No mesmo dia, hora e local em que acontecia a cabine de imprensa do badalado Jean Charles, era exibido à imprensa o filme francês Bem-vindo, de Philippe Lioret. Para a sessão do primeiro, distribuição de brindes, farto café da manhã e sala cheia. Já para o segundo, apenas uma dúzia de espectadores - me inclui aí. Não vi o filme do Selton Mello, por isso não posso fazer juízo sobre o mesmo. Porém, fato é que, ao final da sessão de Bem-vindo, minha vontade era de dizer a quem viu Jean Charles: perdeu um filmaço!
O roteiro é daqueles que conseguem extrair de um argumento aparentemente simples toda uma reflexão sobre superação sem cair em excessos ou clichês. Conta a história de um jovem curdo, em fuga da guerra no Iraque, que tem como objetivo ir à Inglaterra encontrar sua namorada. Quando chega à França, porém, é impedido de atravessar o Canal da Mancha pelas autoridades. Decide, então, atravessá-lo a nado. Detalhe: ele não sabe nadar. É daí que surge a amizade com um professor de natação, divorciado e desacreditado, que resolve ensinar o garoto a dar as primeiras braçadas.
A direção de Lioret funciona muito bem, fazendo com que a tal "mensagem", que na maioria das produções do gênero é atirada violentamente contra a plateia, se dê de forma lenta e gradual. Sendo assim, não há diálogos marcantes, atuações exacerbadas, trilha sonora emotiva ou final didático. Ao invés disso, o filme aborda de forma testemunhal uma série de conflitos, sejam eles religiosos, étnicos ou humanitários. O ritmo da narrativa vai crescendo até culminar em um último ato verdadeiramente lindo, maravilhoso! E o melhor: sem uma gota de sentimentalismo barato.
Durante os 13 episódios de Berlin Alexanderplatz, Fassbinder utilizou-se de todo o seu apuro como diretor meticuloso pra contar a história de um sujeito que sai da cadeia, após matar a sua mulher, e tenta levar uma vida honesta na Alemanha entre-guerras. Se durante todos os capítulos da série o cineasta imprimiu um rigor estético mais expressionista, alinhado com o livro de Alfred Döblin, é no epílogo que ele desenvolve um cinema que lhe é típico: brutal, assustador e intenso.
O desfecho de Berlin Alexanderplatz é uma reflexão sobre todo o conteúdo expressionista da obra de Döblin. Fassbinder escreveu o roteiro e se permitiu ir um pouco mais a fundo nas histórias individuais dos personagens. O epílogo tem início com Franz Biberkopf, o protagonista, andando pelas ruas de Berlim ao lado de dois anjos. Ele encontra todas as pessoas que fizeram parte da sua trajetória de vida e escuta delas ajuizamentos dos mais diversos. Logo depois, entra em uma espécie de surto delirante. E é aí que Fassbinder se esbalda!
Imagens brutais, que mais parecem instalações artísticas, são atiradas contra a tela para expressar uma espécie de morte, de paralisação, da consciência de Franz. Ele é visto em uma espécie de açougue humano, no qual se junta a uma pilha de corpos ensanguentados. Em meio à trilha sonora caprinchada, que mistura música erudita com Lou Reed e Elvis Presley, o espectador descobre ainda mais dados sobre a tumultuada trajetória da sociedade alemã daquela época.
Fassbinder explora questões que permeiam sua cinebiografia: o homossexualismo, a anarquia e o simbolismo religioso. Diferentemente do que consta no final do livro, o diretor vai mais a fundo nessas questões, deixando mais sublinhadas as tendências sexuais dos personagens, inserindo a participação de soldados nazistas à narrativa (lembrando que Döblin escreveu o livro antes do regime nazista tomar conta do país) e recriando imagens sacras.
A ousadia em levar a cabo o projeto de transformar um clássico da literatura expressionista alemã em imagens levou Fassbinder a ícone do Novo Cinema Alemão - movimento que, inclusive, finda com a sua morte. Criar uma obra adaptada de um livro, com mais de 15 horas de duração, para ser passada na TV e utilizando-se da linguagem cinematográfica é algo quase impensável. Quase.
