ele encarna com voracidade o tal Capitão Nascimento. Para que isso aconteça, tem que ter muito talento. Porém, discordo de muita gente que acha que ele rouba a cena. Na minha opinião, Caio Junqueira e André Ramiro, os outros dois personagens centrais, também policiais, estão soberbos!

A narração trabalha para dar um tom de suspense à trama. Como em "Ônibus 174", Padilha adianta os fatos, mas a iminência da execução torna tudo ainda mais angustiante. Ao longo do filme, as falhas de caráter de toda a sociedade, civil ou militar, é ditada pela voz do Capitão Nascimento, personagem extremamente ambíguo e à beira de um colapso nervoso.

O grande mérito de "Tropa de Elite" é que o filme não aponta soluções, e sim fomenta discussões. Na minha leitura, em momento algum há a adoção de um discurso que seja tido como o correto. É como um daqueles incontáveis tapas na cara projetados na tela. Como se fosse um alarme, alertando que há algo de errado em achar Capitão Nascimento um herói. Há algo de errado em rir das cenas de tortura. Há algo de errado nas universidades.

No final das contas (e do filme) fica aquele sentimento de que todo mundo sai perdendo.

#71 - Getting any? (Minnâ-yatteruka!), de Takeshi Kitano


Por esta eu não esperava: Takeshi Kitano, realizador de grandes obras como "Hanna-bi" e "Zatoichi", exercitando o seu lado cômico. Pois em "Getting any?" ele cria uma comédia pastelão hilária, aos moldes de Jim Abrahams ("Corra que a polícia vem aí", "Apertem os cintos, o piloto sumiu") e Mel Brooks (Banzé no Oeste", "SOS - tem um louco solto no espaço").

O protagonista, Asao, é um sujeito obcecado pela idéia de fazer sexo em um carro. Movido por esse desejo, ele se mete em diversas encrencas, muitas delas surreais, para concretizar o seu fetiche. O roteiro faz sátira com muitos filmes e ícones pop ocidentais, como: "Caça-fantasmas"; "A mosca"; o livro "O Homem invisível", de H.G. Wells; o videoclip de "Bad", do Michael Jackson; e sobra até para o texto de Shakespeare, "Hamlet".

O próprio Kitano participa do filme como um cientista louco, em busca de fama e do Prêmio Nobel. O desfecho é um dos mais nonsenses já produzidos pelo cinema japonês, inacreditável!

terça-feira, outubro 09, 2007

Os 25 filmes mais perigosos

Há algum tempo, o site estadunidense Premiere publicou um especial elencando os 25 filmes mais perigosos da história do cinema. Entenda-se por perigosos produções que, segundo o artigo, "reorganizam sua cabeça, desafiam suas pré-históricas idéias sobre a vida, o amor e sobre a morte. São como expansores da consciência, mas dificilmente de forma agradável". Ou seja, entrar nessa lista não significa ser caçado por uma patrulha da censura. Segue:

1 - Uma rajada de balas (Bonnie and Clyde, 1967), de Arthur Penn
2 - Meninos não choram (Boys don't cry, 1999), de Kimberly Peirce
3 - Na companhia de homens (In the company of men, 1997), de Neil LaBute
4 - Gêmeos - mórbida semelhança (Dead ringers, 1988), de David Cronemberg
5 - Eraserhead (Eraserhead, 1977), de David Lynch
6 - Gimme Shelter (Gimme shelter, 1970), de Albert e David Maysles
7 - Felicidade (Happiness,1998), de Todd Solondz
8 - Vício frenético (Bad lieutenant, 1992), de Abel Ferrara
9 - O vampiro de Dusseldorf (M, 1931), de Fritz Lang
10 - Era uma vez no oeste (Once upon a time in the west, 1968), de Sergio Leoni
11 - Laranja mecânica (A clockwork orange, 1971), de Stanley Kubrick
12 - Repulsa ao sexo (Repulsion, 1965), de Roman Polanski
13 - Réquiem para um sonho (Requiem for a dream, 2000), de Darren Aronofsky
14 - Cães de aluguel (Reservoir dogs, 1992), de Quentin Tarantino
15 - O doce amanhã (The sweet hereafter, 1997), de Atom Egoyan
16 - Taxi Driver (Taxi driver, 1976), de Martin Scorcese
17 - Veludo Azul (Blue velvet, 1986), de David Lynch
18 - Dançando no escuro (Dancer in the dark, 2000), de Lars Von Trier
19 - Monstros (Freaks, 1932), de Tod Browning
20 - A tortura do medo (Peeping Tom, 1960), de Michael Powell
21 - Farrapo humano (The lost weekend, 1945), de Billy Wilder
22 - Assassinos por natureza (Natural born killers, 1994), de Oliver Stone
23 - Skinheads - a força branca (Romper stomper, 1992), de Geoffrey Wright
24 - Um cão andaluz (Un chien andalou, 1929), de Luis Buñuel
25 - Week End à francesa (Week end, 1967), de Jen-Luc Godard

Concluí que andei vendo muitos filmes perigosos! Vi a maioria da lista. Os que não vi, já estou providenciando, como "Monstros", "Farrapo humano" e "Week End à francesa". Bacana foi ver que não só eu acho "Na companhia de homens" uma das histórias mais bizarras e perturbadoras que uma mente humana já conseguiu pensar. Eu tive a oportunidade de ver uma peça do Neil LaBute, chamada "Baque", que, como sugere o título, é um baque! Metade dos espectadores saíram no final da primeira esquete, pesada de verdade. Eu não sabia se vibrava, se me revoltava... só conseguia sussurrar para mim mesmo um monte de palavrões... O filme segue a mesma linha. Muito difícil de achar, mas imperdível!

