sexta-feira, fevereiro 17, 2017

Animais noturnos (Nocturnal animals), de Tom Ford

Pode-se dizer que Animais noturnos é uma meta-adaptação. Explico: o que se vê durante a projeção é a recriação cênica do que a protagonista imagina ao ler um livro escrito por seu ex-marido, em cuja folha de rosto há uma dedicatória a sua pessoa. O interessante é que o conteúdo do texto - e, logo, de parte do filme - é bastante forte e impactante. Pano para manga, já que adaptações da literatura para o cinema costumam errar justamente na adequação ao suporte. Aqui, são três os suportes: o filme em si, o livro dentro do filme e o filme adaptado desse livro que, em si, não existe. Eu hein! Baita desafio.

Amy Adams interpreta a proprietária de uma galeria de arte que teve sua vida completamente alterada no passado, quando se envolveu com um outro homem fora de seu casamento. Infeliz no trabalho e na vida conjugal, um dia ela recebe o manuscrito do tal livro de seu ex-marido (Jake Gyllenhaal), que em breve será publicado. A história fala sobre um homem que se desentende com um grupo de arruaceiros em uma estrada deserta do Texas (olha o mapa ali no poster, uma boa sacada!), colocando sua família em risco. Os personagens e seus comportamentos guardam semelhanças com a vida que os dois levavam no passado.

A primeira hora de filme é espetacular. Um suspense daqueles capaz de prender o espectador na poltrona com um roteiro inteligente e repleto de reviravoltas. No entanto, o argumento se resolve ali mesmo, fazendo com que a hora seguinte seja um pouco enfadonha, mais lenta e até, em certo ponto, previsível. Inclusive, o desfecho do livro, como mostrado em forma de filme, é um pouco preguiçoso. Impossível não imaginar que um leitor que passasse pela adrenalina das páginas iniciais não fosse se decepcionar com o último capítulo caso comprasse um exemplar.

Crianças, o leopardo é um animal noturno.
Apesar dessa pequena decepção com a estrutura narrativa do metalivro, o desfecho do "filme em si" (bateu síndrome de Heidegger com a "coisa em si"...) é acertado. Rápido, direto, montado de forma simples, sem muitas explicações ou especulações. Filmar o impacto de uma leitura numa personagem fílmica é uma tarefa bastante complexa, mas no fim das contas o diretor Tom Ford cumpre de forma respeitável a demanda.

Um filme diferente. Em si.

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

Manchester à beira-mar (Manchester by the sea), de Kenneth Lonergan

Tenho visto muita gente questionar se vale a pena assistir a Manchester à beira-mar. O comentário geral é que trata-se de um filme muito, muito, muito triste. De fato, o argumento é denso, pesado, acinzentado, para citar o Dória. No entanto, quando dirigido com pulso firme, esse tipo de cinema é capaz de tirá-lo da zona de conforto e ainda por cima fazer com que você agradeça por isso.

A projeção começa fazendo com que o espectador estranhe o comportamento autodestrutivo e as atitudes violentas de um homem que trabalha fazendo pequenos consertos em um prédio na grande Boston. Um dia, ele recebe uma ligação na qual é informado sobre a morte de um parente. Logo, aos poucos, vamos entendendo o que aconteceu para que sua vida tomasse um rumo obscuro. E aí entra a mão certeira do diretor Kenneth Lonergan - que, além de cineasta é escritor e dramaturgo.

Guardadas as abissais devidas proporções, a construção dramática do filme de Lonergan lembra a de Paris, Texas, obra-prima do mestre Wim Wenders: a história é contada de forma não linear, com bastante calma, ao mesmo tempo em que vai se desvelando uma brutalidade emocional extrema sem que nenhuma sequência seja visualmente gráfica ou exageradamente melodramática. Palmas para a direção de atores, que tira do elenco atuações realmente incríveis. O destaque fica por conta de Casey Affleck, irretocável! Constrói, com uma simplicidade natural, um personagem complexo e ao mesmo tempo carismático.