Perturbador, intenso, maravilhoso. É tudo o que posso concluir de Berlin Alexanderplatz. Preciso, como cinéfilo que me proponho a ser neste espaço, recomendar a série a quem tiver acesso. É uma experiência realmente enriquecedora.
PS: Esse aí na capa do box é o próprio Fassbinder no set de filmagem.
Lady Pank é uma banda polonesa lá da década de 80 que não fez muito sucesso aqui no Brasil. Fazia um som proto-punk típico da região do leste europeu, com influências que mesclavam o rock inglês com a cultura cigana. A música mais conhecida dos caras, que talvez muita gente já tenha dançado em alguma festa mais obscura sem saber (se eu era o DJ, você já deve ter balançado o esqueleto ao som dessa), é "Minus Zero".
O clipe é muito doido! Tem um tanque rosa e gente comendo linguiça, além dos modelitos de guitarras, luvas e polainas sensacionais da época. Ou seja, é um típico exemplar do movimento pré-punk do leste europeu. Infelizmente, ele perde a sincronia lá na metade, mas nada que comprometa a sua diversão. Eu demorei muito tempo para perceber em que língua a música era realmente cantada. Achava que era uma mistura - hora em polonês, hora em inglês. Por isso, para facilitar a vida dos meus queridos leitores, eis a letra aqui. O vídeo, vai aí embaixo.Vale o confere.
Porém, minha história com a canção que fala sobre as modelos de Ulla é, digamos, inusitada.
Era o fim da década de 90. Eu estava em uma festa à fantasia bem chinfrim, em pleno Dia das Bruxas, num casarão de uma chácara em Campo Grande, aqui no Rio. Era numa região bem remota, longe da civilização. O que vale dizer que não havia escapatória. Como as músicas eram péssimas, as pessoas eram estranhas, o clima era de monotonia e a cerveja estava gelada, fui tratar de encher a cara até ficar completamente bêbado. Horas tantas, bateu o inconveniente de tanta bebida: me deu vontade de esvaziar a bexiga. Porém, não conseguia encontrar a porcaria do banheiro. Perguntei a um sujeito se ele sabia onde poderia despejar minha urina e ele me disse para usar a parede. Isso mesmo, você não leu errado. A parede do casarão seria o meu penico. Abri o zíper e mandei ver.
Não sei se o que vou narrar aqui costuma acontecer com alguém. Comigo, acontece sempre. Enquanto estou urinando, não sei por que cargas d'água (ou de xixi), não importa o nível de álcool no sangue, fico completamente sóbrio. Sou capaz de realizar cálculos mentais e de racionalizar com extrema sobriedade qualquer assunto. Porém, tudo acaba com a última gota, aquela da cueca. Volto à embriaguez total. Naquela festa, enquanto estava lá molhando a parede, o desgraçado do DJ tocou "Minus Zero". Na mesma hora, racionalizei:
Putz, eu adoro essa música, mas não sei o nome. O pior é que, quando acabar aqui, vou me esquecer dela. Se decorasse o que o sujeito está cantando, poderia catá-la na internet!
Dito e feito: assim que a última gota tocou a cueca, fiquei bêbado de novo e me esqueci o que o sujeito cantava. Lembrava-me apenas de ter um numeral no refrão (no caso, o zero). Nos dias seguintes - diria que foram até meses - tentei procurar a música usando diversas variações: million miles, thousand years, million years, hundred miles etc. Nada.
Foi então que, já desencanado da busca, numa dessas noites comuns, sonhei com a dita cuja. E era possível ouvi-la com total nitidez: minus zero! Minus Zero! Acordei com o refrão na cabeça e cheguei até a conferir se não havia feito xixi na cama. Lençol seco, pulei para a frente do computador, achei o nome da banda, o nome da música e o mais importante: o MP3!
Desde então, tenho ela como a música do meu inconsciente. Toco em quase todas as festas, ainda que poucas, em que sou DJ. E as pessoas curtem! Até um segurança de uma boate, uma vez, veio me perguntar o nome da banda. Disse ele que dançava muito essa música numas festas da década de 80, que aconteciam debaixo de um viaduto, em Madureira.