David Lynch está lá com dois filmes. Esse cara é bom! E podia ter mais coisa dele ali em cima, hein? Do Lars Von Trier também. E mais: eu tiraria facilmente "Meninos não choram" dessa lista.

Perigo! Perigo!

segunda-feira, outubro 08, 2007

#70 - Totalmente Kubrick (Color Me Kubrick: A True...ish Story), de Brian W. Cook


Difícil imaginar alguém como John Malkovich dizendo para as pessoas que ele é o consagrado diretor Stanley Kubrick. E o pior: estas mesmas pessoas acreditando piamente na mentira. Pois é o que acontece em "Totalmente Kubrick", baseado, pasmem, em fatos reais!

Alan Conway, interpretado magistralmente por Malkovich, era um sujeito que conseguia regalias e aplicava pequenos golpes fazendo-se passar por Kubrick. Porém, ele em nada se parecia com o diretor. Enganou desde jovens aspirantes à figurinistas e diretores assistentes, até grandes artistas britânicos.

Este é o primeiro longa dirigido por Brian W. Cook, que foi diretor assistente de Kubrick em diversas produções, como "Barry Lyndon", "O Iluminado" e "De olhos bem fechados". Por isso, há uma série de referências à obra de seu mestre, incluindo trilha sonora. O desfecho é digno de um filme com a assinatura de Kubrick.

Vale a pena!

domingo, outubro 07, 2007

#69 - Marvada Pinga, de Alejandro Gedeón e Léa Zagury


Uma das minhas grandes paixões, além do cinema, é a cachaça. Sou cachaceiro assumido! Tenho meus rótulos preferidos em casa. E não estou falando de 51 ou Velho Barreiro. Existe todo um universo de paladares, texturas e lendas ao redor desta bebida genuinamente brasileira. Quem já experimentou uma Anísio Santiago, uma Providência, uma Lua Cheia ou uma Mariana (a minha preferida), sabe do que estou falando. O documentário "Marvada Pinga" faz um rápido apanhado disso tudo de forma bem interessante.

Ao longo do filme, somos apresentados à cronologia da pinga, descobrindo suas origens. Logo depois, conhecemos as cidades produtoras de maior destaque e, finalmente, chega-se a um tema delicado, polêmico: artesanal x industrial. Os diretores escutam os dois lados, mas é impossível não se manter a favor dos alambiques familiares quando testemunha-se um funcionário de uma indústria cachaceira jogando um produto em seus gigantescos tonéis para estimular a fermentação.

O videografismo, bem como as imagens de arquivos, são muito bem feitos e divertidos, combinando com o espírito bem-humorado que cerca o ritual de se beber uma boa cachaça. O resultado é um filme leve, saboroso e que desce fácil.

E deixo aqui o grito de guerra de uma confraria de apreciadores da bebida:

"Unidos beberemos! Sozinhos também!"

sábado, outubro 06, 2007

#68 - Coração selvagem (Wild at heart), de David Lynch


Festa na casa do meu grande amigo Daniboy, irmão e cineasta, regada à ótimos papos, shots de tequila, cerveja, rock'n'roll e, como não podia deixar de ser, filmes! Toda reunião por lá é assim: a TV da sala fica ligada, sem som, passando uma grande produção do seu acervo particular - e que acervo! Nas caixas de som, Stooges, MC5, Kraftwerk, Clash, Beatles, Jimi Hendrix, Mundo Livre, Arnaldo Antunes etc. Lá pelas tantas, catei "Coração Selvagem" e sentei no sofá.

Que experiência válida! Ficou comprovado que o cinema de Lynch é visual, sensorial, calcado na experiência. Mesmo que o som seja removido, ainda assim causa um fascínio difícil de ser explicado. Muita gente que nunca tinha ouvido falar do filme parou para vê-lo. E chegamos à varias conclusões acerca do mesmo.

Primeiro, que Cage jogou sua carreira na latrina e puxou a descarga. Segundo, que "Coração Selvagem" é uma linda história de amor, com final feliz, inclusive. Terceiro, que os filmes de Lynch podiam ser catalogados como psico-eróticos. Quarto, e mais bizarro, que Isabella Rossellini está idêntica à Letícia Spiller. Ficou a pergunta: será que a global já viu esse filme?

Ainda rolou também "Jovens, loucos e rebeldes", dos melhores de Linklater, e "Trainspotting", sempre atual.

Ter amigos assim é tão bom...

sexta-feira, outubro 05, 2007

#67 - Metal - Uma jornada pelo mundo do Heavy Metal (Metal: A headbanger's journey), de Sam Dunn


Quando vi o programa de estréias cinematográficas da semana no jornal, não pude deixar de reparar nesse título aí de cima, muito parecido com o da minha monografia de final de curso, escrita há uns bons anos: "Heavy Metal - Estética e alegorias de um universo musical". Apesar do tema ser o mesmo, esse documentário vai às profundezas das questões antropológicas para responder qual é o motivo do fascínio e da repulsa, do amor e do ódio, enfim, da aura mágica que cerca a corrente musical do diabo.