Assistia ao filme, mesmo que ninguém cante, dance ou sapateie.
A trilha sonora é outro destaque. É usada de maneira sábia, sem sobressaltos, ainda que presente o tempo inteiro. Pontua com perfeição o desenvolvimento da história, sem interferir na dramaticidade das interpretações, o que é raro no cinema contemporâneo de Hollywood. Enfim, Manchester à beira-mar é um filme maduro, bem feito, distante anos-luz de seu principal concorrente, recordistas de nomeações ao Oscar, resenhado aí embaixo.

Saia da zona de conforto no cinema. Vez em quando vale a pena.

domingo, janeiro 29, 2017

La la land, de Damien Chazelle

Durante a projeção, eu só me lembrava de Lars Von Trier e seu Dançando no escuro. Selma, interpretada brilhantemente por Björk, dizia que gostava dos musicais porque neles nada de mal realmente acontece. O que o diretor dinamarquês queria dizer com isso é que faz parte da estrutura do gênero as constantes quebras na narrativa, que acabam por atenuar qualquer dureza de um realismo mais intenso. Em La la land, de fato, nem tudo são flores e há interrupções musicais. O problema é que nada acontece. Nem algo bom, nem algo ruim. Simplesmente nada. E para piorar - ou não - o filme não se assume como um musical, mas sim como um protomusical.

Acompanhamos a história de um homem e uma mulher que respiram o star system da Los Angeles cinematográfica. Ele, um pianista, amante de jazz, frustrado por ter que tocar um tipo de música que não quer. Ela, uma balconista de cafeteria que, enquanto atende estrelas de Hollywood, participa de testes de elenco em busca do estrelato. Os dois se cruzem na "Cidade dos Sonhos" lynchiana e passam a compartilhar seus sonhos, por mais que de início isso pareça impossível - senão não tinha história de amor, né?

A primeira questão que faz de La la land um filme fraco é o enjeitamento e a apatia dos personagens. Ambos são rasos, chatos e cheios de questões desinteressantes. Nem a excelente Ema Stone, por mais que se esforce, consegue injetar um pouco de empatia ao seu papel. Depois, o rumo que suas vidas seguem são enfadonhos, previsíveis e ordinários, a ponto de não justificarem nenhum número musical. Ou seja, as canções e letras versam sobre corriqueirices que parecem ter sido escolhidas para as tais quebras narrativas de forma totalmente aleatória. Para piorar, o que deve ter irritado os fãs do gênero, há um hiato bastante longo no qual não há uma cena musical sequer - por isso chamei o filme, lá em cima, de protomusical.

Obviamente, na qualidade de grande produção, La la land tem alguns acertos. O plano sequência inicial é muito bem feito e ensaiado. Mas as ousadias estética e coreográfica param ali. Há também algumas referências bacanas ao longo da projeção, como as cenas no observatório de Los Angeles, relembrando clássicos que usaram o local como cenário. Curiosamente, há uma tentativa de terminar o filme como Casablanca, uma referência cinematográfica (apesar de não tratar-se de um musical) assumida logo no início da projeção. No entanto, fica na tentativa. Se eu falar mais, caracteriza-se um spoiler, e não quero irritar meus meia-dúzia de leitores que ainda não assistiram ao filme.

Outra curiosidade é a implicância do personagem de Ryan Gosling com o samba. Ele critica um antigo clube de jazz por deixar de abrigar o gênero para dar espaço a músicos de samba. E fala samba com aquela ojeriza de quem não conhece Cartola, Nelson Cavaquinho, João Gilberto ou a Bossa Nova - esta, por exemplo, que se assemelha em termos harmônicos com o jazz.

"Então você não gosta de samba? Conte-me mais..."
Enfim, um filme chato.

sábado, janeiro 28, 2017

Até o último homem (Hacksaw Ridge), de Mel Gibson


Mel Gibson é um sujeito estranho. Em 2004, fez aquele filme louco sobre a crucificação de Cristo, falado em aramaico, que deixou muita gente chocada. Deu declarações equivocadas sobre os judeus e, sendo assim, enfureceu os membros da academia estadunidense. Virou persona non grata por lá e andou se envolvendo em alguns pequenos delitos, como dirigir alcoolizado, que renderam muitas manchetes para tabloides. Depois, rodou aquele filme sobre os maias, falado num dialeto indígena, que ninguém entendeu nada. Nem os maias, que ficaram fulos da vida com o cara.