Assistir a qualquer filme de Glauber Rocha é uma experiência enriquecedora para quem pretende ir mais a fundo nas artes cinematográficas. São produções densas, diferenciadas e que levam à tela narrativas com linguagem brasileira. O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, filme colorido de 1969, faz da história do cangaço um verdadeiro western, mas com a cara de um Brasil esquecido pelo eixo do Sul Maravilha.
O personagem Antônio das Mortes, que esteve também em Deus e o Diabo na Terra do Sol, volta para cuidar de um grupo de cangaceiros que clamam por vingança e pelas terras de um sujeito abastado, cego e avarento. Apoiados por uma pequena comunidade carente liderada por um líder religioso, os justiceiros do sertão entram em conflito com o matador de cangaceiros, transformando o pequeno povoado de Milagres em um campo de batalha onde violência, religião e crítica social se misturam com imagens líricas e oníricas.
Os personagens são trabalhados em prol da narrativa, com características exacerbadas para que seus papéis na hierarquia do Nordeste sertanejo fiquem bem claros. Há o professor bêbado que ensina as crianças a decorar fatos históricos, a mulher em vestido roxo que trai o marido, o cangaceiro que vira mártir, o líder espiritual que guia a comunidade e a Santa Bárbara que é capaz de emocionar Antônio das Mortes.
Ao longo do filme, o povo é sempre retratado como um coletivo que mantém suas raízes firmes ao solo - exatamente o que o Cinema Novo tinha como proposta, em meio à concorrência com as produções estadunidenses. Por isso, homens e mulheres estão sempre a cantar e a dançar, em uma espécie de transe que envolve todos os personagens.
É nítido o apuro estético de Glauber Rocha. O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro é um filme enxuto, bem montado, bem editado e bem produzido. Uma pérola da cinematografia brasileira.
Já dizia o dito popular que tem gente que morre pelo estômago. É justamente dessa premissa que parte o delicioso e apetitoso roteiro de Estômago, excelente produção nacional dirigida por Marcos Jorge e estrelada pelo ótimo ator João Miguel. A gula, a avareza, a luxúria e outros pecados mortais vão à mesa em uma trama cheia de reviravoltas.
Tudo começa quando o retirante Raimundo Nonato chega à cidade grande sem lenço, sem documento e sem dinheiro para sobreviver. Acaba aceitando trabalhar de graça em um restaurante de quinta categoria cuja especialidade é coxinha de frango. A boa mão para a cozinha acaba levando Raimundo a uma espécie de pequeno estrelato local. Nesse meio tempo, ficamos sabendo que o protagonista está preso. A narrativa se divide em duas: o que aconteceu antes de Raimundo ser preso e como ele planeja sobreviver na cadeia. O dom da culinária acaba fechando celas e abrindo portas.
Para contar essas duas histórias, o filme conta com um elenco primoroso e bastante afiado, com gente que dá bastante veracidade às atuações. De quebra, participação especial de Paulo Miklos no papel de... bandido! Não tem jeito: Miklos é a versão brasileira de Danny Trejo. A direção é bastante ágil e mantém, em meio a situações tragicômicas, um bom clima de suspense.
O desfecho é particularmente sensacional. Lamento não ter visto na tela grande!
Frio, vinho, edredom e filme picante. Aproveitando o fim de semana de promoções na locadora aqui perto de casa, alugue 3 DVDs e leve um saliente na faixa, resolvi assistir a um clássico da cinematografia erótica, o polêmico e dramático O império dos Sentidos. A produção japonesa de 1976 chocou o mundo com sua forma onírica e cruel de tratar as obsessões sexuais.
A história é baseada em um fato real acontecido pouco antes do Japão entrar na guerra, em 1936. Segundo um artigo de um jornal da época, uma prostituta havia sido encontrada vagando pelas ruas com um pênis e seus respectivos testículos. Foi presa acusada de matar o amante, um senhorio de uma propriedade particular. A partir desse argumento, Nagisa Oshima constrói uma narrativa complexa que mescla as tradições orientais com as mais perversas práticas sexuais.