Ninguém melhor para dirigir o filme do que um fã do gênero. E melhor ainda, antropólogo. Sam Dun passa por todos os subgêneros que o metal criou e entrevista grandes astros da música, conversa com jovens loucos e rebeldes e vai até os confins do planeta em busca de informações. O resultado é um excelente filme, com bastante material de pesquisa, trilha sonora a rigor e passagens sensacionais. Por exemplo, podemos acompanhar a batalha de Dee Snider, vocalista da outrora controversa banda Twisted Sister, defendendo suas músicas da censura no senado americano. Ou então, testemunhar as entrevistas nada convencionais com as insólitas e bizarras bandas satanistas da Noruega que organizavam ataques às igrejas católicas.

Foi como ver um pouco da minha monografia na tela grande, guardadas as devidas proporções, claro. Afinal, o cara é antropólogo. Eu era apenas um estudante universitário. Dunn teve um senhor trabalho para fazer o documentário. Eu, não. Fiz meu texto em uma semana, porque deixei tudo para a última hora, e ainda tive que convencer minha orientadora, uma senhora para lá de seus 60 anos, que heavy metal era um assunto interessante. No fim das contas deu tudo certo.

"Metal" é bom para os ouvidos e bom para os olhos. E vou terminar parafraseando Paul Stanley & cia:

God gave rock and roll to you, gave rock and roll to you
Gave rock and roll to everyone
God gave rock and roll to you, gave rock and roll to you
Put it in the soul of everyone

domingo, setembro 30, 2007

#66 - O céu de Suely, de Karim Aïnouz


Como é bom perceber que o cinema brasileiro tem identidade e linguagem próprias. Um tempo diferente, com diálogos que mais parecem conversas e uma câmera tranqüila, que fica perambulando pelo meio de personagens cheias de vida e conflitos.

Karim Aïnouz é tido como um diretor que extrai até a última gota de suor dos seus dirigidos. Elenco é um dos pontos fortes deste filme. Para começar, foi feita uma preparação corporal extenuante com todos os atores, que foram imersos na pequena e pacata cidade do agreste onde a história é ambientada. Usavam roupas como os locais, comiam com os locais, falavam como os locais e, não demorou muito, eram confundidos com locais. Prova disso era a incessante pergunta sobre quando os atores do "tal filme" iam chegar na cidade.

Para dar ainda mais veracidade ao roteiro, Hermila Guedes interpreta Hermila, Maria Menezes interpreta Maria, João Miguel interpreta João e assim todos passam a ter seus nomes confundidos com seus papéis. É como se observássemos uma história real, quase como um documentário. E olha que a história nem é tão nova assim: uma jovem volta ao nordeste após tentar a vida em São Paulo, com filho no colo e sonhos de uma vida melhor. Na falta de dinheiro e perspectivas, acaba escolhendo caminhos tortuosos. O que difere essa história das tantas outras é a maneira como a liguagem cinematográfica é utilizada.

Um belíssimo filme, digno da boa prata da casa.

#65 - C.R.A.Z.Y., de Jean-Marc Vallée


Eu quase nunca sigo recomendações cinematográficas de pessoas que não conheço. Resolvi abrir uma exceção após a jovem funcionária da locadora tentar me indicar uns dezessete filmes diferentes, dos quais um deveria completar a promoção de levar três e pagar apenas dois. Pela sua obstinação, acabei levando este título francês.

"C.R.A.Z.Y." é realmente um filme chato. O diretor Jean-Marc Vallée é até competente. Suas cenas são bem dirigidas, bem fotografadas, com planos muito bem escolhidos. A trilha sonora é outro destaque: foram gastos milhares de euros para pagar todos os direitos autorais das músicas do Pink Floyd, Rolling Stones e David Bowie - aliás, esta última é responsável por uma das poucas boas cenas do filme. Porém, nada disso segura o fraco e arrastado roteiro sobre um adolescente que cresce em meio a uma família cujo núcleo começa a ruir. Estão lá as drogas, o homossexualismo, a religião e todos os outros tabus da sociedade contemporânea. Um saco!

Eu não recomendo. Nem se trabalhasse em uma locadora e meu salário dependesse disso.

sábado, setembro 29, 2007

#64 - Cartola, música para os olhos, de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda


Após assistir a esse documentário sobre o gênio Cartola, minhas convicções ficaram mais fortes. O negro americano está para o jazz assim como o negro brasileiro está para o samba. Vou além: Cole Porter está para o jazz assim como Cartola está para o samba. E doente da cabeça não é quem não gosta de samba, e sim quem nunca pelo menos se deu a oportunidade de ouvir a cadência harmoniosa e melódica do saudoso fundador da Estação Primeira da Mangueira.

Porém, vou parar com os elogios. Afinal de contas, o objeto de resenha é o filme, que está muito aquém da obra de Cartola. Em uma hora e meia de projeção, somos bombardeados por diversos depoimentos sobre diversos acontecimentos da vida do sambista, sem nenhuma coesão, a não ser uma certa temporalidade. O filme abre com imagens de arquivo mostrando o enterro de Cartola e segue da infância até a velhice reclusa em Jacarepaguá.

O que o documentário faz bem é dar destaque ao requinte e à complexidade harmônica que o samba feito nessa época carregava em suas composições, inclusive nas letras, poesia pura. Também é muito bacana ver algumas imagens de gente que eu gosto muito, como Nelson Sargento, Pixinguinha, Zé Keti e Jacob do Bandolim. De quebra, uma interpretação magistral de Elizeth Cardoso (a nossa Ella Fitzgerald, como diz minha mulher) e um depoimento do meu mestre e guru literário Sérgio Porto.