Aí, uma década depois, ele lança Até o último homem e recebe seis indicações para o Oscar. Tá bom, então.

Parece que Mel Gibson resolveu fazer um pedido de desculpas em forma de filme, adulando os membros da academia que outrora o apedrejaram. A receita é muito simples e funciona: basta misturar, na mesma produção, a Segunda Guerra Mundial com uma história verídica de um herói militar. O diretor escolheu a lenda de Desmond Doss, um soldado que serviu como médico no Pacífico, salvando a vida de milhares de homens feridos no campo de batalha. A curiosidade é que ele era o que se chamava de "opositor consciente" - ou seja, por conta de sua crença religiosa, recusava-se a segurar uma arma e matar o inimigo. Interessante, né?

Conta a História que ele participou ativamente da batalha pela conquista de Okinawa, província ao sul do Japão cuja tomada poderia dar fim ao confronto. Para isso, era preciso passar por uma cordilheira que já havia ceifado dezenas de companhias estadunidenses, a tal Hacksaw Ridge que dá nome ao filme. Eis o roteiro que todos os membros da academia vão amar de paixão. Malandro esse Gibson.

Ué, mas ele não era um "opositor consciente", gente? Então...
O filme é fraco, bem fraco. As cenas de batalha até são bem filmadas, fato. Realistas, agressivas e violentas. Se bem que disso o diretor entende, dada a carnificina de seus dois filmes anteriores. No entanto, a maneira de contar a história é insossa e monótona. O personagem - ficcional, e não o Desmond Doss verdadeiro - é chato, fastidioso e sem graça. O roteiro é mal ajambrado, feito nas coxas, num ritmo lento e enfadonho que só é quebrado quando há combate, o que acontece muito pouco. Como a maioria dos filmes sobre Segunda Guerra Mundial, há aquele tom fajuto de resiliência, que acaba num festival de clichês melodramáticos, incluindo ao final da projeção algumas mini-entrevistas com os militares que participaram da guerra.

Mas parece que tem quem goste disso. Né, Mel Gibson?

quinta-feira, janeiro 19, 2017

Invasão zumbi (Train to Busan), de Sang-ho Yeon

Zumbis sempre foram garantia de diversão para os fãs de terror. Além das metáforas políticas e sociais que podem ser aplicadas aos mortos-vivos, esses filmes dão aos diretores e roteiristas a possibilidade de criar enredos que funcionam como uma reflexão sobre o que é ser humano, ou seja, estar vivo nesse mundo louco, cheio de gente que mais parece zumbi.

Isto posto, Invasão zumbi é uma excelente possibilidade de assistir na tela grande ao que pensam os sul-coreanos sobre sua própria contemporaneidade - sem contar que os caras já provaram há tempos que sabem fazer cinema com perfeição técnica e muita criatividade. Vale lembrar o momento que o país asiático atravessa: ano passado, milhares de pessoas foram às ruas se manifestar pedindo a renúncia da presidente Park Geun-Hye, acusada de corrupção e tráfico de influência.

Lembro o episódio porque é assim que os personagens do filme lidam com o fato de uma infestação zumbi ter tomado conta das ruas do país. A imprensa chama as criaturas alteradas de manifestantes. Os mais conservadores, vendo a polícia mandando bala nos zumbis, reclamam que tudo é motivo para protesto e que as pessoas nas ruas são umas desocupadas que têm mais é que morrer mesmo. O governo usa da catástrofe para decretar estado de exceção. Dá um caldo pra debate, né?

Na Coréia do Sul não tem essa de "braaaaaaaaaaains..."
Isso é só parte do recheio do roteiro, que conta a história de um corretor financeiro de Seul que precisa levar a filha para encontrar a mãe na cidade de Busan. Os dois não mantém uma boa comunicação, e a criança sente o distanciamento criado pelo pai, que se dedica exclusivamente ao trabalho. A relação dos dois será transformada durante a turbulenta viagem, que deveria ser tranquila não fosse uma mulher contaminada driblar a segurança e se esconder em um vagão após ser atacada e contaminada por um zumbi. Ela se transforma e aí... é salve-se quem puder!