Não há concessões. Muitas das sequências de sexo são reais, incluindo cenas de penetração. O que diferencia O império dos sentidos de produções pornográficas é justamente o tratamento dado pela direção. Todos os movimentos dos protagonistas antecipam a tragédia anunciada. O sexo nunca é gratuito. Claro, há momentos realmente perversos (não é à toa que o filme foi banido e proibido em diversos países), como na famosa passagem do ovo. Cresci ouvindo falar sobre o que o casal assanhado fazia com o tal ovo cozido. É, de fato, bastante incomum.
Trata-se de uma obra de arte erótica levada aos extremos da condição humana. Ou seja, o clima pode estar favorável, o edredom confortável e o vinho bem envelhecido, mas os olhos não vão desgrudar da tela...
O 13º episódio da série de Fassbinder é mórbido. O peso das imagens, sempre banhadas por uma luz inacreditavelmente fotografada, acompanha o vigor de algumas passagens do livro de Alfred Döblin.
Franz Biberkopf chega ao fim de seu caminho. Chega a hora de sua ruína. Ele está liquidado.
Em epílogo ainda por vir, Franz vai fazer um balanço de sua conturbada vida, que nada mais é do que um mosaico da vida do homem comum na Alemanha arrasada do período entre-guerras. Sendo assim, o protagonista é nada mais do que o próprio brio germânico - e talvez por isso mesmo Berlin Alexanderplatz seja um marco na cinebiografia do país.
O destaque fica por conta da interpretação magistral de Günter Lamprecht, um monstro! O episódio é aberto e fechado por atuações verdadeiramente arrebatadoras.
Nossa caríssima Radiola Vacilante continua a pleno vapor! Episódio novo publicado, carimbado e liberado para o consumo.
Falamos sobre os filmes da semana (retrasada, né? - mas tá valendo...), a caixa dos Pixies, cujo preço me levou às lágrimas, a E3, famosa feira de games e sobre o nosso querido basquete, tanto o estadunidense quanto o brasileiro.
Para ouvir, vocês já sabem: cliquem aqui. E sejam felizes!
Até poderia ter escrito no título o nome em português de Pineapple express, o novo filme de Seth Rogen produzido por Judd Apatow. Porém, me recuso. E faço isso como um favor aos meus poucos, porém queridos, leitores. Para não afugentá-los, chamemos o filme pelo nome original, em inglês.
Trata-se de uma das melhores comédias do ano, na minha humilde opinião. Apatow mostra mais uma vez quem é o cara que faz os melhores representatntes do gênero cômico, que andava pausterizado e repetitivo. Em Pineapple express, além de piadas escatológicas e perversas, há também muita ação, violência e sangue! Tudo isso recheado de referências cinematográficas que brincam com certos clichês.
A história começa quando o pacato Dale Denton (Rogen), entusiasta da erva que trabalha como uma espécie de oficial de justiça, entregando intimações e notas de cobrança de empresas privadas, testemunha um assassinato. Ele, o seu fornecedor (James Franco, ótimo) e o intermediário do maior traficante da cidade (Danny McBride, espetacular) acabam se envolvendo em uma guerra narcótica, envolvendo experiências militares secretas e a máfia chinesa.
Não se trata apenas de mais um filme de maconha. A direção de Green é impecável e extrai o melhor do trio principal de comediantes. Os diálogos são inteligentes, sarcásticos e certeiros. As sequências de ação são muito bem marcadas e executadas, exagerando os clichês comuns ao gênero. De quebra, algumas cenas remetem, ainda que discretamente, a sucessos de bilheteria como Kill Bill, Bruxa de Blair e Cães de aluguel.
Reta final da série Berlin Alexanderplatz, a obra-prima de Fassbinder. Como ficou sugerido na resenha anterior, o clima fica realmente tenso. Tudo pronto para um gran finale!
Por incrível que pareça, o episódio 12 começa com uma cena inusitada, com cerca de 10 minutos de duração, na qual Franz e Mieze brincam feito crianças. Entretanto, passada a sequência inicial, os diálogos vão ficando mais densos. Mieze acaba se encontrando, secretamente, com Reinhold - o sujeito feioso e esquisitão com quem Franz "trocava" mulheres. O ápice da trama, então, acontece.