Falta coesão e ritmo. Mas sobra aquela vontade de batucar enquanto os sambas de Cartola vão sendo tocados. Samba de verdade.

PS: resenha escrita ao som de "Alvorada".

segunda-feira, setembro 24, 2007

#63 - A pequena loja dos horrores (The little shop of horrors), de Roger Corman


Dia desses fui ao supermercado comprar água sanitária, alvejante, sabão em pó e desentupidor de ralo (porque nenhuma casa está completa sem um bom desentupidor de ralo). No caminho até o caixa, lá estava aquele box enorme cheio de DVDs a preço de banana. Um deles era este clássico do terror, ou da comédia, tanto faz, "A pequena loja dos horrores". Pobres desavisados que deixaram essa pérola ali jogada, abandonada. Sorte a minha.

Feito em 1960, fotografado em preto e branco e filmado em apenas dois dias, essa realização é um dos marcos dos filmes de humor negro, ou do que mais tarde convencionou-se chamar de "terrir". Tudo isso a cargo da direção competente de Corman, experiente, com mais de 350 filmes produzidos no currículo. Partindo de um argumento bizarro com diversas situações insólitas, testemunhamos uma pequena floricultura fadada à bancarrota vislumbrar uma reviravolta em suas economias quando um funcionário desajeitado, Seymour, cria uma planta diferente. O único problema é alimentá-la, pois o cardápio é composto de gente! À medida que o apetite do vegetal monstruoso vai crescendo, crescem também os problemas.

Não só o roteiro, mas também o cenário e os figurinos se assemelham muito às screwball comedys das décadas de 30 e 40. Em pouco mais de 70 minutos, há uma avalanche de piadas ligeiras e absurdas. Os personagens são outro ponto forte: uma senhora que todo dia compra flores para um funeral diferente; um sujeito que come flores; uma prostituta onipresente; um dentista sádico; e um jovem impostor com cara de maluco, interpretado por quem mais entende desse tipo de caracterização, Jack Nicholson.

Mais tarde, devido ao grande sucesso, o filme virou um musical na Broadway - caminho que, normalmente, a maioria das produções faz de forma inversa. Ganhou também uma refilmagem, em 1986, com Rick Moranis no papel de Seymour e direção de Frank Oz, o cara que dirigiu o filme dos Muppets.

Não se engane, prefira em preto e branco!

sexta-feira, setembro 21, 2007

#62 - Guerreiros da noite (The Warriors), de Walter Hill


Se você foi adolescente nos anos 80, provavelmente já deve ter escutado falar deste filme. Porém, vê-lo, só se você foi daqueles moleques rebeldes que ia dormir tarde, mesmo tendo aula de manhã cedo, e já era adepto da Sessão Corujão. Vez em quando, a madrugada televisiva nos presenteava com este clássico, "Guerreiros da noite"!

Revê-lo foi deliciosamente nostálgico. Lembrava-me de pouca coisa desta produção de 1979, mas se tem um detalhe do qual nunca esqueci, é o figurino. Cada gangue, e são várias delas, se veste de uma determinada maneira, todas uniformizadas, como manda o código dos brigões - da mesma forma como é feito em guerras de verdade. A minha preferida é a Baseball Furies: uns sujeitos com uniformes do esporte ianque, com a cara pintada e munidos de tacos como armas. E não por acaso, é uma das gangues preferidas do diretor Walter Hill, o que se explica por sua paixão pelo baseball e pelo Kiss.

A história das famosas gangues de Nova York é aqui contada pelo ponto de vista dos tais Warriors, os encrenqueiros de Coney Island - lugar que até hoje é um ponto de resistência de uma certa cultura underground. Eles vão até uma convenção de gangues, distante 150 quilômetros de casa, e são acusados de assassinar uma espécie de líder, quase um Mussolini. Como nas grandes passagens históricas, o incidente desencadeia uma guerra: todos contra os Warriors, que precisam voltar para casa sãos e salvos.

Na época em que o filme foi feito, havia em Coney Island uma gangue oficial, os Homicides. Que, inclusive, não gostaram muito de ver aquele figurino todo colorido desfilando por sua área. Aliás, os bastidores de "Guerreiros da noite" são uma atração à parte. Durante as filmagens, feitas de madrugada e ao ar livre, a quantidade de gente curiosa que se amontoava para acompanhar as cenas era tanta, que muitas gravações tiveram que ser interrompidas por causa do barulho. Havia também ameaças por parte de gangues verdadeiras aos atores. Solução encontrada: os Mongrels, gangue local, fizeram a "proteção" pela bagatela de US$500,00. Mesmo assim, durante um intervalo para o almoço, grande parte do equipamento foi danificado por vândalos. E não pára por aí! Em uma das primeiras cenas, quando os Warriors enfrentam os Orphans, a filmagem foi interrompida por causa de uma perseguição entre policiais e membros de uma gangue de verdade.

Ainda que "Guerreiros da noite" seja do final da década de 70, continua surpreendente. Roteiro amarrado e criativo, edição rápida, trilha sonora eficiente e bons atores. O clima "madrugada" que ambienta a história é perfeito, com ruas molhadas pelo sereno, vagões de metrô vazios e iluminação pública tosca.