O filme de  Sang-ho Yeon, diretor que até então só havia assinado animações, demora um pouco para engatar. Mas depois que acelera, é adrenalina pura. Roda ligeiro. Tem ação, comédia, suspense e drama, este último vez em quando até em excesso. O espectador não acostumado com a dramaticidade exagerada da interpretação oriental pode até achar que a narrativa está descambando para o melodrama, mas aí sempre acontece algo que faz o filme voltar aos trilhos, literalmente. A pantomima dos zumbis é bem bacana: eles são rápidos, ferozes e não atacam para matar, mas apenas para machucar. Além disso, há outras características interessantes que os diferem das criaturas de outros filmes do gênero, mas aí vou deixar para vocês descobrirem sozinhos.

Vale a passagem. Quer dizer, o ingresso.

quarta-feira, dezembro 21, 2016

A chegada (Arrival), de Denis Villeneuve

Eu sou apaixonado por ficção-científica. Em grande parte porque, ao transcender os limites humanos de tecnologia, tempo e espaço, impostos por nosso diminuto conhecimento  sobre o universo, somos capazes de realizar um exercício de criatividade que gera uma reflexão livre de amarras ou conceitos. É um gênero que sempre funcionou muito bem na literatura por não necessitar de suporte visual. Não à toa, A chegada, do diretor Denis Villeneuve, é adaptado de um conto escrito por Ted Chiang em 1998, chamado A história da sua vida.  Em entrevista recente, o autor se disse impressionado com a força da adaptação. Ainda não li o livro (já está no meu Kindle), mas o que vi no cinema me deixou completamente boquiaberto. Que filme!

O grande barato é que os recursos visuais, quem diria, nem são tão elaborados assim em A chegada. Na verdade, eles não fazem a menor diferença. O argumento, maravilhosamente humanista e científico, os dois ao mesmo tempo, trabalha em seu núcleo uma questão aparentemente muito simples: a linguagem, ou a capacidade de nos comunicarmos, é o que nos mantém unidos em uma sociedade organizada. Quando seres alienígenas chegam ao nosso planeta munidos de um sistema linguístico completamente diferente do que conhecemos, como proceder para entender suas intenções?

É aí que entra a personagem principal, uma doutora em linguística - muito bem interpretada pela sempre irretocável Amy Adams - que tem como árdua tarefa, além de decifrar os diagramas circulares aparentemente incompreensíveis dos alienígenas, lutar contra a pequenez dos líderes mundiais em acreditar que, diante daqueles que lhes são desconhecidos, sempre existe uma ameaça. É assim entre seres humanos, não seria diferente diante de uma civilização alienígena. E se aquilo que a protagonista diz é verdade, sobre a língua ser a a cola que mantém as sociedades unidas, será que não está faltando, justamente, diálogo por aqui?

Canta aí com o Human League: "I'm only human..."
No decorrer do filme, a trama vai se construindo de forma que, no desfecho - que é de uma genialidade tocante -, temos exatamente o que de melhor a ficção-científica pode proporcionar enquanto produto da criatividade humana: um pequeno, porém potente, vislumbre do que é vida e como ela está intrinsecamente conectada ao espaço, ao tempo e aos nossos semelhantes, sem precisar para isso teorias científicas, fórmulas matemáticas, estudos linguísticos ou o que quer que seja.

Tanto o início quanto o fim de A chegada têm um capricho audiovisual que é raro em filmes do gênero, atualmente tão contaminados pela necessidade mercadológica de sequências de ação. Mas Villeneuve é um diretor diferente, tem referências. A fotografia e o texto, em montagem harmoniosa, lembram Terrence Malick. O clima de suspense, sem sobressaltos, realizado em camadas, evoca Tarkovski. O casamento entre imagem e trilha sonora, executado com classe, recorda Kubrick (sem contar a estética do objeto, meio 2001 - Uma odisseia no espaço). As últimas cenas são de deixar o espectador com os olhos marejados.