O filme se tornou tão cultuado que existe até um jogo homônimo para Playstation. Dá vontade de comprar só para poder jogar um pouco. Na pele dos Furies, claro!

quinta-feira, setembro 20, 2007

#61 - Familia Rodante, de Pablo Trapero


Uma família numerosa, com direito a avó, cunhado, bebê, tio, primo e até cachorro, todo mundo dentro de um pequeno e capenga motor home da década de 50 rodando pelas estradas da Argentina até a fronteira com o Brasil, rumo a uma festa de casamento. Não tem como ser uma viagem tranqüila.

O bom diretor Pablo Trapero, dos expoentes do novo cinema platino, faz uma viagem catártica mostrando os conflitos que, inevitavelmente, abalam os alicerces desta família rodante. Tem traição, sexo, dor de dente e discussões ásperas, tudo isso abordado de uma maneira contemplativa, sem exageros. A câmera, mais vouyer do que testemunha, abusa de planos fechados e closes, imprimindo a sensação de claustrofobia que uma viagem em família, sob essas condições, pode provocar.

A protagonista Emilia, matriarca que coordena a empreitada turística, é interpretada por Graciana Chironi, avó do diretor na vida real. Apesar do clima predominantemente depressivo do filme, é ela a responsável pelos momentos mais encantadores da história. Seu neto, anteriormente, já a utilizara em outra excelente realização, "O Bonaerense", que me supreendeu em um destes festivais internacionais do Rio, anos atrás. Conta a história de um homem que entra para a polícia de Buenos Aires. Como em "Família Rodante", partindo de uma premissa simples, há toda uma reflexão sobre os valores contemporâneos.

Não se deixe enganar se lhe disserem que trata-se de uma comédia. Se você chorar, pode ter certeza que não vai ser de rir.

domingo, setembro 16, 2007

#60 - Tenacious D, uma dupla infernal (Tenacious D in the pick of destiny), de Liam Lynch


Quer fazer aquele velho home theater que você comprou, em infindáveis parcelas, valer cada centavo? Então aumenta que isso aí é rock'n'roll!

Jack Black, que já mostrou ser dos melhores comediantes da nova safra do cinema, prova aqui ser um excelente músico. Junto ao parceiro Kyle Gass, ele conta a história de sua banda, a Tenacious D, em busca de uma palheta feita do dente do capeta que tem poderes para transformar qualquer um em astro do rock. O que se vê na tela, e que se escuta também, é uma sensacional e surpreendente ópera rock da melhor qualidade! Letras escatológicas, sexo (quer dizer, tentativas de sexo), drogas e muito rock'n'roll fazem parte do roteiro.

A direção é por conta do experiente Liam Lynch, que também é músico e teve a oportunidade de estudar em uma das mais famosas escolas de arte da Inglaterra, em Liverpool. O filme conta com uma abertura que certamente vai ser lembrada por muito tempo, com participações de Meat Loaf, veterano do gênero musical, e Ronnie James Dio, o eterno vocalista do Black Sabbath.

Ah, o desfecho também vai entrar para a história, com a participação de um diabo escolhido a dedo! Vale a pena tentar descobrir quem ele é....

Dica: fique até o final dos créditos!

#59 - Uma verdade inconveniente (An inconvenient truth), de Davis Guggenheim


Que os Estados Unidos são os maiores emissores de gases poluentes na atmosfera, que foram um dos dois únicos países a não assinar o Protocolo de Kyoto (o outro foi a Austrália, logo quem, que tem um enorme buraco na camada de ozônio bem acima de seu território) e que tentam empurrar artigos dizendo que o aquecimento global não é provado cientificamente, isso todos nós estamos carecas de saber.

O que preocupa é que muito pouco é feito e, mais que isso, muito pouco é cobrado de quem poderia fazer alguma coisa para salvar o planeta. Al Gore, na qualidade de ex-vice presidente de uma potência econômica que sempre cagou para políticas ambientais, resolveu usar seu discurso autorizado para promover ao redor do mundo uma espécie de palestra sobre o assunto.

Os dados que ele possui, os estudiosos que reuniu e o slide show que ele usa em suas apresentações são até convincentes. O problema é que, de repente, saímos da tal sala onde ocorre sua explanação sobre aquecimento global para planos em câmera lenta, com fotografia p&b, trilha sonora tristonha e uma narração emocionada sobre memórias de infância. É isso que irrita e que atrapalha o ritmo do filme. À cada conclusão de um tópico, a inevitável dúvida: espera lá, é sobre aquecimento global ou sobre Al Gore?

Por esse lado, é constrangedor - exatamente como a política estadunidense!

#58 - Febre de juventude (I wanna hold your hand), de Robert Zemeckis


Cantores sertanejos e pagodeiros precisam mesmo é agradecer aos Beatles por fundarem um estilo todo próprio de manifestação de apreço artístico por parte dos fãs: a histeria coletiva! Em "Febre de Juventude", um grupo de jovens idólatras do quarteto inglês resolve invadir o hotel onde eles estão hospedados, em Nova York, para uma apresentação no programa de Ed Sullivan (espécie de Flávio Cavalcanti ianque, sem quebra de discos).

O que é explorado nessa comédia é a tal febre que os FabFour causavam em seus fãs - e poderia até mudar o gênero do pronome para "suas", porque as histéricas mesmo eram as mulheres. A produção a cargo de Steven Spielberg e a direção de Robert Zemeckis, parceria que rendeu muitos frutos, garantem mais uma daquelas produções para toda a família.

Ao som de músicas que até a sua mãe curte, fica bem mais fácil de gostar desse filme. É leve, divertido e passa bem rápido. Os atores não eram, e nem seriam anos mais tarde, tão conhecidos do grande público, mas dão boa conta do recado! Algumas imagens de arquivo são utilizadas para ilustrar o que um beatlemaníaco era capaz por seus ídolos.

Assim como o rock dos Beatles, essa comédia não envelheceu. Iê iê iê!

domingo, setembro 09, 2007

#57 - A felicidade não se compra (It's a wonderful life), de Frank Capra


Sim, dois filmes de Frank Capra seguidos. Desta vez, trata-se de um conto de Natal - no melhor estilo filme-para-toda-a-família. "A felicidade não se compra", porém, foi referência para muitas produções de temática natalina, tanto no enredo como em seus efeitos visuais.

O roteiro conta a história de um sujeito que tem um banco e, repentinamente, por não se curvar aos interesses de um poderoso empresário, se vê à beira da falência. Deus escuta as preces das pessoas que vivem ao seu redor e envia um anjo para socorrê-lo. O protagonista começa a viver, então, um exercício de análise e autoconhecimento... às vésperas do Natal... Não soa familiar?

Na parte cenográfica, a neve nunca mais foi a mesma nas telas depois de Frank Capra. Até então, o material usado como neve era pipoca. Porém, os diálogos precisavam ser dublados, uma vez que as pipocas faziam barulho ao caírem no chão. Como Capra queria utilizar som direto em todas as cenas, precisava se livrar de qualquer ruído. Logo, foi à pesquisa e encontrou um combinado de espuma, água e um material usado pelos bombeiros. Resultado: a neve perfeita!

Ao longo do filme, pode-se reconhecer cenas que serviram de inspiração para diversas produções, incluindo "Scrooged" e até mesmo "De volta para o futuro 2".

Podia ser piegas, mas não é. Clichê? Um pouco, ainda mais se você considerar o natal um clichê por si só. Porém, não tem rena de nariz vermelho e nem Papai Noel. Bom, né?

#56 - Aconteceu naquela noite (It happened one night), de Frank Capra


Frank Capra, sem dúvida nenhuma, sabe o que é preciso para se fazer uma boa comédia. Juntou Clark Gable, canastrão de primeira, e Claudette Colbert, ex-cônjuge de Chaplin, em um roteiro ágil e divertido, do que se convencionou chamar da primeira "screwball comedy" da história do cinema.

Porra, mas o que é "screwball comedy"? - você pode estar se perguntando. Explicação necessária: são comédias cujos temas beiram o absurdo, de diálogos rápidos que mantém uma cadência ágil, com piadas ligeiras e desfechos criativos.

Aqui, uma moça de família resolve fugir do pai para se casar com um playboy fútil e vazio. No meio do caminho, ela acaba se perdendo e encontra um jornalista desacreditado. Os dois partem juntos em uma viagem cheia de percalços e encrencas rumo à Nova York. O resto não preciso contar, né?

O filme ganhou os prêmios mais importantes do ano em que foi lançado. Até hoje consta sua presença na lista das 50 melhores comédias da história do cinema.

E aí, convencido a vê-lo?

#55 - Faster, pussycat! Kill! Kill!, de Russ Meyer


Só pelo nome, já vale. Porém, é bem melhor que isso! Eis um dos mais cultuados road movies da história do cinema. Carros velozes, mulheres insinuantes e muita briga fazem desta produção de 1965 um ícone, com cenas e planos que se tornaram referência para toda uma geração de realizadores.

O narrador do filme avisa: prepare-se para violência em forma de mulher! Tura Satana, que interpreta Varla, a líder de uma gangue de dançarinas, é o capeta em forma de mulher. Má, de verdade. Com traços orientais, vestida toda de preto, cintura fina e seios fartamente decotados, ela comanda um plano para arrancar a fortuna de um velho paraplégico depravado que mora no meio do deserto. Ao lado de suas bem fornidas comparsas, uma mexicana e uma loira fatal, ela se mete em rachas e brigas - uma verdadeira saraivada de golpes de caratê, com direito a "iáááá"!

O filme conta com trilha sonora psicodélica e edição extremamente veloz. É possível notar que cineastas como Quentin Tarantino beberam na fonte do universo criado por Meyer. Ele mesmo dizia que um filme, para ser realmente bom, precisava de velocidade (faster), sexo (pussycat) e violência (kill). Difícil acertar a mão com estes ingredientes, mas ele conseguiu.

De fato: uma ode à violência que existe na mulher.

quinta-feira, setembro 06, 2007

#54 - Dummy, de Greg Pritikin


Comédias românticas, na maioria das vezes, metem medo. Medo do roteiro, da direção, das atuações e, principalmente, dos desfechos.

Nada de novo por aqui. Trata-se da história de um sujeito tímido, daqueles personagens clássicos, desajustado socialmente, que abandona seu emprego para realizar o sonho de ser ventríloquo. Ele se apaixona por sua conselheira profissional e, utilizando-se do discurso do seu boneco, passa a ganhar confiança. Ou seja, nada de novo mesmo. O que prendeu minha atenção em "Dummy" foi o elenco.

Aí você pode pensar: ah, sim, o elenco, com Adrien Brody (aquele que ganhou o Oscar com "O pianista"). Porém, quem rouba a cena é Milla Javovich, mesmo em um papel pra lá de coadjuvante. Foi ela quem me manteve de olhos grudados na tela até o fim, interpretando a líder de uma banda de rock que, repentinamente, muda o repertório para música judaica só para conseguir tocar em um casamento. Sensacional!