E pensar que esse cara vai dirigir o novo Blade Runner...

terça-feira, dezembro 20, 2016

Rogue One - Uma história Star Wars, de Gareth Edwards

Parece que a gente vai continuar quebrando a cara, hein? Naquela remota data em que a Disney anunciou a compra da franquia Star Wars, fãs do mundo inteiro temeram pela qualidade da série, com receio de que uma onda provinciana estragasse um dos maiores sucessos de bilheteria da história do cinema. Fato é que, desde então, o pessoal por lá acertou em cheio. Comparado com os três primeiros episódios, produzidos antes da turma do rato falante assumir o controle, O despertar da Força e Rogue One são verdadeiras pérolas para quem curte a saga.

Aqui, acompanhamos os acontecimentos que antecedem o episódio 4, Uma nova esperança, o primeiro a ser lançado lá em 1977. Ou seja, vamos saber como os planos para destruir a Estrela da Morte foram parar nas mãos dos rebeldes - mais precisamente, nas mãos da Princesa Léa, que coloca o arquivo no R2-D2, que é vendido para o Luke, que é atacado pelo Povo da Areia e que é salvo pelo Obi-Wan Kenobi. Ou seja, tudo se encaixa perfeitamente e faz sentido, incluindo aí a emblemática frase que é repetida algumas vezes durante a projeção de Rogue One e que dá a deixa para o título do filme seguinte: rebeliões têm em comum a esperança.

Tecnicamente, a produção é perfeita. Explosões, efeitos especiais, rasantes aéreos, armas tecnológicas, exoplanetas, alienígenas esquisitos: tudo o que esperamos de um filme Star Wars está lá, impecavelmente criado e modelado para o entretenimento. O roteiro, obviamente, tem lá seus deslizes: algumas mensagens aqui, uma penca de lições de vida acolá. No entanto, é corajoso o suficiente para mostrar que durante uma rebelião, rebeldes cometem atos de... rebeldia, que vão muito além de quebrar vidraça de banco.

O núcleo de protagonistas de Rogue One é movido por uma causa humanista, com uma sólida base social e política, e que coloca até mesmo a Força, que é tão importante em todos os outros episódios de Star Wars, em segundo plano, tornando-se até substrato para uma gag bem divertida. Os objetivos são atingidos através do coletivismo. A força, aqui, é a união por um ideal. O movimento, podemos concluir, é laico.

Percebem? Rebeldes, resistência, Império, controle político... Bom, de volta ao filme.

Os personagens são um pouco mais complexos do que nas produções anteriores, buscando se afastar do maniqueísmo típico dos filmes de ação, ainda que de vez em quando (e isso é parte dos deslizes que comentei no parágrafo anterior), seja impossível se distanciar dos maneirismos que marcam heróis e vilões. Bom, estamos falando de Star Wars, não é mesmo? Logo, é demais exigir alguma complexidade no pathos de seus protagonistas. O grande destaque é o robô K-2SO - que tem o mesmo efeito de contraponto humano de seus antecessores androides.

No entanto, é divertido ver o pessoal torcendo para os "mercenários" e "black blocks" rebeldes. Fico imaginando a GloboNews fazendo a cobertura de um ataque ao Império... Ops, de volta ao filme!

Somos todos contra a corrupção.
O desfecho é ótimo e só confirma como George Lucas entendia de futurismo. A cena final, e isso não deve soar como spoiler, já que é meio óbvio, se passa no mesmo cenário, com personagens usando os mesmos figurinos e artefatos, do início do episódio 4. No entanto, ainda assim conseguimos ter a noção de que a história é ambientada numa galáxia muito distante, há milhões de anos-luz de distância. O design de 1977 parece perfeitamente criado para ser utilizado em pleno 2016 num filme de ficção-científica. Inclusive, vemos uma série de ícones do primeiro filme sendo reutilizados como pequenas homenagens (por exemplo, aquela bebida azul-calcinha que eles tomam num copo retangular, lembram?) que agradam o público mais experiente - ou seja, falando francamente, mais nerd. Taí um feito para poucos. Máximo respeito a George Lucas e sua equipe.