Podia ser pior, né? Imagina se fosse com a Julia Roberts?

domingo, setembro 02, 2007

#53 - Palhaços assassinos do espaço sideral (Killer Klowns from outer space), de Stephen Chiodo


Palhaços são personagens curiosos: fazem rir e ao mesmo tempo chorar. Causam repulsa e ao mesmo tempo encantamento. Se um palhaço por si só já é estranho, imagine uns vinte? E se eles forem alienígenas? E se a nave tiver a forma de uma lona de circo? E se eles usarem armas que envolvem as pessoas em casulos gigantes de algodão doce? Pois assim é este clássico sci-fi no melhor estilo B sobre o gênero circense!

Muito já se fez sobre palhaços no cinema. Para o bem (Fellini, no seu maravilhoso "Palhaços") e para o mal ("Clown house", um dos mais assustadores, deixa "It" no chinelo). O que ninguém havia feito até então era um meio termo completamente alucinado, com piadas de humor negro e pitadas de suspense.

Os responsáveis pela façanha, os Irmãos Chiodo, têm uma empresa especializada em efeitos especiais. De fato, efeitos não são o forte desta produção do final da década de 80. Porém, a cenografia e o figurino de referência aos palhaços são espetaculares. Eles são grandes, com cabelos esquisitos, dentes afiados e risadas malévolas, mas é impossível não cair na gargalhada com a clássica cena do confronto entre um deles e motoqueiros barra pesada.

Esta foi a única vez que um dos irmãos Chiodo assumiu a direção de um longa. Por isso, você pode até achar que os diálogos não são lá grandes coisas, que a trama tem uns buracos (e tem mesmo, há falha na montagem dos fotogramas...) e que os atores não rendem o esperado. Pois tudo isso só aumenta o status do filme como uma pérola do sci-fi B.

Palhaçada! E das boas!

domingo, agosto 26, 2007

#52 - The Immoral Mr. Teas, de Russ Meyer


Se nós, jovens (balzaquianos, uni-vos!), tínhamos Cine Privê, Sexta Sexy e Sessão Nacional, nossos pais tinham Russ Meyer! Grande sujeito, responsável pelos primeiros filmes repletos de peitinhos e bundões desnudos, despudorados e, de certa forma, comportados.

Este clássico do cinema erótico é uma produção de 1959, de baixo custo e muita criatividade. Em pouco mais de uma hora, Mr. Teas, um vendedor de próteses dentárias, tem alucinações e consegue ver o que há por baixo das vestimentas de mulheres insinuantes - tudo isso por causa de uma anestesia que ele toma ao ser atendido por um dentista.

Guardadas as devidas proporções, Mr. Teas é uma espécie de Jacques Tati excitado. Impossível não traçar algum paralelo entre os dois. Além do filme não ter som direto, o ator usa de certa pantomima para criar situações engraçadas. O figurino também faz lembrar o comediante francês: uma inseparável bicicleta e um chapéu branco de laço azul.

A narração do filme é maravilhosa. Claro, não há muito o que narrar. Por isso mesmo, o texto traz informações aleatórias, desconexas com a trama, que são hilárias. Enquanto os peitinhos desfilam debaixo do sol, somos informados sobre o bem que a luz solar faz não só ao ser humano, mas também às plantas, que realizam fotossíntese.

Assistido em uma sessão do mais recente cineclube carioca: o CineGostoso, excelente idéia da galera que já agita o Sex_Arte. O local de exibição, o salão do Hotel Paris, de... digamos... "alta rotatividade", não podia ser mais apropriado!

E em breve, mais clássicos do gênero! Ah, esse cine clube promete...

#51 - Sacco e Vanzetti, de Giuliano Montaldo


Na capa deste filme, havia duas informações que prometiam um bom filme: trilha sonora composta por Ennio Morricone, grande mestre, e interpretação da mesma por Joan Baez, com seu timbre inconfundível. O que eu não sabia era que tratava-se de um filme de fundo político, que contava um dos episódios mais lamentáveis da justiça estadunidense.

Resumindo os fatos, é mais ou menos assim: a dupla que dá nome ao filme, italianos imigrantes e membros do movimento anarquista, é presa por porte de armas de fogo. Logo após, é acusada de um roubo seguido de homicídio. Em um dos julgamentos mais manipulados da história, os dois são condenados à cadeira elétrica por um crime que, sabidamente, não haviam cometido. Ou o delito seria, simplesmente, serem anarquistas?

O filme mistura imagens de arquivo com excelente ambientação e figurino. Podemos ver imagens documentacionais de mobilizações e passeatas ao redor do mundo para que Sacco e Vanzetti fossem libertados. O roteiro tem bastante ritmo, o que faz com que a ação não fique monótona. Inclusive, o advogado de defesa é um italiano de sangue quente, neurastênico e sarcástico, responsável por momentos impagáveis da trama.

Porém, o mais bacana é o fato do filme, ambientado nos Estados Unidos, ser falado em italiano! Comumente, devido à massificação hollywoodiana, o que acontece é o contrário. Nos acostumamos a ver italianos, franceses, africanos, asiáticos, seja lá que povo for, falando inglês impecável, por vezes até com sotaque britânico. Em "Sacco e Vanzetti", é extremamente divertido ver todos os estadunidenses, inclusive juízes e políticos, falando um italiano impecável, usando até mesmo o gestual típico. Tão divertido, que há uma cena que fica nonsense: um suposto italiano, que não entende inglês, precisa do auxílio de um tradutor para prestar depoimento. Resultado: o tradutor faz a pergunta em italiano, ouve a resposta em italiano e traduz à corte em italiano!