Então é isso: vamos esquecer os três primeiros episódios da série e esperar, ansiosos, o episódio 8.

quarta-feira, março 30, 2016

Cineminha com a Duda - Zootopia

Atendendo a pedidos, ela está de volta. A coluna mais lida deste blog retorna em grande estilo resenhando o novo sucesso da Disney. Ela gostou do filme e vai contar a vocês por quê. Já o pai... Bom, a palavra é dela.

Oi, gente! Voltei a escrever sobre filmes. Vou contar um pouco como é o Zootopia. E que comece o cineminha com a Duda!

Uma coelha chamada Judy, quando ela era filhote, faz um teatrinho na escola com seus amigos dizendo que queria um mundo em que todos os animais fossem amigos. Aí, quando ela cresce, decide viajar para Zootopia e ser policial lá. Ela treina, mas lá escolhem a função que cada um vai fazer. Ela acaba sendo guarda de trânsito, e aplica 200 multas. Um dia ela encontra uma raposa que aplica golpes. Mas depois ajuda ela a desvendar um mistério: procurar uma lontra que tinha desaparecido.

Não teve nenhuma parte que eu mais gostei, porque eu gostei do filme todo. Meu personagem favorito foi a coelha Judy Hopps. Esse foi um dos filmes que eu mais gostei. Eu daria 10 estrelinhas para ele. Eu fui ao cinema com meu pai, minha mãe, minha amiga Maria Eduarda Sá e a mãe dela.

Só esqueci de perguntar pra Duda Sá se ela gostou...

Obs.: Eu só escrevi sobre metade do filme, porque eu não quero estragar a surpresa.

domingo, janeiro 31, 2016

Anomalisa, de Duke Johnson e Charlie Kaufman

O bacana de ser roteirista, acredito, é poder viajar na maionese - e que o diretor se desdobre para dar conta de colocar na tela o que está escrito no papel. O mesmo que acontece entre arquitetos e engenheiros: o primeiro desenha e o segundo, se vira. No entanto, quando os dois entram em sintonia, o que se tem é um belo resultado final. Sempre foi assim com Charlie Kaufman, um dos roteiristas mais criativos do nosso tempo. Em Anomalisa, sua parceria com Duke Johnson foi um pouco além do texto, apropriando-se de bonecos para falar sobre uma questão essencialmente humana, a solidão.

Acompanhamos a história de Michael Stone, um homem de meia idade que está em crise: a ele, todas as conversas são as mesmas, todas as pessoas têm o mesmo rosto e até o mesmo tom de voz. Todos os dias são o mesmo. Em viagem de negócios, na qual vai falar sobre novas técnicas para otimizar centrais de atendimento ao cliente, ele conhece uma mulher - ou boneca - que parece ser diferente dos demais, hospedada no mesmo andar que ele. Disposto a abandonar tudo, "carreira, dinheiro, canudo", começa a acreditar que pode novamente ser feliz.

Dado a termos psicanalíticos e desordens mentais, aqui Kaufman explora a Síndrome de Fergoli, uma rara condição na qual o paciente acredita que todas as pessoas que o cercam são a mesma, disfarçada para persegui-lo e espioná-lo. Em Anomalisa, o protagonista não sofre desse mal, mas o hotel em que se hospeda chama-se, justamente, Fergoli, o que acrescenta à trama traços mais profundos da psique humana.

Uma cena de amor entre dois bonecos... Tem que se garantir!

Trata-se de um acerto do início ao fim. Forte, denso, emocionante e, por incrível que pareça, um dos filmes mais humanos da temporada, confirmando o acerto em fazer do argumento uma animação de bonecos. Os desafios que essa linguagem impõem são transpostos com perfeição. Por exemplo, consegue imaginar uma cena de sexo séria, intensa e emocionante entre dois bonecos? Pois é, é disso que estamos falando aqui.

Genial sem ser pedante. Complexo, mas cheio de simplicidade.

sábado, janeiro 23, 2016

Ponte dos espiões (Bridge of spies), de Steven Spielberg

Resumindo de forma rasteira o que penso de Spielberg: ele é especializado em fazer filmes para a família média estadunidense. Tem mensagem, tem lição de vida, tem exemplos bem claros do que é bom e o que é ruim, do que é bem e do que é mal, do que se deve ter orgulho e do que se deve ter aversão. O problema é que ele faz isso em todos os filmes, inclusive quando o público é adulto. Mesmo que o argumento comporte, não tem peitinho, não tem violência, não tem palavrão, não tem nem cigarro. Trata os espectadores mais maduros com um zelo desmedido. Ou seja, como debiloides.

Seu novo trabalho, Ponte dos espiões, trata de um tema que é bastante denso, adequado para o público mais velho - principalmente o que está na minha faixa etária. O roteiro conta a história verídica (como Hollywood adora histórias verídicas...) de um advogado trabalhista que é designado pelo governo de seu país, em plena Guerra Fria, para defender um homem acusado de ser espião russo. Exercendo a advocacia com hombridade e probidade, acaba esbarrando no revanchismo típico da época. O Estado quer demonstrar imparcialidade e respeito às convenções internacionais na frente das câmeras, mas deseja, por debaixo dos panos, que o acusado seja condenado à morte.

Um filme sobre espiões, prisões e impasses diplomáticos podia ter violência. Podia ter palavrão também. Podia até ter um par de tetas. Podia ter tortura, já que esse era um método muito usado para se obter informações de prisioneiros políticos. Técnica, inclusive, que os estadunidenses dominavam, emprestando a expertise para outros governos ao redor do mundo, como o Brasil dos Anos de Chumbo. Mas como é do Tio Spielberg, não tem.

A lição está muito clara. O personagem de Tom Hanks, o tal advogado, manda ao inferno agentes da CIA, policiais do FBI e até o juiz da vara onde o processo corre. Desobedece ordens de seus superiores para que faça corpo mole e afrouxe a defesa de seu cliente. As crianças do Tio Spielberg, aqui, aprendem que deve-se ter um senso de justiça sempre reto, mesmo que carreira, vida e família corram perigo. E mesmo que, como aconteceu de verdade, o cidadão consciente de seus deveres e no cumprimento de suas funções seja alvo da furiosa opinião pública, massa de manobra acéfala, que prefere ver o Estado de Direito ignorado para fazer justiça como na lei de talião. Isso dura uma hora de projeção. Apesar do maniqueísmo barato, o segmento tem ritmo, faz lá sua crítica, é bem montado, a fotografia é bem cuidada e a direção de arte é caprichada. Tecnicamente, perfeito.

Que "fria", hein Tom Hanks?!

Então, vem a segunda hora. É quando o mesmo advogado é acionado novamente pelo Estado, agora para interceder em uma troca diplomática: o tal espião russo por um piloto estadunidense capturado em território soviético. A troca acontece em Berlim, exatamente no momento em que o muro era erguido. Entra na história, de gaiato, um estudante de Yale, detido por estar no lugar errado e na hora errada. E aí, Tio Spielberg dá mais uma aula de civilidade e compaixão. Tom Hanks só vai sair da Alemanha, novamente contrariando ordens de seus superiores, com os dois prisioneiros, o piloto e o estudante. Isso também dura uma hora, e apesar do maniqueísmo de romance de banca de jornal, tem lá seu ritmo. A técnica, de novo, está lá.

O filme tem duas horas e vinte minutos. Então, o que acontece nos vinte minutos finais? Tio Spielberg arruína todo o resto com aquele talento que lhe é peculiar. Uma série de cenas desnecessárias, um amontoado de clichês e aquele didatismo horroroso que está presente em todos os filmes que ele dirige, tanto para crianças quanto para adultos.

Fico imaginando Ponte dos espiões dirigido por um Costa-Gavras, por um Ken Loach ou por um Gillo Pontecorvo. Contigo não dá, Tio Spielberg. Foi mal, mas não dá mesmo!