O filme foi proibido no Brasil devido ao regime militar. Pois agora, cabe a nós difundir esta história e mostrar como a luta pela liberdade precisa prevalecer. Sempre! Ainda mais em um país como o nosso, cheio de contradições e disparates sociais.

segunda-feira, agosto 20, 2007

#50 - The science of sleep (La science des rêves), de Michel Gondry


Não me arrisco se apostar que, em pouco tempo, Michel Gondry vai ser conhecido como um dos maiores cineastas do nosso tempo. Oriundo da direção de video clips, a mim parece que ele encontrou uma liguagem só dele. Os tipos de efeito que Gondry usa são geniais. Dispensa computadores, super máquinas e mega produções. É tudo fruto de um exercício cinematográfico que vai ao limite da criatividade.

Como em "Brilho eterno de uma mente sem lembrança", eis mais uma história de amor. E que história! Um ilustrador se muda para Paris e se apaixona por sua vizinha. Porém, sua timidez cria barreiras para consumar a relação. Ele prefere se esconder em seus sonhos, os oníricos mesmo, ao invés de encarar a realidade. Prato cheio para Gondry usar e abusar de sua técnica.

Os cenários são estonteantes! Há desde um estúdio de papelão até um mural em constante movimento, onde recortes, colagens e animações em stop motion ganham vida. Experimentação cinematográfica levada ao extremo. Gael García Bernal e Charlotte Gainsbourg esbanjam competência como o par romântico.

"The science of sleep" é um daqueles filmes maravilhosos. Dá vontade de tê-lo na estante para poder rever constantemente.

Ah, se as comédias românticas fossem quase sempre assim...

#49 - Oldboy, de Chan-wook Park


A maioria das pessoas que eu conheço que viram "Oldboy" concordam que ele é muito bom. Porém, a maioria também adverte que o filme é violento demais. O que eles esquecem de dizer, além disso, é que todas as cenas são recheadas com belas tiradas, ótimos diálogos e raros, porém memoráveis, momentos de humor.

Histórias sobre vingança costumam ser sempre as mesmas. Não neste caso. A trama vai tomando caminhos imprevisíveis até culminar em um final em que não se tem a menor idéia do que vai acontecer. Nós, espectadores, acompanhamos a saga de um homem que fica preso em um quarto por 15 anos. Após ser solto sem maiores explicações, ele vai atrás de seu algoz.

É um filme violento e tenso, porém nem tão difícil assim de ser visto. Mérito da direção que dosa perfeitamente violência com criatividade.

#48 - Fanny e Alexander (Fanny och Alexander), de Ingmar Bergman


Entrei na locadora sabadão à noite, notei a pilha de devoluções que haviam sido feitas no final do dia e lá estavam vários filmes do Bergman. Perguntado sobre, o balconista confirmou minha suspeita: por causa da morte deste monstro sagrado da sétima arte, seus filmes começaram a ser mais alugados. Triste que aconteça só agora. Bom saber que mais pessoas estão se interessando por Bergman.

E lá estava "Fanny e Alexander", com suas três horas de duração. Sempre há tempo para rever clássicos como este. Alugado.

Bergman filmou esta obra-prima já maduro, em 1982, depois de retornar da Alemanha para sua cidade natal, na Suécia. Segundo o próprio, esta é sua biografia cinematográfica. O roteiro conta a história de duas crianças, as do título, que passam por transformações profundas quando o pai, diretor de um teatro, morre. Para rechear a densa trama, lá estão o simbolismo e o realismo fantástico.

Muita gente diz que este filme é o menos "bergniano" (odeio estes termos...) do realizador sueco. Discordo. É misterioso, intrigante, luxuoso, impecável. Uma verdadeira aula de direção. Uma verdadeira obra de arte.

Não é um filme para o gosto comum, de jeito nenhum. Porém, eu o vi comendo pipoca, ora bolas! E para aqueles que dizem que cinema de arte (odeio este termo também) é chato, faço minhas as palavras de Glauber Rocha, que dizia que "a linguagem cinematográfica é muito rica para apenas contar histórias".

Ave Bergman!

#47 - A queda - as últimas horas de Hitler (Der Untergang), de Oliver Hirschbiegel


Um bom filme de guerra não precisa ter explosões, carnificina, chuva de balas e soldados enlouquecidos - ainda que tudo isso não seja lá ruim para o gênero. Boas mesmo são aquelas produções que fazem nossos olhos não acreditar no que estão vendo, que nos transportam para a época do combate, que nos aproximam a uma distância nada segura dos inimigos. Pois "A queda" cumpre tal missão com honras.

O filme mostra as últimas horas, de fato, as últimas mesmo, de vida do ditador alemão. Tão últimas, que o cenário não é um campo aberto de batalha - e sim um bunker muito bem escondido onde os líderes nazistas se acoam, esperando que os russos tomem Berlim e os capturem. Tudo isso narrado por uma secretária particular do ditador. Clima soturno e fúnebre, como a guerra.

A caracterização dos personagens é perfeita, o figurino é impecável e a cenografia é brilhante. O ator que interpreta Hitler, Bruno Ganz, dá um show à parte. Não poderia dizer que seu trabalho é fiel à realidade. Porém, é assustador!

O final, se você estudou para aquela prova de história quando estava na sétima série, já é sabido. Mesmo assim, é imperdível.